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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

10
Out18

Uma seringa que virou o meu mundo do avesso no trabalho


Esta história já estava prometida há muito tempo, por isso como o que é prometido é devido, aqui está o relato de como uma seringa virou o meu mundo do avesso no trabalho.

 

Na farmácia onde eu me encontro prestamos o serviço de administração de vacinas e injectáveis.

 

Para mim já é bastante corriqueiro dar alguns tipos de injecções, como as vacinas da gripe e da pneumonia, umas subcutâneas na barriga para diluir o sangue, injecções de vitamina B12 ou as extremamente banais combinações de Relmus e Voltaren quando uma pessoa está entravada que nem se consegue sentar.

 

Mas depois existem aquelas que uma pessoa treme só de ouvir o nome delas, como é o caso das Lentocilin, umas injecções de penicilina que além de ser dolorosas para quem as recebe não são a coisa mais fácil deste mundo de preparar.

 

Antes de continuar a história quero que observem a imagem abaixo para que não haja dúvidas sobre o que me aconteceu.

 

Seringa

Esta imagem serve apenas para identificarem as diferentes partes da seringa. A retratada é uma seringa de insulina, que não é a que eu uso para dar injecções - normalmente as que utilizo possuem agulha amovível.

 

Ora estava eu muito bem a trabalhar quando chega um utente a pedir que lhe fosse administrado uma Lentocilin.

 

O meu primeiro instinto foi passar a batata-quente para um colega que tinha sido enfermeiro, mas infelizmente ele estava de folga. E para meu infortúnio não havia mais ninguém que quisesse administrar a injecção.

 

Enchi-me de coragem e disse ao senhor que eu lhe daria a pica, mas que me desse cinco minutinhos enquanto eu a ia preparar.

 

Fui para o gabinete, chorei durante 30 segundos e depois comecei a preparação.

 

Eu foi rodar o frasco para o aquecer, enfiar líquido, tirar líquido, acender uma vela de eucalipto, fazer um movimento de zumba com a anca e por fim já tinha tudo pronto para administrar.

 

Abri a porta e chamei o senhor, que estava na conversa com outra pessoa.

 

Chamei, voltei a chamar, ponderei em atirar para o ar um foguete de sinalização para ver se ele me via, até que ele se decide em vir ter comigo.

 

Fui directo ao assunto:

 

Mostre-me o cu.

 

Isto comigo é assim, não há cá floreados.

 

Mal vi o cu do utente, pimba, espetei-lhe com a injecção.

 

Tudo corria bem.

 

Comecei a administrar o líquido mas pouco depois deixei de conseguir empurrar o êmbolo.

A seringa tinha entupido - algo bastante corriqueiro de acontecer com a Lentocilin, segundo o que me ensinaram.

 

Mantive a calma, pedi desculpa ao senhor e disse-lhe que o teria de picar outra vez.

 

Substituí a agulha, usei a antiga para desbloquear alguma partícula que pudesse ter ficado na saída do corpo da seringa, e voltei a picar.

 

Quando tentei empurrar o êmbolo ele tornou a não se mexer.

 

Nesta altura já todo eu suava, tremia, prestes a desmaiar.

 

Pedi novamente desculpa ao senhor porque o devia estar a magoar, ao que ele me responde que não, que nem estava a sentir nada.

 

Então pensei para mim:

 

Ah, estás a ser idiota, se calhar este líquido é espesso e tens de fazer mais força para ele entrar.

 

Resolvi então aplicar toda a minha força no êmbolo da seringa, o líquido iria entrar a bem ou a mal!

 

PUM

 

Numa fracção de segundo o êmbolo da seringa saltou da mesma contra a minha cara, e eu, a parede e o chão ficaram cobertas com um líquido branco.

 

Inacreditavelmente o utente continuava impávido e sereno com a seringa espetado no rabo sem se dar conta do que tinha sucedido.

 

Descobri depois que o problema não foi a agulha entupir mas sim a Lentocilin ter como que precipitado dentro da seringa devido ao facto do utente não ter ido logo ter comigo.

Se eu a tivesse preparado ao pé dele já nada disto teria acontecido, mas para não ficar nervoso durante a preparação acabei por passar a maior vergonha de sempre durante a administração.

 

Mil e uma ideias passaram-me pela cabeça sobre como resolver a situação, mas nenhuma era plausível por isso tive de dizer ao utente que teríamos de fazer uma pequena pausa.

Quando ele se virou e descobriu-me com os óculos e a cara toda salpicada de branco primeiro ficou estupefacto, mas depois começou a rir-se descontraidamente.

 

Felizmente para mim era uma pessoa muito acessível, e apesar de eu querer um buraco para me enfiar não me fez sentir ainda pior.

 

Pedi-lhe dois minutos, fui buscar uma nova injecção enquanto chorava um bocadinho, preparei-a ao pé dele, e com uma ansiedade terrível a saltar-me pela boca, administrei-a.

 

Perfeitinha, sem dores, sem nenhum problema associado.

 

Apesar de tudo ter terminado em bem fiquei traumatizado. Porque acho que sou o primeiro e único farmacêutico do país a quem lhe explodiu uma seringa na cara!

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