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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

04
Jul18

Prioridades e Proibições


Todas as pessoas que trabalhem no atendimento ao público certamente já se viram envolvidas em atritos por causa da "nova" lei da prioridade.
 
Obviamente que se vivêssemos num país onde o bom senso imperasse não haveria necessidade de legislar acerca deste assunto, mas como não é o que acontece e pelo facto das poucas pessoas portadoras desta virtude já estarem fartas de ser comidas como parvas por aqueles que se acham chicos espertos, teve​-se que definir regras sobre quem tem prioridade sobre quem.
 
Ora algo que me aborrece é a leitura diagonal das leis que muitos cidadãos continuam a fazer. A prioridade para pessoas acima dos 65 anos é apenas se mostrarem incapacidade física ou psicológica aparente ou se forem detentores de um atestado de incapacidade multiusos com grau de incapacidade de 60% ou mais. Ou seja, se celebrar seis décadas e meia confere descontos imediatos na CP não dá o privilégio de passar à frente na fila do supermercado.
 
Mas como houve a necessidade de legislar sobre prioridades eu defendo que também se deveria discutir em parlamento proibições a aplicar a certos grupos de cidadãos.  Afinal viver em sociedade não é só direitos e regalias, há que haver deveres e responsabilidades.
 
Nesta última sexta-feira foi feriado em Sintra, zona onde se situa a farmácia em que trabalho.
Já antevia que no sábado haveria uma afluência de clientela maior que o costume devido ao feriado, mas o que não previa era que quinze minutos depois de abrir tivesse mais de 30 pessoas em espera.
E dessas 30 pessoas 80% eram idosos que estavam ali para levantar medicação crónica.
 
Não era um antibiótico ou um comprimido para as dores, eram medicamentos que fazem todos os dias e que aproveitaram para vir buscar logo de manhãzinha, entupindo o atendimento e desgraçando a vida daqueles que tinham mesmo urgência em levantar o seu receituário.
E se alguns dos idosos sabiam o que queriam agilizando o processo, a maioria não sabia que embalagens costumava levar, ou não sabia o que queria na realidade queria comprar, ou mesmo nem fazia ideia de como ligar o telemóvel para aceder à mensagem que continha a prescrição. 
 
Por isso é que acho que se há a lei da prioridade também deveria haver a lei da proibição, uma lei que proibisse um certo grupo de cidadãos, que tem todo o tempo do mundo, de usar durante certos intervalos de tempo serviços como a farmácia, os correios, o supermercado, a piscina...
Mais ou menos como acontece na China, onde dependendo da matrícula que o carro tem se pode conduzir apenas em certos dias da semana.
 
Se acham que esta lei é injusta então desafio-vos a manterem-se calmos quando reparam num grupo de seniores que passaram a tarde toda no café à conversa, e quando são seis da tarde e a farmácia começa a encher com as pessoas vindas do trabalho é que se lembram que também lhes apetece ir para lá, criando filas e demoras totalmente evitáveis se simplesmente tivessem tido o bom senso de irem a uma hora que não fosse de ponta.
 
Porque a maior parte das pessoas não vai ao supermercado ao fim do dia porque é uma óptima terapia após um dia extenuante de trabalho. Nem ao médico logo de manhãzinha porque a melhor forma de começar o dia é a ver a cara laroca do senhor doutor. Nem a correr na hora de almoço aos correios a mastigar meia sandes porque leu que comer tranquilamente é mau para a saúde.
 
A maior parte das pessoas activas laboralmente tem que ir a certas horas a certos sítios porque não tem mais nenhuma hipótese. Porque se tivesse garanto-vos que não se ia enfiar no meio da confusão apenas para ficar extasiada com o cheiro a suor e frustrações de pessoas alheias.
 
É que algo que as pessoas com tempo não percebem quando insistem em fazer as suas tarefas nas horas de maior afluência é que todos perdem por causa dessa atitude.
 
Perdem aqueles que não podem ir a outra hora despendendo por isso o dobro ou o triplo do tempo suposto.
 
Perdem os profissionais que estão a atender ao público porque ficam arrasados com a sobrecarga de trabalho, tendo de estar constantemente a ouvir resmungos e suspiros chateados, enquanto tentam despachar trabalho.
 
Perdem as pessoas que poderiam ir a outra hora mas insistem em aparecer nos períodos de maior afluência, porque em vez de serem atendidas calmamente acabam por ser despachadas mais a correr, não beneficiando de um atendimento de excelência.
 
​Se às vezes o umbigo não fosse o centro do universo todos viveríamos muito melhor neste planeta chamado Terra​.

 

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