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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O Leitor Decide - Anastrozol

01.12.19, Triptofano!

Respirou fundo!

Aquela era a segunda praia do mundo com maior nível de iodo, e a verdade é que o cheiro que lhe inundava as narinas era totalmente diferente do cheiro de qualquer outra praia que já tivesse conhecido. Talvez fosse por isso que, sempre que necessitara no passado de tomar uma decisão complicada, aquele fosse o local escolhido para reflectir profundamente no próximo passo a dar.

Naquele preciso momento estava perante uma decisão que nunca imaginara ter de tomar, e dar um passo em frente significava literalmente cair num abismo de ondas que batiam devastadoras contra uma falésia silenciosa de olhares alheios, enquanto que dar um passo atrás era sinónimo de continuar uma luta que já lhe tinha sugado a carne, o sorriso e a alma.

Tudo começara para Ana com um pequeno nódulo que a médica lhe assegurou não ser nada de especial! Uma pequena cirurgia, meia dúzia de anos a tomar um medicamento que lhe causaria dores excruciantes nas articulações, e tudo ficaria bem, garantiu-lhe de boca escancarada a mulher de bata.

As coisas não foram tão simples.

A pequena cirurgia tornou-se uma grande operação onde foi necessário retirar todo o peito. O tecido estava tão necrosado que a reconstrução mamária foi posta de lado com medo de haver rejeição por parte do corpo. A mesma rejeição que Ana sofreu por parte do marido, que deixou a casa enquanto ela estava num tratamento, mandando-lhe apenas uma mensagem a desejar sorte mas que não era capaz de continuar a vida com uma mutilada.

Era assim o amor, com prazo de validade e garantia de devolução em caso de avaria.

A meia dúzia de anos a tomar o medicamento não chegou sequer a um, com o comprimido fúcsia a ser substituído por dois amarelos, um azul e três gelatinosamente castanhos, acompanhados com uma injecção a cada três meses, porque o cancro tinha-se espalhado para os ossos.

No último exame que fez, a médica, outra, porque a primeira Ana negou-se a querer voltar a vê-la, mostrou-lhe uma fotografia dos seus ossos com várias bolinhas, umas maiores que outras, que representavam as metástases tumorais.

É como se tivesse luzes de Natal espalhadas pelo seu corpo! - disse serenamente a médica.

Podia-lhe ter chamado puta, podia ter dito para ela ir brincar com a situação para outro lado, podia ter chorado e gritado e berrado que não era justo, mas Ana já estava num ponto em que apenas se esforçava o mínimo para conseguir sobreviver.

Se o filho ainda lhe desse algum apoio, talvez as dores que a incendiavam fossem mais suportáveis, mas o curso de Nutrição Desportiva tirado numa cidade espanhola era mais importante que tudo o resto. No fim não o condenava, afinal não podia exigir que ele abdicasse da vida dele para atenuar o sofrimento da vida dela.

Foi com dificuldade que se enfiou no carro e conduziu até aquela praia onde agora se encontrava, embrenhada pelo som das ondas que rebentavam contra a falésia e por um ocasional grito duma gaivota pousada na imaculada areia.

Gaivotas em terra tempestade no mar, mas a verdadeira tempestade vivia dentro dela. Ana não queria morrer, queria simplesmente viver de outra forma, mas as únicas opções de que dispunha era esperar pela morte ou ir ao seu encontro.

Respirou fundo mais uma vez, cerrou os punhos e...

 

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Ana:

a) Atira-se em direcção às ondas

ou

b) Dá meia volta e regressa ao carro

 

Deixem a vossa escolha nos comentários! No próximo domingo a história continua de acordo com a vossa decisão!

O Leitor Decide

 

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