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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

03
Jun18

Uma Mosca no Lugar Errado


Há alguns anos atrás tive a oportunidade de fazer voluntariado no Uganda.

 

Uma das coisas que mais me fez confusão no início foi ter de usar uma latrina para fazer as minhas necessidades. Apesar de estar dentro dum edifício de cimento a latrina era simplesmente um buraco no chão onde tínhamos de nos colocar de cócoras e fazer pontaria para basicamente não sujar o pavimento, algo que não iria de todo agradar à pessoa que fosse a seguir usá-la.

 

Como qualquer boa latrina que se preze ela era apenas limpa assim de dois em dois meses, ou seja, quando cheguei conseguia visualizar um buraco enorme e ao longo do tempo fui vendo ele ir-se enchendo daquilo que vocês estão a pensar. Porque raio eu olhava para lá? Acho que era uma espécie de medo mórbido em deixar cair um chinelo no buraco e ter de o ir lá buscar no meio daqueles dejectos todos. Na realidade o chinelo ainda seria o menos, agora imaginem que deixava cair lá o passaporte, é que não havia forma de o poder deixar lá, tinha mesmo de o ir buscar. Felizmente nunca fui destrambelhado o suficiente para o levar perto sequer da latrina.

 

O edifício estava virado directamente para uma zona do povoamento repleta de pequenas cabanas, o que fazia com que qualquer pessoa pudesse ver quem entrava e saía da casa-de-banho. A meu ver um grande erro de planeamento urbanístico! Também interessante era a sofisticação do sistema de fecho da porta da latrina – um prego atado a um cordel que encaixava num pequeno buraco na parede.

 

Ora numa fatídica manhã dirigi-me à latrina acompanhado pela minha fiel lanterna visto o sol ainda não ter nascido. A razão para tão matutina incursão devia-se ao facto de quando começava a haver luminosidade era impossível usar os lavabos devido à quantidade industrial de moscas que eram atraídas pelo inconfundível cheiro a cocó.

 

Entro, fecho a porta com o sistema do cordel e do prego, baixo as calças e agacho-me entregando-me à tarefa de reflexão sobre o que teria de enfrentar naquele dia de trabalho. Foi então que do buraco surgiu tresmalhada uma mosca solitária que, sem pedir licença, fez um voo directo ao buraco do meu rabiosque.

 

Ao sentir tão inesperada presença num local tão sensível dei um grito, levantei-me num rompante, desequilibrei-me nas calças que me estavam pelos tornozelos, caí, bati contra a porta da latrina que para meu desespero tinha ficado mal fechada e se abriu de rompante, e ali fiquei eu estatelado no chão, de porta aberta, calças em baixo e à vista de todas as cabanas do povoado.

 

Felizmente todos ainda dormiam, senão a minha vergonha teria sido bastante maior.

 

Levantei-me, voltei a entrar na latrina e fechei a porta convenientemente.

 

Da mosca nem sinal. Nem uma bebida sequer me pagou!

 

 

 

 

(Este texto foi publicado no blog da Chic'Ana, na rubrica One Smile a Day. Como na altura apenas um excerto foi partilhado aqui no blog achei que era justo ser divulgado na íntegra aqui neste meu cantinho! As minhas desculpas a quem já conhecia a história!)



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