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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O que é que eu andei a fazer antes do Covid-19?

01.04.20, Triptofano!

Os mais atentos devem lembrar-se que antes de aparecer o Covid-19, esse bicharoco tão fofinho e amoroso, eu já estava um bocado desaparecido aqui do blog.

Claro que vai haver sempre aquela pessoa adepta da teoria da conspiração a dizer que eu já sabia de tudo o que ia acontecer e estava a esgotar o stock de latas de atum de todos os supermercados da zona, mas a verdade é completamente diferente.

Como vocês são os leitores mais lindos de sempre eu vou-vos contar tudo o que aconteceu, mas aviso desde já que é melhor reforçarem a dose de cafeína no vosso sistema, porque de outra forma podem acabar a ressonar e com um fiozinho de baba a escorrer pelo queixo!

Tudo começou (há um tempo atrás, na ilha do sooool) quando eu cheguei ao meu trabalho, ainda os utentes entravam pela farmácia e lambiam os dedos para folhear as receitas e nos mandavam perdigotos para a cara, e uma colega disse que ia ser emitida uma reportagem da TVI sobre um medicamento, o Depakine, e como as farmácias o vendiam qual pãozinho quente sem exigir justificação.

Para ser sincero já estou habituado a que a comunicação social dê porrada nas farmácias e nos farmacêuticos, mas uma pessoa como tem as costas largas aguenta e continua a trabalhar, que o salário não aparece por milagre na conta bancária. O problema é que nesta entrevista, a Ordem dos Farmacêuticos tomou posição e digamos que não foi muito fofinha para os farmacêuticos.

Claro que vai haver gente a dizer que sim, que a Ordem disse o que tinha a dizer e bla bla bla, mas como o blog é meu eu escrevo o que eu senti. E o que eu senti foi que a Ordem nos deu uma facada nas costas. Por isso o que é que aqui o vosso amigo Triptofano fez?

Foi escrever para o Facebook!

Como qualquer indignado que se preze, escrevi um longo texto a dizer tudo o que me ia na alma, extremamente convencido que ia receber no máximo uns 5 likes e 2 comentários a dizer que sim, eu tinha razão mas que não havia nada a fazer.

Qual foi o meu espanto quando o meu post gerou toda uma onda de indignação! Centenas e centenas de likes e de comentários, pessoas já com archotes e paus e cânticos de ordem, e eu a pensar que tinha iniciado uma verdadeira revolta farmacêutica.

E o que é que eu fiz?

Continuei a escrever tá claro. Porque podia ter ficado caladinho no meu canto sem intervir mais, mas não, escrevi mais dois ou três posts indignados que foram o suficiente para atrair a atenção da Bastonária da Ordem.

No dia em que ela me ligou pensei que a minha carreira tinha chegado ao fim. Mais valia eu entregar a minha carteira profissional porque certamente ela ia perguntar-me se eu não tinha tensões para medir em vez de andar a incitar à revolta no Facebook.

A verdade é que a Bastonária foi extremamente simpática, e a chamada dela prendia-se com o facto de querer marcar uma reunião com todos os colegas, transmitida online, de forma a poder falar-se sobre a reportagem que iniciou toda a discórdia e debater-se outros assuntos que causavam insatisfação entre os farmacêuticos.

Nesse momento eu podia ter saído vitorioso, ter escrito no Facebook que ia haver uma reunião e desaparecido para a Antárctida durante três meses. O problema é que como tinha sido eu a criar todo o caos agora tinha que ir presencialmente à reunião, desse por onde desse, somando ao facto de ter sido escolhido (não que eu me tenha voluntariado a nada, foi mais uma imposição) para representar as preocupações e reivindicações de muitos colegas.

Desde que terminei o meu curso, há dez anos atrás, que nunca me tinha envolvido em politiquices, e de um dia para o outro, por causa de uma publicação na Internet, vi-me a falar com dezenas de colegas farmacêuticos e a escutar as preocupações deles, muitas as quais eu partilho. Por isso vejam só a força que uma palavra pode ter.

Quando chegou ao dia da reunião todo eu era Síndrome do Cólon Irritável, tal era o nervosismo que sentia. Obviamente que não ajudou o facto da reunião ser transmitida online, haver umas 100 pessoas presencialmente na sala, e ter a Bastonária, os Presidentes das Secções Regionais e uma jornalista moderadora a olharem directamente para mim (se calhar não estavam a olhar para mim mas na minha cabeça estavam).

Houve muita gente que falou, debateram-se vários assuntos, mas para mim o momento mais marcante foi quando eu peguei na minha cábula e fiz uma micro pergunta em jeito de discurso!

Parecia que estava a entrar em trabalho de parto, tal era o nervosismo na minha voz, mas no fim recebi uma salva de aplausos de vários colegas, o que me fez sentir uma autêntica estrela, como se fosse a Ana Malhoa no fim de uma actuação para um daqueles programas de Domingo à Tarde.

E o que é que aconteceu depois perguntam vocês?

Veio o Covid e ficou tudo em águas de bacalhau. Ninguém mais se lembrou nem da reportagem do Depakine, nem da reunião com a Bastonária, nem do meu momento vedeta onde literalmente pari um discurso. 

Agora estamos todos mais preocupados em ultrapassar esta crise de saúde pública. Daqui a uns mesitos espero que se voltem a debater os temas abordados na reunião, porque o papel do farmacêutico tem que sofrer alterações de forma urgente.

A conclusão desta história, extremamente emocionante para mim mas provavelmente não tanto para vocês, é que todos temos a possibilidade de mudar o mundo com a nossa voz.

E se não nos ouvirem à primeira, que ouçam à segunda, à terceira ou à milésima quinta vez. Nunca nos devemos é esquecer que a confiança nas nossas verdades nunca deve depender do número de pessoas que as apoiam!

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