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Triptofano

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Preservar as Células Estaminais: Sim ou Não?

30.05.19, Triptofano!

Esta é uma das perguntas mais complicadas que me podem fazer enquanto farmacêutico, mas a minha opinião é que sim, devem-se preservar as células estaminais, mas doando-as para uso público!

Por mais que eu gostasse de vos dizer que vivemos num mundo cor-de-rosa a verdade é que não vivemos, e especialmente na área da saúde muitas vezes o mais importante é fazer lucro e só depois é que vem as pessoas.

O armazenamento de células estaminais em bancos privados foi algo extremamente publicitado há anos atrás, recorrendo-se à imagem dos Influenciadores (que muitas vezes querem lá saber de dados científicos e coisas que tais) e explorando-se as normais fragilidades dos pais, que não querem ser responsabilizados por uma decisão que possa por em causa a vida do filho (no caso de optarem por não preservar as células!)

Antes de avançar mais, quero que saibam que a informação que vou aqui colocar foi retirada do Guia Prático de Intervenção Farmacêutica - Cuidados Bebé e Mamã, elaborado pela ANF em Fevereiro de 2019, sendo por isso fidedigna.

Preservar as células estaminais: Sim ou Não?

Primeiro que tudo, como é que se faz a preservação das células estaminais?

As células estaminais do cordão umbilical são criopreservadas, ou seja, estas células são conservadas por longos períodos de tempo através do congelamento a baixas temperaturas (-196ºC), mantendo a sua viabilidade durante mais de duas décadas (cerca de 23 anos), podendo ser utilizadas no tratamento de certas doenças genéticas, hematológicas e neoplásicas.

O sangue do cordão umbilical é composto por células estaminais hematopoiéticas, semelhantes às da medula óssea e do sangue periférico, com a capacidade se autorrenovarem e dividirem indefinidamente diferenciando-se em linhagens celulares distintas, podendo reparar tecidos danificados e substituir as células que vão morrendo.

No caso de um transplante, as células estaminais do cordão umbilical apresentam um menor risco de atacarem os tecidos e órgãos do doente, comparativamente com as células estaminais do sangue periférico ou da medula óssea.

Além disso, as células do sangue do cordão são colhidas e armazenadas antecipadamente e encontram-se imediatamente disponíveis para qualquer doente que necessite de um transplante urgente, existindo evidências que estas células não exigem um grau de compatibilidade dador – receptor tão elevado como para o transplante de células de medula óssea ou de sangue periférico, uma vez que se encontram num estado precoce de maturação.

Actualmente, após o parto são apresentadas 3 alternativas aos pais:

  • Possibilidade de doação do cordão umbilical para uso público, para qualquer doente que possa necessitar; (que eu recomendo vivamente!)
  • Armazenamento das células num banco privado, para uso privado; (que eu não aconselho vivamente)
  • Rejeição e inutilização do cordão umbilical.

Os bancos públicos colhem, processam e armazenam unidades de sangue do cordão doadas por pais não havendo qualquer encargo para eles.

Este sangue destina-se a ser utilizado por qualquer doente que necessite, embora estes bancos também possam armazenar sangue do cordão umbilical para uso familiar, por exemplo, para transplantação de um irmão do dador se, antes do nascimento do recém-nascido dador, for diagnosticado ao seu irmão uma doença que possa ser tratada com sangue do cordão.

Actualmente, para grande infelicidade minha, nem todos os hospitais e clínicas se encontram habilitados a participar no sistema de dádiva para uso público, sendo que os pais poderão verificar junto do médico obstetra ou no site do Instituto Português do Sangue e da Transplantação quais os centros de colheita disponíveis.

Os bancos privados colhem, processam e armazenam unidades de sangue do cordão para uso exclusivo da própria criança ou de alguém na sua família que venha a necessitar de um transplante de células estaminais hematopoiéticas no futuro.

Nestes bancos as famílias pagam para a colheita e armazenamento do sangue do cordão do seu bebé, não ficando disponível para uso público nacional ou internacional.

Agora o que é importante que os pais saibam (e não tomem decisões influenciados pelo medo) é que a probabilidade de as células do sangue do cordão umbilical virem a ser utilizada pela própria criança é baixa e que, em caso de necessidade de transplantação, o sangue do cordão umbilical da própria criança pode ser insuficiente para tratar uma criança crescida ou um adulto, sendo necessário unidades adicionais de sangue do cordão (que estarão armazenadas em bancos públicos).

Caso os pais optem pela criopreservação de células estaminais através de uma empresa privada, devem levar o respectivo kit de colheita para o hospital, sendo que devem avisar o equipa, no momento da admissão que pretendem a colheita.

Eu sei que este é um tópico que mexe com os medos de muitos e há quem prefira gastar rios de dinheiro e sentir-se mais seguro quando dorme à noite.

Lamentavelmente, como disse no início, nem tudo é transparente na área da saúde, especialmente quando há muito dinheiro envolvido, mas quero que saibam que o Conselho da Europa apoia e recomenda o desenvolvimento da dádiva voluntária e altruísta, através da criopreservação nos bancos públicos.

A criopreservação em bancos privados numa família a priori saudável é controverso, não sendo claramente suportado pela evidência clínica actualmente disponível.

Por isso sim, preservem as células estaminais do cordão umbilical, mas façam a doação para uso público!

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