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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Um comboio cheio de ninguém

23.08.17, Triptofano!

Oito da manhã.

Espero na plataforma pelo comboio. Chega à hora prevista, carrego no botão e entro naquela caixa de metal que me há-de levar ao trabalho.

 

A carruagem está cheia. Na realidade não está, apenas 16 seres humanos partilham o mesmo oxigénio, mas é quase como se estivesse. Os bancos agrupam-se 4 a 4 e em cada uma dessas unidades está uma pessoa sentada.

 

Os novos passageiros que entram perscrutam o espaço com o olhar à procura de um conjunto de bancos livres. Não encontrando caminham na direcção de outra carruagem ou deixam-se estar em pé encostados às divisórias de plástico fosco.

Parece que se perdeu a capacidade de se interagir uns com os outros, de se dar os bons dias, de se procurar o calor humano e brindar um desconhecido com um sorriso e dois dedos de conversa.

 

Alguns dirão que preferem sentar-se onde não esteja mais ninguém por uma questão de comodidade, de espaço para as pernas e para a bagagem. Pergunto-me quanto espaço é que a solidão precisa de ter.

 

Para outros a ausência de companhia é fulcral para uma viagem descansada, para se focarem no livro que estão a ler, nas mensagens que estão a trocar, na música que estão a ouvir. Mas por mais sentimentos que uma música, um livro ou uma hora passada nas redes sociais nos possa provocar haverá algo que se equipare ao contacto com outro ser vivo? Olhar o rosto de alguém mostra-nos muito mais sobre essa pessoa do que uma troca de mensagens onde tanto se oculta e outro tanto se altera. Sentir o odor de uma pessoa, a suavidade da sua mão num cumprimento demorado, ouvir a vibração da sua voz, não são estas experiências que deveríamos ambicionar?

 

Vivemos com medo dos outros, numa quase paranoia de sermos assaltados, tanto física como espiritualmente. Isolamos-nos, talvez porque já não saibamos como nos dar.

 

Vislumbro um lugar vazio no fundo do comboio. Abandono-me numa perfeita simbiose entre a minha pele e aquele assento puído. Fecho os olhos e desejo secretamente que alguém venha falar comigo. Apenas para não me sentir mais um entre tantos. Apenas para não me sentir invisível um dia mais.

4 comentários

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    Triptofano!

    24.08.17

    Obrigado minha querida!

    É engraçado como nós na blogesfera às vezes transmitimos uma ideia que não é 100% fidedigna de nós mesmos. Nunca em 100 mil anos pensaria que eras uma pessoa anti social ao ler o teu blog, mas a escrita tem esta capacidade incrível de nos libertar! E acredito que trabalhar ao público tenha-te feito sair mais da tua concha, tem mesmo que ser senão o teu negócio não iria certamente correr tão bem como corre.

    Confesso que eu também não sou pessoa de dar o primeiro passo numa conversa, talvez porque seja demasiado auto crítico e comece a pensar que vou fazer de estúpido ou que vou incomodar a outra ou que ninguém me vai achar interessante. Às vezes somos os maiores inimigos de nós mesmos e isso ainda contribui mais para o isolamento em que muitas pessoas vivem!

    Gostei de ler a última parte do teu comentário, nunca tinha pensado que realmente a culpa não é dos telemóveis ou dos livros, eles apenas são meios que usamos para perpetuar uma escolha.
    Obrigado por me teres feito pensar!

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    The Cherry

    25.08.17

    Desde que comecei a trabalhar que me vi obrigada a socializar mais mas sempre fui excessivamente tímida - ao ponto de alguns acharem que era falta de educação ou arrogância - e, consequentemente fui-me tornando anti social. Com o telemóvel então é um drama! Troco sms com qualquer um, até com desconhecidos. Com chamadas já não é bem assim. Às vezes nem com conhecidos gosto de falar, vai-se lá perceber Claro que quem me conhece nem nota e, quando digo isso, até me olham com cara de "ela está maluca".
    É um problema que tento combater todos os dias mas sim, com a escrita é completamente diferente. Não que me faça de hipócrita e venha para aqui fazer-me de quem não sou, mas como dizes, tem outro poder

    Nisso concordo contigo, na grande maioria das vezes somos nós os grandes inimigos de nós próprios. E é uma pena que assim seja porque tenho a certeza que isso nos priva de imensas experiências. Mas eu também não sou a melhor pessoa para falar disso

    De nada meu querido, estou aqui para te fazer rir mas também estou aqui para te fazer pensar para tudo - ou quase, vá - que precisares
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    Triptofano!

    26.08.17

    Primeiro acho muito mal que limites a nossa amizade virtual! Então estás aqui para tudo ou para quase tudo? Aposto que se te pedir um pudim flan tu não me dás, sua gulosa!!!

    Olha somos almas gémeas do telemóvel! No trabalho atendo e ligo a toda a gente que for preciso, mas na vida privada opá, um número desconhecido que me liga normalmente vai ficar sem resposta. Chego a mandar mensagem logo de seguida a pedir para se identificarem para poder atender descansado. Não sei de onde veio este trauma mas pensei que fosse o único a sofrer dele. Está visto que não!
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