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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

SOS Cérebro

24.10.17, Triptofano!

Debati-me internamente durante muito tempo sobre se deveria ou não publicar este post. Simplesmente pelo facto de me ir expor mais do que talvez quisesse - mas há alturas na vida que tempos de pegar o touro pelos cornos.

 

Sou doente mental. Assim, de forma crua, sem artifícios linguísticos. Padeço de uma doença do foro psiquiátrico que me dá acesso à categoria dos doentes mentais - quer eu goste ou não dessa inclusão forçada. Infelizmente, as doenças, ou distúrbios, ou transtornos, ou como queiram chamar as coisas que acontecem e não era suposto acontecerem dentro da cabeça de uma pessoa, ainda são muito estigmatizadas.

 

Tornamos-nos automaticamente os tontinhos, ou os maluquinhos, ou os coitadinhos que não sabem o que andam a fazer pelo mundo. Isso ou basicamente pensam que andamos é a querer chamar a atenção, porque se não coxeamos, não nos falta um olho e não temos uma traqueostomia então porque raio é que não haverá de estar tudo bem?

Problemas de cabeça? Vá dar uma volta que isso passa - foram as palavras da minha médica de família quando abordei o tema pela primeira vez aos 17 anos.

 

Na última década tive altos e baixos, altos muito grandes e baixos catastróficos. Consultei vários médicos onde fui diagnosticado com tudo e mais alguma coisa. Depressão, síndrome bipolar, ser demasiado mimado (!). 

 

Senti-me cobaia de tratamentos farmacológicos onde tomava N comprimidos para me sentir melhor e depois outros N para combater os efeitos secundários dos primeiros. Os comprimidos davam-me algum alívio no início mas era ilusório, pouco tempo depois as minhas inquietações voltavam e a resposta dos prescritores era aumentar a dose. Adormeci nos transportes públicos. Houve um mês que fazia tudo em modo zombie - os meus amigos diziam que ia a eventos com ar um completamente drogado. Cheguei supostamente a ter um encontro com alguém que me confrontou meses depois do qual não tenho a menor lembrança.

 

Fiz psicanálise, com dois profissionais diferentes. Acredito que haja bons profissionais perdidos por aí, mas deveria haver um controlo maior daqueles que simplesmente só servem para nos sugar o dinheiro. O primeiro além de dizer palavrões totalmente fora do contexto nas sessões disse ao meu pai que eu nunca iria ficar bom. A segunda passou uma hora inteira a mostrar-me fotos da viagem dela a Israel. Quando depois pergunta-me que fruto seria eu e eu lhe respondo uma romã questiona-me se seria pelo facto de ela ser de fácil abertura?! Alguém me esclareça, onde é que esta mulher anda a comprar a fruta?

 

No mês passado tive uma recaída. Sem motivo aparente, todos os demónios internos que habitam dentro de mim acordaram. Desta vez com um requinte extra de crueldade. Passei a castigar-me a mim próprio. A bater com a cabeça nas paredes. A soquear o meu próprio rosto. Foi a forma que encontrei de conseguir lidar com a intensidade dos sentimentos que me assaltavam. Sentir a dor foi uma forma de conseguir libertar a tensão que me rebentava dentro do peito.

Se foi a melhor forma de actuar? Não, mas foi a única que me pareceu acertada na altura.

 

Consultei-me com outra profissional. Sugeriu-me exercício físico, psicoterapia, contacto com o ar livre; e claro comprimidos, para controlar a crise. Os rebuçados coloridos que tomo deixam-me efectivamente mais calmo, mas também com uma vontade de estar sempre a dormir. Escrever no blog e responder aos comentários passou a ser um exercício que exige muita disciplina, disciplina essa que ainda não tenho. O desejo sexual já viu melhores dias, mas o cara-metade é compreensivo - no fim de tudo só me quer ver bem.

 

Desta vez o diagnóstico foi novidade para mim. Transtorno de Personalidade Borderline. Basicamente ao que parece se o mundo estiver a sofrer um ataque nuclear eu vou manter-me calmo e sereno (na medida do possível), mas se em casa se parte um copo basicamente a minha cabeça entra em curto-circuito e expludo. É esta reacção desproporcional a pequenos estímulos que a médica quer que eu corrija. O futuro dirá se este diagnóstico está correcto ou não.

 

Este post é então uma forma de deitar cá para fora. De partilhar convosco o que se está a passar na minha vida nestes tempos. Porque por mais que eu gostasse que fosse tudo sorrisos e gargalhadas, nem sempre o é. E também escrevo para dizer a todos os que me estiverem a ler, que não é nenhuma vergonha ter um problema do foro psiquiátrico. O cérebro é um dos órgãos - se não o órgão - mais complexos do nosso corpo, era sorte a mais não haver um problemazito de vez em quando com a engrenagem.

 

 

3 comentários

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    Triptofano!

    27.10.17

    Marquesa, sei por ler o teu blog que tu também tens passado uns tempos mais complicados, mas vejo em ti uma mulher de garra, por isso "saiam do caminho que tu vais passar!".
    A partilha foi muito reflectida, mas fiquei tão feliz ao ver o feedback que recebi aqui, que só pensei porque é que não a fiz mais cedo. Sinto-me mais leve, e apesar de saber que este mundo virtual é diferente (para melhor) do mundo real, dá-me forças para perceber que tenho de lutar por mim e não posso sucumbir a algo que não optei por ter!

    Sim, as doenças invisíveis são tramadas. Também eu já tive preconceitos, quando via pessoas que levam dezenas de medicamentos para as dores, e mesmo assim diziam que não melhoravam, que continuavam com dor, e eu pensava que não podia ser possível, que tinham de estar a fazer fita!
    Nunca julgues alguém antes de andares nos sapatos dessa pessoa - foi o que eu aprendi! Pelo facto de para mim não fazer sentido não quer dizer que não seja muito real para outra pessoa!

    Os médicos, existem médicos tão bons, mas depois existem aqueles que acham que tu estás a querer ser especial, que se o medicamento não funciona é porque és tu que estás a bloquear a acção dele de alguma forma, porque se para toda a gente funciona porque raio para ti não funciona. E lá estás tu, a penar, a fingir que não estás tão mal como estás porque já desististe de te queixar, até que, incrível, um dia descobrem que tens um problema que afecta uma pessoa em mil. E aí já não és assim tão maluquinho - afinal até tinhas razão.
    Só que as coisas não matam, mas desgastam-te!

    Um abraço e um beijinho
  • Agora comovi-me... Obrigada! Espero conseguir ter essa garra que referes.

    E concordo contigo, estas doenças são tramadas e são uma grande lição para nós. Julgar é fácil, eu faço-o tantas vezes... Ando a refrear-me, a colocar-me mais vezes nos sapatos dos outros e resulta. E penso que é isso, como humanos que são, que falta a alguns médicos (atenção que não são todos. Há muitos médicos fantásticos), um pouco de humildade e capacidade de se colocarem nos sapatos do outro.

    E que o desgaste que estas maleitas nos trazem nos sirva de polimento para sermos mais fortes e melhores pessoas.

    A tua coragem é inspiradora! Obrigada, mais uma vez!

    um abraço e um beijinho
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    CorretorMais

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