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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Trabalhar numa Farmácia em tempo de Pandemia

26.03.20, Triptofano!

Exaustão.

Esta é a palavra que melhor descreve o estado de espírito de todos aqueles que trabalham em farmácia em plena pandemia do coronavírus.

Se é verdade que os farmacêuticos não estão tão expostos como médicos ou enfermeiros que trabalhem a nível hospitalar, não é menos verdade que as farmácias são a porta de entrada para o SNS, sendo que todos os dias temos de lidar com dezenas ou mesmo centenas de utentes - nunca sabendo quem é que pode estar ou não infectado.

Vou-vos relatar como é que tem sido a realidade laboral na farmácia onde eu trabalho, para perceberem a loucura que tem sido a minha vida nestes últimos tempos.

Quando os primeiros casos surgiram em Portugal, a nossa decisão foi continuar a trabalhar de porta aberta mas com algumas restrições. Só entrava na farmácia um utente por cada farmacêutico que estivesse livre para atender e tinha de manter uma distância de segurança do balcão. Para isso fizemos umas marcas com fita adesiva vermelha no chão de forma às pessoas saberem onde deveriam permanecer.

Claro que houve quem desrespeitasse completamente as marcas quase que se deitando em cima do balcão e quem ainda resmungasse que não fazia sentido nenhum e que como é que podiam ser atendidas assim e bla bla bla. Para nós também não era muito cómodo, porque tínhamos de passar o dia inteiro a gritar, já que bastava haver um utente mais surdo para em menos de nada toda a farmácia estar literalmente aos berros.

Nessa altura foram encomendados uns acrílicos para colocarmos no balcão de forma a podermos ter as pessoas mais perto mas sem risco de levarmos com um gafanhoto contaminado mesmo no meio da cara, como aqueles que existem nas bilheteiras das estações de comboio. Acabámos por nunca os estrear já que o número de casos começou a aumentar a um nível assustador.

Fechámos completamente a farmácia ao público e agora só atendemos ao postigo. O problema é que o postigo foi criado para atendimentos pontuais, e não para ser usado durante todo o dia. Não existe privacidade, a comunicação é muito mais complicada, além de que as filas gigantescas que se formam fazem com que uma pessoa tenha sempre aquela urgência de despachar trabalho.

Sinto que faço o melhor que posso com as condições que tenho, mas também tenho a noção que as pessoas não vão tão bem servidas como iriam numa situação normal. Atenção, as pessoas não vão mal servidas, mas a qualidade do atendimento diminuiu. Sei que é algo que não posso controlar, mas também é algo que me deixa insatisfeito.

Na farmácia onde trabalho somos 9, e para minimizar o risco de um colaborador ficar infectado e a farmácia ter de fechar por todos os outros entrarem de quarentena, dividimos-nos em equipas de 3 pessoas, que vão rodando. O turno A vai das 9h às 14h, o B vai das 15h às 20h, e o C vai no dia a seguir das 9h às 14h - o que faz com que entre cada período de trabalho tenhamos 24 horas de descanso. Das 14h às 15h a farmácia fecha para uma desinfecção de alto a baixo.

E se é verdade que trabalho menos agora em número de horas, tenho de confessar que o meu nível de exaustão aumentou de uma forma louca. Porque no período em que estou na farmácia é o completo caos.

A fila de pessoas é até perder de vista - parece que existe sempre alguma coisa para comprar. Os telefones não param de tocar, para esclarecer dúvidas, para fazer encomendas ou para desabafar - e o som deles enraíza-se de tal forma na cabeça que quase leva à loucura. Na caixa de e-mail estão constantemente a cair encomendas, de pessoas que (e bem) não querem ficar na rua ao frio, à chuva ou à mercê da falta de cidadania dos outros que teimam em não manter a distância de segurança.

Ao mesmo tempo que isto acontece a campainha da porta está constantemente a tocar. Ou são pessoas que vieram levantar e pagar encomendas, ou são os distribuidores de medicamentos que chegam com mais um pedido de medicamentos - normalmente com um atraso de dois a três dias, tal é o pandemónio em que todos estão.

As caixas de plástico onde chegam os medicamentos, vulgarmente conhecidas como banheiras, tem de ser pulverizadas com Soluto de Dakin e ficar em quarentena durante 15 minutos, antes de as podermos levar para dentro. Só nessa altura é que podemos tentar começar a dar entrada dos medicamentos que vieram - se o telefone deixar de tocar, se os e-mails deixarem de aparecer, se as pessoas decidirem não vir à farmácia só para se queixarem que os comprimidos que costumavam fazer eram azuis e agora aqueles são verdes com pintinhas amarelas.

Desinfectamos as mãos entre cada atendimento de forma compulsiva. Antes usávamos luvas mas percebemos que não era o melhor procedimento por isso agora trabalhamos de mãos nuas. Pulverizamos multibancos e postigo com álcool a 70ºC entre cada atendimento. Temos no rosto máscaras cirúrgicas que nos dificultam a respiração e a mim deixam os lábios a escamar como se fosse uma cobra.

Não temos máscaras, nem álcool, nem álcool gel para vender. O material que usamos para nos proteger e para proteger os outros foi conseguido a preços astronómicos, e mesmo assim não é suficiente para o tempo que esta pandemia é suposto durar.

Custa-me ver nas redes sociais pessoas a denegrirem o bom nome de farmácias por terem comprado uma máscara a 18€, quando a culpa, na maior parte das vezes, vem de trás. Mas as pessoas não querem saber, quem dá a cara, quem não pode estar de quarentena, quem tem de estar de portas abertas por ser considerado um serviço essencial é que tem de ser enxovalhado, envergonhado, muitas vezes ameaçado.

Quando venho para casa, sempre com medo do que é que posso trazer - deixei de ver os meus pais à quase um mês para ter a certeza que não os infecto - não me deito a dormir. Continuo ligado ao telemóvel, a esclarecer dúvidas do meu trabalho e do trabalho do meu grupo ao responsável do grupo que vem a seguir ao meu. Porque não estamos juntos, vemos-nos ao longe, mas não mais do que isso.

Exausto é como eu me sinto. Exaustos é como todos os farmacêuticos e profissionais de farmácia neste momento se encontram.

Mas continuamos todos os dias a ir para o trabalho, porque sabemos que a população precisa de nós, mesmo que muitas vezes essa população não nos dê o valor merecido.

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