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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

30
Dez17

Um passeio calmo e cultural pelo rio Ganges na Índia


Talvez já não se lembrem mas a história de O Leitor Decide #4 acabou por não ser revelada.

Isto muito por culpa minha porque andei sempre a adiar a escrita da mesma, visto que não tenho estas histórias já preparadas e prontas a postar.

 

Por isso, e antes que o ano termine, tinha que dar uma satisfação a todos os que votaram.

 

As opções que estavam a votos eram "Um passeio calmo e cultural pelo rio Ganges na Índia" ou "Uma aventura cheia de adrenalina no Rio Nilo no Uganda".

 

Apesar das votações terem sido renhidas, acabou por ganhar o passeio calmo e cultural pelo rio Ganges, porque houve a ideia de que o título era apenas para enganar, que uma pessoa agora já não pode fazer um passeio tranquilo sem nenhuma peripécia de maior.

 

Pois bem, este passeio foi feito mais concretamente em Varanasi, localizada nas margens do Rio Ganges, sendo que a cidade além de ser a mais sagrada no hinduísmo é também uma das mais antigas no mundo.

 

O roteiro turístico que eu, o cara-metade e a minha mãe fizemos não incluía inicialmente esta cidade, mas eu praticamente exigi que a adicionassem, porque há muitos anos tinha visto um documentário na televisão e tinha ficado fascinado com a mesma.

 

E não desiludiu.

 

A vibração religiosa que se sente é fantástica, a quantidade de gente devota que se banha nas águas do rio é impressionante e vale muito a pena observar o pulsar desta cidade a partir do rio, em dois momentos distintos. O primeiro ao pôr do sol, o segundo ao nascer do mesmo. 

 

Algo que me lembro sempre com um pequeno arrepio na pele é da cerimónia religiosa nocturna, com todos os seus sons e cores, que visualizamos a partir do barco, sendo que há dezenas e dezenas de barcos a ocupar todo o rio, repletos de fervorosos crentes ou de entusiasmados turistas, todos numa espécie de transe, unidos por um momento tão singular.

 

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E pronto esta é a história do meu passeio pelo Rio Ganges.....

 

 

 

 

Mas quem é que eu quero enganar?!? Obviamente que houve história por detrás desta história!

 

Antes de irmos para a Índia a senhora da agência de viagens meteu-nos um bocadinho de medo, que ia ser complicado em termos de comida, que normalmente as pessoas ficavam mal dos intestinos, que até o arroz branco era incrivelmente picante.

 

Ora tendo em conta que a minha mãe não aguenta muito picante e que eu próprio não estava muito interessado em ficar com as micro vilosidades intestinais destruídas de tanta diarreia que pudesse ter, levámos uma mala cheia de barrinhas de substituição de refeição caso não houvesse outra alternativa alimentar.

 

Tenho a dizer que voltámos de férias mais gordos do que fomos, de tanta comida que enfardámos (especialmente pão naan, aquela coisa deliciosa vinda dos deuses). Obviamente que havia pratos picantes, mas além de não serem merecedores de enfiarmos um extintor na boca, muitos outros eram feitos de uma forma mais ocidental e amiga do palato turístico.

 

Claro que a senhora minha mãe, esperta, mandava-me sempre tirar um bocadinho de comida primeiro para o meu prato (comemos sempre em estilo buffet), provava, e caso aprovasse é que tirava para ela.

 

Esta história toda para quê? Para vos dizer que o meu intestino funcionava maravilhosamente, regular, a uma hora certinha, com uma consistência que muito me agradava.

 

Quando chegámos a Varanasi é que a porca torceu o rabo. Depois do passeio de barco nocturno o nosso guia informou-nos que no dia a seguir teríamos que acordar mais cedo, lá por volta das quatro da manhã, de forma a podermos ver o nascer do sol, já do barco.

 

Quatro da manhã era um bocado agressivo para nós - turistas - que já estavam mortos de andar de um lado para o outro, mas afinal eram férias e toda a gente sabe que nas férias a pessoa acaba mais cansada do que quando para lá foi.

 

Acordámos, todos com os olhos remelosos como se estivéssemos cheios de conjuntivite, enfiámos algo no estômago só para enganar a fome - que isto uma pessoa tem fome a qualquer hora que seja - e rumámos em direcção ao cais.

 

Quando lá chegados, o guia perguntou se alguém precisava de ir à casa-de-banho antes de embarcar. Ninguém se acusou e fomos então todos em direcção ao barco.

 

Ora precisamente quando estava prestes a embarcar dá-me uma cólica. E eu penso, oh diabo!, então agora que eu deixei a casa-de-banho para trás é que me dá vontade?

 

Mas ignorei, presumi que fosse apenas um pequeno movimento intestinal e quando chegasse ao fim da viagem resolvia o assunto.

 

Enganei-me redondamente.

 

Mal o barco começa a navegar dá-me outra cólica. E mais outra. E outra. O meu relógio intestinal estava furiosamente a dar horas.

 

E eu só pensava que tinha de me aguentar, desse por onde desse tinha que controlar o meu intestino.

 

E foquei-me, no nascer do sol, na cidade a ganhar vida, nas pessoas a banharem-se, nos vendedores de tudo e mais alguma coisa que nos abordavam nos seus barquinhos. Mas sempre com cólicas que me davam uns suores frios que estava a ver que ia desmaiar.

 

Eu até estava a conseguir controlar mais ou menos a situação mas basicamente não podia mexer-me nem um centímetro. E claro que a minha mãe metia conversa comigo e agarrava-me pelos braços para chamar a minha atenção, o cara-metade passava-me a máquina para a mão para tirar fotografias, e eu a cada movimento ou a cada palavra que dizia ficava cada vez mais aflito.

 

Tinha a certeza que o meu esfíncter ia rebentar a qualquer segundo.

 

A certa altura o barco dá meia volta e começa a voltar para trás.

E eu agradeço aos céus porque só tinha que aguentar mais um bocado até voltar a estar perto da casa de banho.

 

Mas as cólicas começam a ficar piores. E mais ninguém no barco parece reparar que eu estou em plena agonia porque está tudo na conversa e a rir-se. E eu desesperado, mas mesmo DESESPERADO.

 

Na minha cabeça só sei que acontecesse o que acontecesse não me podia borrar no barco. Seria mau de mais, seria uma vergonha para o resto da minha vida, era impossível fingir que não tinha acontecido.

 

Olho para as pessoas a banharem-se nos rios. O Ganges supostamente é um dos rios mais poluídos do mundo, mas naquele momento eu estava por tudo.

 

Por mais que um momento estive a um pequeno passo de me despir e saltar borda fora para fazer cocó na água.

Afinal mais poluída não poderia ficar. E entre ficar em pelota num rio e borrar uma embarcação, preferia mil vezes a primeira opção.

Claro que também podia simplesmente baixar as calças e colocar o rabo de fora do barco, mas e se houvesse um balanço e acabasse por fazer meio dentro meio fora?

 

Atirar-me para a água era a opção mais viável naquele momento.

 

Mas havia esperanças, o barco estava a chegar ao cais e eu sabia que conseguia aguentar-me mais um bocadinho, mais um bocadinho eu sabia que conseguia.

 

Então o guia diz que vamos visitar o crematório que fica na outra ponta do rio. E depois de lá saímos e vamos dar um passeio a pé antes de voltar para o hotel.

 

E eu aí soube que não dava, que não podia, que não conseguia aguentar mais.

 

Olhei para o guia e disse-lhe:

 

Eu preciso de ir à casa de banho, já!

 

Eu não sei se falei em português, se falei em espanhol, em inglês ou em hindi, eu só sei que fiz um ar de urgência tal que ele imediatamente deu uma ordem ao condutor do barco que o virou em direcção ao cais.

 

Chegámos lá num instante e o guia disse-me para o seguir, deixando a minha família assim meio sem saber o que se passava, porque eles incrivelmente ainda não se tinham dado conta que eu estava um passo de literalmente me desfazer.

 

Corri atrás do guia em direcção à casa de banho que ainda ficava a uns dois minutos do cais.

 

E foram os dois minutos mais longos da minha vida, porque a cada cinco passos que dava era assaltado por uma cólica que pensava que ficava ali.

 

Mas não podia, se tinha conseguido aguentar até aquele momento raios se não ia conseguir chegar à casa de banho.

 

Apesar do local ser extremamente movimentado, consegui chegar finalmente sem atropelar ninguém, provavelmente porque as pessoas viam o meu ar de loucura desesperada na cara e se afastavam com medo.

 

A casa-de-banho era um complexo enorme com um recepcionista à porta onde se deixava dinheiro depois de utilizarmos o espaço. O guia pergunta-me se eu tenho dinheiro e eu rapidamente digo que sim enquanto me atiro porta a dentro.

 

E nesse momento gritei.

 

 

Gritei de desespero.

 

 

Porque apesar de haver uns vinte cubículos, em todos eles estava uma fila de duas ou três pessoas.

 

Apeteceu-me atirar para o chão em lágrimas, enquanto era assolado por outra cólica, mas não, se era mau ter-me borrado no barco pior era borrar-me no meio daquela gente toda que ainda me espancava por ser um turista desrespeitoso.

 

Lembro-me perfeitamente que comecei a cantar o Turbinada da Ana Malhoa enquanto dava saltinhos atrás de dois indianos corpulentos num esforço hercúleo para me aguentar - certamente as pessoas achavam que eu tinha fumado alguma coisa que não devia.

 

Tinha percebido, aquando da abertura e fecho da porta dos cubículos, que a casa-de-banho era uma latrina, o que para muitas pessoas podia ser um problema, mas eu depois de ter passado dois meses no Uganda já tratava as latrinas por tu, por isso só pedia que as pessoas da minha frente se despachassem.

 

Nesta altura vocês pensam que nada mais me podia acontecer certo?

 

Errado!

 

Quando já não tenho ninguém à minha frente e sou o próximo para entrar aproxima-se de mim um indiano que me agarra pelo braço. Dá-se-me outra cólica fortíssima e começa a cantar desesperadamente o turbinada. Finco os pés no chão mas ela olha-me muito sério e abana a cabeça.

 

E eu só penso o que é que aconteceu? Mas o que é se passa. Deixe-me usar a latrina!!.

 

Ele puxa-me com mais força enquanto continua a abanar a cabeça mas agora com um sorrizinho.

 

Leva-me para à frente de um cubículo que está trancado, enquanto grita algo que eu assumo ser em hindi. Rapidamente aparece um senhor com uma chave, e eu com os olhos cada vez mais esbugalhados, até que abrem o cubículo que surpresa das surpresas, é o único que tem uma sanita.

 

Agradeço rapidamente - naquele momento eu só queria um buraco qualquer para cagar - entro, fecho a porta, arranco as calças e.....AAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!

 

Fico uns bons cinco minutos numa espécie de meditação a tentar repor o meu equilíbrio interno. Tinha sido bem sucedido em não passar a vergonha da minha vida.

 

Acabo o que tenho a fazer e abro a torneira que havia ao lado da sanita para encher um pequeno recipiente que servia para lavar a dita cuja, devido à inexistência de autoclismo.

 

E não consigo fechar a torneira.

E em vez de jorrar menos água começa a jorrar cada vez mais. Começo novamente a entrar em pânico. O chão está a ficar inundado a um ritmo alucinante.

 

Abro a porta, rapidamente fecho-a atrás de mim para ninguém se perceber da desgraça que está a acontecer, e voo casa-de-banho fora.

 

Passo pelo senhor da recepção que tem uma mesa repleta de moedas e num movimento rápido coloco à frente dele duas notas enquanto balbucio um obrigado.

Ele fica a olhar num misto de surpresa e incredulidade para um valor tão alto enquanto eu me afasto o mais célere possível.

 

Digam o que disserem, a dignidade não tem preço!

 

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