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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O Leitor Decide : Cicuta

17.05.20, Triptofano!

Volta e meia alguns projectos aqui do blog ficam em suspenso, ou por falta de energia minha em continuar com os mesmos ou por vezes devido a situações externas fora do meu controlo, como toda esta pandemia que estamos a viver que me deu a volta ao miolo.

O delicioso convite que me fizeram para o Desafio do Conto fez-me recordar a história que vocês estavam a decidir a evolução e que subitamente ficou parada, e como nunca é tarde para andarmos em frente decidi voltar a escrevê-la, contando com a vossa ajuda preciosa para decidir os próximos capítulos.

Como talvez já não se lembrem volto aqui a colocar toda a história, sendo que no fim há votação! 

Anastrozol

Respirou fundo!

Aquela era a segunda praia do mundo com maior nível de iodo, e a verdade é que o cheiro que lhe inundava as narinas era totalmente diferente do cheiro de qualquer outra praia que já tivesse conhecido. Talvez fosse por isso que, sempre que necessitara no passado de tomar uma decisão complicada, aquele fosse o local escolhido para reflectir profundamente no próximo passo a dar.

Naquele preciso momento estava perante uma decisão que nunca imaginara ter de tomar, e dar um passo em frente significava literalmente cair num abismo de ondas que batiam devastadoras contra uma falésia silenciosa de olhares alheios, enquanto que dar um passo atrás era sinónimo de continuar uma luta que já lhe tinha sugado a carne, o sorriso e a alma.

Tudo começara para Ana com um pequeno nódulo que a médica lhe assegurou não ser nada de especial! Uma pequena cirurgia, meia dúzia de anos a tomar um medicamento que lhe causaria dores excruciantes nas articulações, e tudo ficaria bem, garantiu-lhe de boca escancarada a mulher de bata.

As coisas não foram tão simples.

A pequena cirurgia tornou-se uma grande operação onde foi necessário retirar todo o peito. O tecido estava tão necrosado que a reconstrução mamária foi posta de lado com medo de haver rejeição por parte do corpo. A mesma rejeição que Ana sofreu por parte do marido, que deixou a casa enquanto ela estava num tratamento, mandando-lhe apenas uma mensagem a desejar sorte mas que não era capaz de continuar a vida com uma mutilada.

Era assim o amor, com prazo de validade e garantia de devolução em caso de avaria.

A meia dúzia de anos a tomar o medicamento não chegou sequer a um, com o comprimido fúcsia a ser substituído por dois amarelos, um azul e três gelatinosamente castanhos, acompanhados com uma injecção a cada três meses, porque o cancro tinha-se espalhado para os ossos.

No último exame que fez, a médica, outra, porque a primeira Ana negou-se a querer voltar a vê-la, mostrou-lhe uma fotografia dos seus ossos com várias bolinhas, umas maiores que outras, que representavam as metástases tumorais.

É como se tivesse luzes de Natal espalhadas pelo seu corpo! - disse serenamente a médica.

Podia-lhe ter chamado puta, podia ter dito para ela ir brincar com a situação para outro lado, podia ter chorado e gritado e berrado que não era justo, mas Ana já estava num ponto em que apenas se esforçava o mínimo para conseguir sobreviver.

Se o filho ainda lhe desse algum apoio, talvez as dores que a incendiavam fossem mais suportáveis, mas o curso de Nutrição Desportiva tirado numa cidade espanhola era mais importante que tudo o resto. No fim não o condenava, afinal não podia exigir que ele abdicasse da vida dele para atenuar o sofrimento da vida dela.

Foi com dificuldade que se enfiou no carro e conduziu até aquela praia onde agora se encontrava, embrenhada pelo som das ondas que rebentavam contra a falésia e por um ocasional grito duma gaivota pousada na imaculada areia.

Gaivotas em terra tempestade no mar, mas a verdadeira tempestade vivia dentro dela. Ana não queria morrer, queria simplesmente viver de outra forma, mas as únicas opções de que dispunha era esperar pela morte ou ir ao seu encontro.

Respirou fundo mais uma vez, cerrou os punhos e...

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Ana:  a) Atira-se em direcção às ondas ou b) Dá meia volta e regressa ao carro

Campral

Se quiser que Ana atire-se em direcção às ondas siga para a página 128, caso ache que ela deva dar meia volta e regressar ao carro vá para a página 497.

Lúcia arregalou os olhos perante a necessidade de tomar uma decisão, algo que ela não esperava ter de fazer quando tinha comprado aquele livro.

Na verdade a decisão de o adquirir não tinha sido dela, mas sim do alfarrabista que visitava há anos, que literalmente a obrigou a comprar aquele exemplar decrépito, prometendo que ela não se ia arrepender, que a história era fascinante, absorvente, e que um livro assim precisava de estar com uma mulher como ela.

Lúcia normalmente não ia em conversas e comprava apenas aquilo que realmente lhe dava na gana, mas houve algo nos olhos do alfarrabista que a fizeram entregar-lhe a nota de 10 euros e enfiar o livro na bolsa, deixando o velho homem com um gigantesco sorriso de satisfação.

E agora ali estava ela, em casa, agarrada ao livro, a pensar qual a decisão que Ana deveria tomar.

Não conseguia compreender porque é que estava stressada, afinal era uma história, não é como se fosse realmente decidir a vida de uma pessoa verdadeira, mas ao mesmo tempo algo dentro dela sorria por ter o controlo, por poder brincar aos deuses em vez de ser sempre ela subjugada ao destino. Naquele momento, independentemente de ser ficcional, Lúcia era a Deusa-Toda-Poderosa que decidia se aquela mortal se atirava contra as rochas ou se por outro lado lhe dava uma nova oportunidade de viver.

Depois de muito ponderar decidiu que a deixaria viver, e foi de forma ansiosa que folheou o livro até chegar à página 497.

*Respirou fundo mais uma vez, cerrou os punhos e......deu meia volta.

Apesar de naquele momento odiar a vida, Ana não tinha a coragem suficiente para encontrar a morte. Tal como não tinha tido a coragem para ir procurar o marido e cuspir-lhe na cara, ou de telefonar ao filho e dizer que se ele não a queria ajudar então ela também não tinha obrigação de lhe transferir todos os meses para a conta uma mesada.

Era uma cobarde, e por mais ódio que sentisse dela própria não conseguia por um ponto final naquela história. Lá dentro, em algum lugar recôndito, havia uma esperança de que as coisas poderiam melhorar, de que ainda havia um lado B da vida que ela ainda não tinha encontrado.

Entrou para o carro, trancou a porta e entregou-se a um choro compulsivo, com um torrencial de lágrimas a toldar-lhe a vista. Chorava o passado, o presente e o futuro, e foi essa aceitação da sua fragilidade enquanto ser humano que a impediu de ver a figura negra encapuçada que se encaminhava na direcção da sua viatura.

Quando Ana se deu conta já era tarde demais, e só teve o instinto de proteger a cara dos milhares de pequenos pedaços de vidro que foram projectados após a figura partir com uma pedra o vidro da janela do carro.*

PUM PUM PUM

Lúcia deu um salto do sofá quando ouviu as pancadas na porta de entrada. Primeiro pensou que pudesse ter sido uma partida da sua mente, mas segundos depois a porta voltou a vibrar.

PUM PUM PUM

Quem estava a bater parecia não quer anunciar a sua chegada mas sim quase deitar a porta abaixo para entrar. Lúcia estava pálida e mesmo sem dar conta tinha sustido a respiração.

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Lúcia: a) Vai espreitar para descobrir quem bate à porta ou b) Silenciosamente fecha-se na casa-de-banho.

Victan

Durante um momento ponderou a hipótese de se trancar na casa-de-banho e ligar para o 112, mas rapidamente ralhou mentalmente consigo mesmo por estar a ser uma medricas. Aquela zona da cidade onde morava era extremamente segura e ela era uma mulher forte e independente, e não fazia o mínimo sentido ficar assustada porque alguém estava a bater à porta - só podia ser efeito do suspense do livro que lhe estava a afectar o sistema nervoso.

Lúcia levantou-se, convencendo-se de que não havia problema nenhum nem razão para estar com medo, apesar das suas pernas trémulas dizerem o contrário.

Aproximou-se do óculo e espreitou com o coração na boca, ansiosa por ver quem estava do outro lado.

O óculo tinha sido tapado com uma folha de jornal ou assim parecia, impedindo Lúcia de ver o corredor do andar em que morava. As pancadas na porta também tinham cessado e não se ouviam nem passos nem nenhuma respiração, sinais de que poderia haver alguém do outro lado.

Num rasgo de confiança escancarou a porta e deu de caras com o vazio. Da pessoa que lhe tinha batido à porta nem rasto. 

Virou-se na direcção do óculo da porta para retirar o pedaço de papel que o cobria quando percebeu que a folha do jornal afinal era uma página de um livro. Uma ideia mirabolante atravessou-lhe o cérebro, poderia aquela ser uma página do seu livro?

Pegou nela, fechou a porta e correu para o livro abandonado no sofá. Ficou atónita quando percebeu que aquela página era a continuação da que estava a ler, tinha sido arrancada muito habilmente quase não deixando vestígio da sua existência, não fosse o salto de paginação. 

Teria sido o alfarrabista que, não querendo que a sua leitura ficasse afectada, tivesse resolvido entregar-lhe a página? Mas sendo assim como é que ele sabia onde ela morava? Será que a tinha seguido até casa? E que coincidência espantosa ter recebido aquela folha impressa no exacto momento em que iria precisar de a ler.

Mas e se não tivesse sido o alfarrabista?

Lúcia obrigou-se a deixar de ser paranóica e cingir-se às evidências. Algo ou alguém tinha-lhe entregue uma parte do livro que precisava, e esse algo ou alguém tinha desaparecido, por isso a coisa mais óbvia a fazer era continuar a leitura.

*Quando Ana se deu conta já era tarde demais, e só teve o instinto de proteger a cara dos milhares de pequenos pedaços de vidro que foram projectados após a figura partir com uma pedra o vidro da janela do carro.

Viu aterrorizada uma mão aberta a tentar alcançar a sua garganta, e a única coisa que o seu instinto primitivo de sobrevivência lhe gritou aos ouvidos foi FOGE, enquanto mordia violentamente o polegar do seu agressor, para evitar ser estrangulada naquele preciso momento.

Rodou a chave, destravou o carro e carregou no acelerador. Tinha-se esquecido completamente que estava numa descida e tinha deixado o veículo em marcha-atrás, e foi por milímetros que não bateu no muro do estacionamento, mas tinha sido o suficiente para se por momentaneamente a salvo.

Precisa de fugir dali, precisava de fugir, PRECISAVA DE FUGIR!!!!!!

Colocou a primeira e carregou a fundo no acelerador, fazendo o carro dar um verdadeiro salto e bater na figura negra encapuçada, projectando-a pelo ar.

Ana parou uns bons metros à frente, com o peito quase a explodir de adrenalina e com uma dificuldade horrível para respirar. Abriu o porta-luvas e colocou tremulamente um comprimido para a ansiedade debaixo da língua, porque sentia que a qualquer altura o seu corpo podia colapsar e desmaiar.

Quando conseguiu ficar ligeiramente mais calma olhou pelo espelho retrovisor e viu a figura estendida no chão sem se mexer. Estaria morta?*

O Leitor Decide: Qual a Decisão de Ana: a) Sai do carro e vai ter com a figura ou b) Continua a conduzir até estar em segurança e liga para a polícia.

Haldol

Ana decidiu que não se ia colocar mais em risco. Tanto podia estar efectivamente morta como podia estar viva e à espera que ela se movesse pela curiosidade de saber quem era a figura para lhe desferir uma facada fatal no pescoço.

Continuou a conduzir até estar a uma distância segura, altura em que estacionou na berma da estrada, tirou o telemóvel do bolso e ligou para o 112.

Quando do outro lado da linha ouviu uma voz despejou entre lágrimas e soluços a sua história, de como alguém desconhecido lhe tinha partido o vidro do carro para depois a tentar estrangular, e como ela na sua ânsia de fugir tinha deixado um corpo atropelado para trás.

O operador pediu-lhe que se acalmasse e que não saísse de onde estava, que iria enviar um carro da polícia ter com ela o mais rapidamente possível.

Ana saiu do carro com todos as moléculas do seu corpo a vibrar descontroladamente. Colocou mais um dos comprimidos para a ansiedade debaixo da língua e respirou fundo. Precisava de se controlar e de ter a cabeça fria para quando os polícias chegassem. É verdade que ela tinha sido atacada mas não era menos verdade que ela tinha atropelado alguém e fugido sem prestar auxílio! Será que poderia ser presa por homicídio?

Nem dez minutos tinham passado quando o carro da polícia chegou. Lá dentro vinham dois homens, um alto, louro, com bigode farfalhudo, e um mais baixo, com umas ripas de cabelo seboso e um perímetro abdominal que faria pesadelos a qualquer nutricionista.

O polícia louro trocou algumas palavras com o colega antes de sair do carro e ir em direcção a Ana, que lhe explicou detalhadamente tudo o que tinha acontecido, esforçando-se ao máximo para não começar a chorar descontroladamente.

Depois de a ouvir atentamente, o polícia pediu-lhe para a acompanhar até ao local onde o suposto ataque tinha acontecido. Ana rangeu os dentes a ouvir o termo "suposto ataque" mas compreendia que aquela era a forma de actuar da polícia. Estava a começar a encaminhar-se para o carro deles quando o polícia louro lhe pediu, caso ela não se importasse, que preferia que fossem os dois no carro dela.

Pelo canto do olho Ana viu que o polícia seboso tinha desapertado o cinto e estava a atacar com vontade um dónut cor-de-rosa - que cliché digno de um filme rasca.

Em poucos minutos ela e o agente estavam no local do ataque, mas não havia qualquer sinal do corpo. 

- Tem a certeza que foi aqui que foi atacada Sra. Ana? - perguntou o polícia com um sorriso escarninho no rosto. - É que não encontro nem sinais de sangue nem de estilhaços de vidro ou qualquer outra coisa que possa indiciar que tenha havido uma tentativa de homicídio. Já agora - continuou ele sem lhe dar tempo para responder - o que é que estava aqui a fazer? Esta altura do ano não é a mais indicada para vir tomar banhos de sol não acha?

Ana sentiu-se a ficar ruborizada e logo depois branca como o cal. Não queria dizer àquele homem que tinha vindo ali na intenção de se suicidar. Iria ele achar que ela estava louca? Ou pensaria que tudo não passava de uma invenção de uma mulher com demasiado tempo livre? A pergunta que ele fez a seguir deu-lhe a certeza de que ele não acreditava em nada do que ela tinha contado.

- Sra. Ana, tomou algum estupefaciente que pudesse, digamos, tê-la feito imaginar coisas?

- Eu não imaginei nada Sr. Agente, tudo o que eu lhe contei é a mais pura das verdades!!! - quase que gritou Ana com os olhos marejados de lágrimas de fúria.

- Ok, ok, não precisa de se exaltar. De qualquer das formas não há mais nada que possamos fazer aqui. Vou levá-la à esquadra para recolher o seu depoimento e depois decidiremos o próximo passo a tomar. Permita-me que eu conduza o carro de forma a você descansar um pouco.

Ana anuiu com a cabeça. Estava completamente de rastos e a última coisa que queria era voltar a pegar no volante.*

O alarme do telemóvel de Lúcia tocou, relembrando-a que em uma hora tinha que se encontrar com Jaime no novo restaurante italiano da cidade.

Jaime era um ex-colega de trabalho que Lúcia tinha reencontrado no Instagram, e com quem tinha saído um par de vezes. Não se orgulhava de ter de usar redes sociais para encontrar homens, mas estava à demasiado tempo solteira e Jaime era um bom partido, tirando a obsessão patológica com as horas. Se Lúcia chegasse atrasada um minuto que fosse ele ficaria furioso, por isso fechou o livro e começou a preparar-se para tomar banho. A história podia ficar para depois.

Quando já estava a secar o cabelo, depois de ter lavado e exfoliado e tonificado o corpo todo, o telemóvel voltou a tocar, anunciando que tinha recebido uma mensagem. Provavelmente era Jaime a avisá-la que já estava a caminho e que esperava que ela não chegasse atrasada, mas quando carregou no símbolo do envelope e a mensagem se abriu o que a esperava era algo completamente diferente!

O Leitor Decide

Lúcia demorou alguns segundos a assimilar o conteúdo da mensagem.

Porque é que ela se tinha ido embora e o deixado lá? Lá onde? E quem é que lhe estava a enviar aquela mensagem? Uma ideia maluca passou-lhe pela cabeça mas não, não podia ser.

O telemóvel voltou a tocar, anunciando nova mensagem.

O Leitor Decide

Apoiou-se no lavatório porque uma sensação repentina de mau estar tomou conta dela, e foi por muito pouco que conseguiu controlar um arranque de vómito.

Quem é que lhe estava a mandar aquelas mensagens?

Só podia ser uma brincadeira de mau gosto relacionada com o livro que ela estava a ler, mas quem é que poderia estar a fazer aquilo? Quem é que saberia em que parte do livro estava ela agora? Obviamente que não podia ser a figura que Ana tinha atropelado no história que lhe estava a mandar as mensagens, era surreal, era simplesmente esquizofrénico.

Mas estava ali, no telemóvel dela, escrito preto no branco que ela teria de morrer, porque a outra não tinha morrido. Será que Lúcia devia ter escolhido de forma diferente?

Fechou os olhos com força e respirou o mais calmamente que conseguiu. Tudo aquilo tinha de ser um pesadelo, não era possível que aquilo pudesse estar a acontecer-lhe. Abriu os olhos e as mensagens continuavam lá, a brilhar de forma ameaçadora. Tinha de tomar uma decisão...

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Lúcia: a) Pega no livro decidida a queimá-lo ou b) Vai ter com Jaime e conta-lhe o sucedido na esperança que ele a ajude ou c) Desmarca o encontro e vai à procura do alfarrabista que lhe vendeu o livro

Modafinil

Lúcia pegou no telemóvel e mandou uma mensagem rápida a Jaime:

Surgiu um imprevisto, não vou poder ir jantar. Desculpa. Depois falamos.

Sabia que se lhe contasse ele não iria acreditar, porque na realidade nem ela própria acreditava muito bem em toda aquela história, mas as mensagens que tinha recebido do número desconhecido continuavam a brilhar aterrorizantemente no seu telemóvel. Algo ou alguém tinha acabado de a ameaçar e ela não podia ficar simplesmente sem fazer nada.

Voltou a pegar no telemóvel e pediu um Uber para a levar até ao alfarrabista que lhe tinha vendido o livro. Podia ir de carro, mas estava demasiado nervosa para conduzir e aquela zona da cidade não era propriamente fácil para estacionar. A aplicação soltou um zumbido metálico mostrando-lhe que o seu motorista chegaria em 3 minutos.

Lúcia vestiu-se em tempo record, pegou na mala e lançou lá para dentro o livro. Talvez devesse queimá-lo, mas algo lhe dizia que não era isso que resolveria a situação.

O Uber já estava à espera dela quando saiu da porta do prédio. Era um Tesla cinzento com os vidros fumados, que deixou Lúcia ligeiramente surpreendida. Que ela se lembrasse não tinha pedido o upgrade de veículo, mas com os nervos se calhar tinha carregado em alguma parte da aplicação sem dar conta, mas isso também não era importante.

Abriu a porta, entrou para dentro do carro e cumprimentou o motorista, que apenas lhe lançou um olhar mortiço pelo espelho retrovisor.

Os motoristas estavam cada vez mais simpáticos, pensou Lúcia com ironia, mas pelo menos não tinha que fazer conversa fiada. Fechou os olhos embalada pelo silencioso deslizar do carro e quase desejou adormecer, na esperança de quando acordasse tudo não tivesse passado de um sonho mau. Mas não, tinha que ser forte, ir ter com o alfarrabista e arrancar-lhe as respostas que ela precisava, de uma forma ou de outra.

Faltava um quarteirão para chegar ao seu destino quando subitamente o veículo virou à direita afastando-se da loja do alfarrabista. A estrada não estava cortada nem havia sequer trânsito que justificasse aquela mudança de rota, por isso porque raio é que estavam a ir noutra direcção?

Desculpe - disse Lúcia - acho que se enganou. Era suposto continuar em frente.

O motorista voltou a olhar pelo espelho retrovisor mas não disse sequer uma palavra. Apenas um ligeiro sorriso assomou nos seus finos lábios. Um sorriso que gelou Lúcia dos pés à cabeça.

DESCULPE, MAS ESTAMOS NA DIRECÇÃO ERRADA. ESTÁ-ME A OUVIR?

Naquele momento ela já estava fora de si. Do banco do condutor não vinha qualquer resposta e o carro continuava a deslizar silenciosamente, dirigindo-se para uma zona da cidade que estava abandonada e só era frequentada por sem-abrigo e toxicodependentes.

O carro parou e antes de Lúcia sequer perceber o que se estava a passar o motorista virou-se para trás e tentou alcançar-lhe a garganta com a mão aberta, exactamente como tinha acontecido com Ana no livro, por isso num impulso também ela lhe mordeu o polegar violentamente.

O homem recuou com a dor durante um instante o que deu a Lúcia a oportunidade de se atirar para o fecho da porta tentando abri-la, só que estava trancada centralmente. 

Aquilo não lhe podia estar a acontecer, aquilo não podia ser verdade, porque é que aquele homem estava a atacá-la?

O motorista voltou à carga e lançou-lhe as duas mãos ao pescoço, apertando com tanta força que Lúcia temeu que ele se partisse em dois. Tinha de fazer alguma coisa antes de ficar sem ar e desmaiar.

Eu tenho dinheiro, se é dinheiro que quer eu tenho muito - balbuciou ela na esperança que ele a largasse.

Ela não morreu, por isso agora tens de morrer tu! - sibilou o homem com os olhos injectados de sangue, apertando cada vez com mais força o pescoço dela.

Era o fim, não ia conseguir fugir, a não ser que.....

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir ou b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma ou c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém ou d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora

Atropa Beladona

...fingisse que desmaiava para o homem a largar.

Nessa altura, quando ele estivesse desprevenido, tentaria fugir para fora daquele carro e correr o mais depressa possível para uma zona em segurança.

Lúcia colocou o plano em prática, deixando cair a cabeça para trás e fechando os olhos de forma vagarosa, como se toda a energia do seu corpo a tivesse abandonado.

Só que o homem continuava a apertar o seu pescoço, cada vez com mais força, como se ele quisesse assegurar-se de que ela estava efectivamente morta.

Lúcia já não aguentava mais, os seus pulmões gritavam desesperadamente por ar e o homem continuava com as mãos à volta do seu pescoço. Tentou ao máximo manter a farsa, o ar sereno e sem vida, mas os instintos do corpo foram mais fortes e esbugalhou olhos e boca, enquanto que as mãos tentavam desesperadamente agarrar um pedaço de oxigénio.

Espertinha, achas mesmo que ia cair nessa? - riu-se o homem sarcasticamente, antes de lhe pegar pelos cabelos e bater com a cabeça no vidro do carro, fazendo Lúcia perder automaticamente os sentidos.

*

Acordou estremunhada com uma dor horrível na cabeça. Uma pasta de sangue cobria-lhe os cabelos e o cheiro metálico fez-lhe ter um arranque de vómito. Onde é que estaria?

Os olhos ainda não se tinham acostumado à escuridão por isso voltou a bater com a cabeça quando se tentou sentar. Mas que local seria aquele?

O deslizar das rodas e o barulho do motor rapidamente deram-lhe a resposta: tinha sido presa no porta-bagagens do carro.

O veículo inclinou-se para subir algo, projectando o corpo de Lúcia contra uma das paredes do porta-bagagens, como se fosse uma boneca de trapos.

O motor desligou-se. Ouviu uma porta a abrir e a fechar-se com estrondo. Risos. Será que a vinham buscar? 

Pum Pum Pum

Três sonoras pancadas ressoaram mesmo por cima da sua cabeça.

Querida, é só para te desejar uma boa viagem - a voz era a do motorista.

O porta-bagagens não se abriu, mas ao invés o som de uma maquinaria pesada invadiu o espaço.

Lúcia não precisou de muito para perceber aterrorizada o que tinha acontecido. Estava num ferro-velho e o carro ia ser triturado. Bastaram breves segundos para o seu corpo transformar-se numa mescla de ossos e tendões com partes metálicas.

FIM

Não ficaram satisfeitos com o fim da história? Acham que Lúcia devia ter tomado outra decisão? Podem escolher um caminho diferente, não deixem a Lúcia morrer desta forma, ela precisa de vocês!

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir ou  b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma (2 Votos) ou c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém (4 Votos) ou d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora (3 Votos)

Era o fim, não ia conseguir fugir, a não ser que.....

... batesse com toda a força possível com os pés no vidro do carro para chamar a atenção de algum dos sem-abrigo que estava naquela área.

Lúcia rodou o corpo de forma a ficar com as pernas a apontar para a porta do carro, flectiu os joelhos e disferiu uma patada com toda a força que ainda possuía no vidro.

O homem ficou visivelmente surpreendido com a reacção dela porque deixou de lhe apertar o pescoço durante alguns instantes, dando-lhe tempo de encher sequiosamente com ar os pulmões e gritar mais alto do que algum vez tinha gritado na sua vida.

-SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDE POR FAVOR!

O motorista desatou a rir-se, um riso mau de escárnio, que lhe rasgava a boca de tal forma que era visível o espaço vazio causado pela falta de um par de dentes de trás.

Pensei que estavas a tentar partir o vidro, que só por acaso é blindado - disse ele com a voz carregada de troça - mas afinal estavas a tentar chamar a atenção de alguém! - Uma nova onda de gargalhadas invadiu o veículo. - Estavas à espera que aparecesse um drogado com uma capa de super herói para te ajudar era minha parvinha?

Antes que Lúcia pudesse pensar em outra forma de escapar o homem fez um gesto rápido e seco e partiu-lhe o pescoço em dois.

*

A porta do carro abriu-se e o corpo de Lúcia escorregou inanimado para o chão. Meia dúzia de toxicodependentes sem-abrigo tinham sido atraídos pelo barulho do pontapé no vidro e pelo pedido de socorro, e esperavam ansiosamente que o carro se afastasse silenciosamente nas sombras da noite.

Quando ele dobrou a esquina precipitaram-se quais abutres sobre o corpo de Lúcia. Não lhes interessava minimamente saber se estava ainda viva ou não, apenas queriam encontrar algo de minimamente valioso.

Um deles descobriu a bolsa que tinha sido arremessada pela janela e vasculhou avidamente o seu interior carregado de tudo e mais alguma coisa. Debaixo de um livro velho que atirou para a sarjeta encontrou algo que lhe fez brilhar os olhos de contentamento - a carteira cheia de notas de 20 euros. Arrebanhou-as com um sorriso e correu para longe dos outros drogados com o sentimento de ter ganho a lotaria. Já podia comprar heroína suficiente para uma semana.

FIM

O Leitor Decide

 

Não ficaram satisfeitos com o fim da história? Acham que Lúcia devia ter tomado outra decisão? Podem escolher um caminho diferente, não deixem a Lúcia morrer desta forma, ela precisa de vocês!

 

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: 

a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir 

b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma 

c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém

d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora 

 

Fico a aguardar o vosso voto nos comentários!

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