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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Portugal país de brandos costumes? Não no Facebook!

04.04.20, Triptofano!

Podia dizer que a culpa é do isolamento social, que deixa as pessoas mais nervosas e com mais tempo para libertar frustrações, mas infelizmente este problema é pré-Covid. Portugal pode ter a fama de ser um país de brandos costumes, mas no Facebook em cada esquina encontra-se um justiceiro mais ou menos anónimo que não tem pudores em destruir a vida de alguém.

Vou dar-vos um exemplo concreto. Numa das várias páginas de resgate animal que existem na rede social FB, colocaram o vídeo de um animal já idoso que não aparentava receber os melhores tratamentos.

Como Portugal é um país cheio de investigadores privados de algibeira - se a trama da Casa de Papel fosse em terras lusas os assaltantes nem duravam meia hora, quanto mais já estarem na quarta temporada - descobriu-se logo de quem era o animal, qual era o veterinário que o tinha visto, quantas vezes limpavam o pátio, se ele era escovado ou alimentado com uma ração com baixo teor de hidratos de carbono.

E atenção, não estou a tentar dizer que as pessoas não devam ser polícias umas das outras - em certos casos é mesmo necessário, como em situações de violência doméstica onde estamos perante um crime de natureza pública. Agora as pessoas não devem ser juízes, guardas prisionais ou torturadores semi-profissionais uns dos outros - é bullying, é assédio, é crime! Independentemente de poderem ter toda a razão do mundo.

No caso concreto que vos estava a falar, rapidamente estourou nas redes sociais - porque quando uma informação deste rebenta faz mais danos que uma granada - a suposta foto da dona do animal, com hiperligação para o seu perfil de Facebook.

E novamente atenção, não estou a defender atitudes de ninguém, somente a dizer que colocar a foto de alguém com a ligação para o perfil público dessa pessoa é algo que não está de acordo com os nossos brandos costumes. Porque ninguém tem a certeza se aquela pessoa é verdadeiramente a dona do animal. Se a história é exactamente como a contam. Numa era de fake news cada vez mais comemos pelos olhos com apetite o que nos querem contar.

E mesmo que a pessoa da foto e da hiperligação seja a culpada, existe uma linha que não devemos ultrapassar.

O perfil da mulher estava cheio, mas cheio, de comentários de pessoas a falarem sobre o assunto. E ia desde os simples "se não pode cuidar do animal eu não me importo de ficar com ele", até aos complexos "se te visse na rua matava-te minha grande cabra", "devias apodrecer algemada num pátio" ou "nunca mais vais poder sair de casa, a tua cara vai estar em todo o lado".

Por mais que uma causa nos mova, por mais que tenhamos revolta dentro de nós por causa das atitudes nefastas de alguém, por mais que outra pessoa mereça ser castigada judicialmente, as redes sociais não são o lugar para libertar frustração vingativa justiceira e depois ir fazer o jantar como se nada se passasse.

Como será que se sente a mulher que recebeu estes comentários de forma massiva? Terá coragem para sair à rua? Para ir trabalhar? Li relatos de pessoas a dizer que iam entrar em contacto com a entidade empregadora para a exporem, para ela provar o seu veneno. Única prova: uma foto e um texto que alguém colocou online.

E mesmo que a pessoa seja culpada, não devemos nós limitarmos-nos fazer o nosso papel enquanto cidadãos através da denúncia às autoridades competentes? Uma, duas, três vezes, as que forem necessárias até o problema ser resolvido? 

Portugal tem a fama de ser um país de brandos costumes, mas não no Facebook. Aí atiram-se pedras sem medo de rachar cabeças, e pode não se ver, mas o sangue que acaba a escorrer das feridas abertas é bem real.

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