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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Referendo à Eutanásia? Não obrigado!

13.02.20, Triptofano!

Despenalizar a eutanásia significa proporcionar uma morte digna a quem não possui já esperanças de ver atenuado o seu sofrimento sem punir legalmente quem praticou o acto caridoso de ajudar outra pessoa a morrer.

Referendo à Eutanásia? Não obrigado!

Tive uma utente cuja irmã teve um acidente de carro ainda era adolescente, acidente essa que a atirou para uma cama sem conseguir mexer-se ou comunicar.

Durante 40 anos esteve presa numa cama a sobreviver todos os dias, consciente do seu estado, porque a irmã contava-me que apesar de ela não falar por vezes sorria, mas a maior da parte das vezes chorava ininterruptamente.

Não sei se esta mulher que sobrevivia numa cama gostaria de ver o seu sofrimento atenuado porque não era capaz de comunicar por palavras. Mas mesmo que conseguisse e caso fosse o seu desejo não poderia, porque quem a ajudasse a morrer seria considerado um criminoso.

Despenalizar a eutanásia não vai, como certas pessoas populistas defendem, atirar os mais velhos e necessitados para o caminho da morte assistida, mesmo que não o desejem. Vai sim melhorar os cuidados paliativos existentes neste país, porque não basta dizer que se quer morrer, assinar de cruz e adeus até um dia.

Se alguém desejar morrer de forma digna e colocar fim ao seu sofrimento terá que iniciar um processo que será aprovado ou não por uma comissão especializada no assunto.

Imaginem que temos uma pessoa com dores horríveis que não está a ser acompanhada nos cuidados paliativos e que pensa que a única forma de colocar fim ao seu sofrimento é através da eutanásia.

A comissão ao receber o pedido desta pessoa irá avaliar que cuidados é que estão a ser prestados, e ao verificar que ainda existe uma possibilidade de melhorar a qualidade de vida da pessoa vai recusar a eutanásia e sim fazer pressão para que este indivíduo receba os melhores cuidados paliativos possíveis.

Imaginem agora que esta pessoa está a receber os melhores cuidados paliativos de sempre.

Só que desenvolve uma esclerose lateral amiotrófica. Não consegue andar, não consegue comer sozinha, começa a ter a fala afectada, e os cuidados paliativos apenas atenuam-lhe as dores físicas.

Esta pessoa não merece morrer dignamente enquanto está na posse das suas capacidades mentais para tomar tal decisão? Ou a única coisa que merece é assistir à sua degradação enquanto ser humano até não restar uma miragem da pessoa que foi?

A despenalização da eutanásia não é apenas para doenças terminais e aqui muitos indignam-se com a ideia de matar alguém que poderia viver mais dez, vinte ou cinquenta anos. 

Se uma pessoa que esteja tetraplégica decidir acabar com o seu sofrimento não tem o direito de morrer dignamente? Ou por causa das crenças e ideologias de alguns temos de perpetuar uma vida que para o indivíduo não é mais que uma morte onde se respira?

Despenalizar a eutanásia não é começar a matar pessoas a torto e a direito, é sim dar o poder de escolha a como alguém quer terminar a sua vida quando já não o consegue fazer sozinho.

Sou contra o referendo à eutanásia porque despenalizar a eutanásia não implica forçar ninguém a fazer aquilo que é contra a sua vontade, enquanto que o referendo é abrir a possibilidade de alguém poder decidir sobre a vida e a morte de outra pessoa.

Só nós próprios é que devemos decidir como vivemos e como morremos.

Por mais que nos buzinem nos ouvidos que temos que sofrer como sofreram por nós ou que a vida é uma bênção que não está nas nossas mãos e que temos de aceitar o que nos colocam no caminho, o nosso destino é única e somente nosso.

Despenalizar a eutanásia é permitir que quando a festa da vida já lançou todos os seus fogos de artifício nós possamos sair a tempo pela porta grande com um sorriso no rosto!

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