Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

24
Out17

SOS Cérebro


Debati-me internamente durante muito tempo sobre se deveria ou não publicar este post. Simplesmente pelo facto de me ir expor mais do que talvez quisesse - mas há alturas na vida que tempos de pegar o touro pelos cornos.

 

Sou doente mental. Assim, de forma crua, sem artifícios linguísticos. Padeço de uma doença do foro psiquiátrico que me dá acesso à categoria dos doentes mentais - quer eu goste ou não dessa inclusão forçada. Infelizmente, as doenças, ou distúrbios, ou transtornos, ou como queiram chamar as coisas que acontecem e não era suposto acontecerem dentro da cabeça de uma pessoa, ainda são muito estigmatizadas.

 

Tornamos-nos automaticamente os tontinhos, ou os maluquinhos, ou os coitadinhos que não sabem o que andam a fazer pelo mundo. Isso ou basicamente pensam que andamos é a querer chamar a atenção, porque se não coxeamos, não nos falta um olho e não temos uma traqueostomia então porque raio é que não haverá de estar tudo bem?

Problemas de cabeça? Vá dar uma volta que isso passa - foram as palavras da minha médica de família quando abordei o tema pela primeira vez aos 17 anos.

 

Na última década tive altos e baixos, altos muito grandes e baixos catastróficos. Consultei vários médicos onde fui diagnosticado com tudo e mais alguma coisa. Depressão, síndrome bipolar, ser demasiado mimado (!). 

 

Senti-me cobaia de tratamentos farmacológicos onde tomava N comprimidos para me sentir melhor e depois outros N para combater os efeitos secundários dos primeiros. Os comprimidos davam-me algum alívio no início mas era ilusório, pouco tempo depois as minhas inquietações voltavam e a resposta dos prescritores era aumentar a dose. Adormeci nos transportes públicos. Houve um mês que fazia tudo em modo zombie - os meus amigos diziam que ia a eventos com ar um completamente drogado. Cheguei supostamente a ter um encontro com alguém que me confrontou meses depois do qual não tenho a menor lembrança.

 

Fiz psicanálise, com dois profissionais diferentes. Acredito que haja bons profissionais perdidos por aí, mas deveria haver um controlo maior daqueles que simplesmente só servem para nos sugar o dinheiro. O primeiro além de dizer palavrões totalmente fora do contexto nas sessões disse ao meu pai que eu nunca iria ficar bom. A segunda passou uma hora inteira a mostrar-me fotos da viagem dela a Israel. Quando depois pergunta-me que fruto seria eu e eu lhe respondo uma romã questiona-me se seria pelo facto de ela ser de fácil abertura?! Alguém me esclareça, onde é que esta mulher anda a comprar a fruta?

 

No mês passado tive uma recaída. Sem motivo aparente, todos os demónios internos que habitam dentro de mim acordaram. Desta vez com um requinte extra de crueldade. Passei a castigar-me a mim próprio. A bater com a cabeça nas paredes. A soquear o meu próprio rosto. Foi a forma que encontrei de conseguir lidar com a intensidade dos sentimentos que me assaltavam. Sentir a dor foi uma forma de conseguir libertar a tensão que me rebentava dentro do peito.

Se foi a melhor forma de actuar? Não, mas foi a única que me pareceu acertada na altura.

 

Consultei-me com outra profissional. Sugeriu-me exercício físico, psicoterapia, contacto com o ar livre; e claro comprimidos, para controlar a crise. Os rebuçados coloridos que tomo deixam-me efectivamente mais calmo, mas também com uma vontade de estar sempre a dormir. Escrever no blog e responder aos comentários passou a ser um exercício que exige muita disciplina, disciplina essa que ainda não tenho. O desejo sexual já viu melhores dias, mas o cara-metade é compreensivo - no fim de tudo só me quer ver bem.

 

Desta vez o diagnóstico foi novidade para mim. Transtorno de Personalidade Borderline. Basicamente ao que parece se o mundo estiver a sofrer um ataque nuclear eu vou manter-me calmo e sereno (na medida do possível), mas se em casa se parte um copo basicamente a minha cabeça entra em curto-circuito e expludo. É esta reacção desproporcional a pequenos estímulos que a médica quer que eu corrija. O futuro dirá se este diagnóstico está correcto ou não.

 

Este post é então uma forma de deitar cá para fora. De partilhar convosco o que se está a passar na minha vida nestes tempos. Porque por mais que eu gostasse que fosse tudo sorrisos e gargalhadas, nem sempre o é. E também escrevo para dizer a todos os que me estiverem a ler, que não é nenhuma vergonha ter um problema do foro psiquiátrico. O cérebro é um dos órgãos - se não o órgão - mais complexos do nosso corpo, era sorte a mais não haver um problemazito de vez em quando com a engrenagem.

 

 

71 comentários

Comentar post

Pág. 1/3

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D