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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

11
Fev18

O farmacêutico responde : Genérico ou de Marca?


Farmaceutico Responde.png

 

Para iniciar esta nova rubrica aqui do blog vou tentar responder à pergunta de um milhão de euros: medicamentos genéricos ou de marca?

 

Tanto a Paula Rocha como o P.P. me questionaram acerca de qual a melhor decisão a tomar, e neste post vou tentar lançar alguma luz sobre o assunto, evitando usar linguagem demasiado técnica para tornar a leitura fácil e agradável.

 

Quando na farmácia onde trabalho me perguntam qual é a razão dos medicamentos genéricos serem tão mais baratos que os de marca explico que é tudo uma questão de retorno do investimento financeiro que foi feito.

 

O medicamento de marca até ser lançado no mercado necessita de passar por várias etapas, desde os ensaios in vitro aos in vivo, o que custa bastante dinheiro, sendo que no fim do processo pode até acontecer que não haja autorização para a sua comercialização. 

 

O medicamento genérico é basicamente uma cópia, sendo que não há necessidade de haver tanto investimento em estudos, visto que estes já foram realizados pelo produto original.

 

É como desenvolvermos uma receita de bolo de chocolate em casa. O mais provável é gastarmos uma grande quantidade de ingredientes até acertamos com a receita perfeita, e toda essa matéria-prima inutilizada (ovos, farinha, sal...) foi despesa que saiu do nosso bolso. Agora imaginem um vizinho chegar e pedir-vos a receita final? Ele conseguiria obter o mesmo bolo com muito menos trabalho e menos gastos do que vocês.

 

Por isso é que quando sai uma nova molécula para o mercado há um período de 10 anos (que em certos casos pode ser prolongado) em que não pode haver concorrência por parte dos genéricos. Isto de forma a que a empresa que desenvolveu o fármaco possa lucrar com ele, lucro este muitas vezes redireccionado para a pesquisa de novos medicamentos.

 

E os medicamentos genéricos são iguais aos de marca?

 

Pegando no exemplo do bolo de chocolate.

Tanto o genérico como o de marca tem chocolate na sua composição (apesar de poder haver ligeiras diferenças no chocolate, mas isso vemos mais à frente), a maior diferença pode residir na farinha.

Um pode ter farinha de trigo e o outro de centeio. Na maior parte das vezes não é isso que fará diferença no produto nem causará algum efeito secundário imprevisível em quem o toma.

Na realidade pode acontecer um indivíduo fazer alergia ao produto de marca e não ao genérico.

 

Concluir-se-ia então que o medicamento genérico é igual ao de marca.

Só que na realidade isso pode não ser exactamente assim.

 

Agora se quisesse ser rigoroso teria de falar de estudos de biodisponibilidade e bioequivalência, mas vamos sintetizar esta parte - quem quiser ter mais informação sobre estes termos pode ler aqui o documento do Colégio de Especialidade de Assuntos Regulamentares da Ordem dos Farmacêuticos, documento do qual retirei as próximas informações que vou partilhar convosco.

 

Apesar de estudos mostrarem que a diferença real na exposição à substância activa entre os genéricos e os medicamentos inovadores ser normalmente inferior a 5%, a verdade é que o intervalo de aceitação varia dos 0.80 aos 1.25, sendo este intervalo reduzido para 0.90 a 1.11 quando se fala de substâncias com um intervalo terapêutico estreito, como por exemplo a ciclosporina ou a levotiroxina (talvez quem tome estes medicamentos já tenha visto nas suas receitas uma excepção A referente a margem terapêutica estreita, excepção que os médicos utilizam de forma a impedir a troca do medicamento por outro).

 

Estes intervalos de aceitação asseguram que "possíveis diferenças nas formulações do medicamento genérico e de referência e que os excipientes ou processo de fabrico não afectam a exposição sistémica da substância activa de forma clinicamente relevante".

 

Mas na realidade, a verdade é que quando tomamos um medicamento genérico podemos estar expostos a 20% a menos ou 20% a mais de substância activa.

 

Outro parâmetro que não é determinante na aprovação do genérico, mas pode fazer a diferença para quem toma o medicamento, é o tempo que a substância activa leva a atingir a sua concentração máxima no organismo. 

 

Imaginem que tomam um medicamento para as dores, a exposição da substância activa até pode ser exactamente igual, mas se o genérico demorar 20 minutos a entrar todo em circulação e o de marca demorar 2 minutos obviamente que vamos sentir a diferença.

 

Porque é que existem então estas diferenças?

 

Lembram-se de vos dizer que o chocolate do bolo podia não ser exactamente igual?

 

Vejamos o caso dos suplementos de magnésio, podem ter duas ampolas com a mesma quantidade de magnésio, mas numa temos cloridrato de magnésio e noutra pidolato de magnésio.

 

Apesar de à partida serem equivalentes, a taxa de absorção no organismo não é garantidamente igual, nem sequer a velocidade da mesma.

 

E se por acaso forem cápsulas moles de magnésio? Formuladas para se dissolverem no intestino delgado? E se a gelatina de uma delas dissolver-se em dois minutos aquando o contacto com essa parte do aparelho digestivo e a outra demorar 15? E se uma delas começar a deteriorar-se ainda no estômago?

 

Tudo isto são exemplos inventados só para ser mais fácil perceberem quais as razões para um medicamento ter uma exposição maior ou menor, mais rápida ou mais lenta de uma substância activa em comparação a outro.

 

Quais são os conselhos então que vos posso dar relativamente a escolherem entre um medicamento de marca e um genérico?

 

Perguntem o preço. Hoje em dia alguns medicamentos de marca já são do mesmo preço ou mesmo mais baratos que muitos genéricos. Pessoalmente acho que uma diferença de dois ou três euros mensal entre marca e genérico é suportável. Convêm sempre fazer ao conta ao mês, se o original custa mais cinco euros mas dá para dois meses então dois euros e meio é uma diferença admissível. Mas cada um define o valor que se sente confortável a pagar.

 

Mantenham-se no mesmo genérico. Há diferenças absurdas de preço entre certos medicamentos de marca e genéricos. Quarenta e mais euros. Nestes casos a minha opinião é experimentar o genérico e perceber se ele é eficaz. Se for tentar ao máximo manter esse laboratório, já que de um laboratório para o outro podem haver diferenças.

 

Perceber para que é que estão a tomar o medicamento. É um antibiótico? Uma medicação de emergência para as dores? Talvez neste caso vos sugira o de marca. Um tratamento para o colesterol ou para o ácido úrico cujos valores estão controlados? Então porque não experimentar o genérico? (se a diferença de preço for substancial!)

 

Estar atento aos pequenos detalhes. Vão tomar umas saquetas para o estômago, o medicamento de marca sabe a menta que vocês odeiam, mas o genérico sabe a laranja que é menos mau. É importante a adesão à terapêutica, de nada vale estarem a levar o original se depois não o vão conseguir tomar.

Compraram uns comprimidos efervescentes para a tosse. O original vem em blisters individuais, o genérico num tubinho todos juntos. É certo e sabido que mal abram o genérico todos os comprimidos vão ser expostos à oxidação pelo ar diminuindo a sua eficácia, por isso talvez seja melhor optarem pelo que está melhor acondicionado.

 

Escolham um bom genérico. Aqui está uma escolha por vezes difícil, porque quando as pessoas dizem que não querem medicamentos que venham da Índia ou da China não significa que os laboratórios que produzem na Europa não tenham importado a matéria-prima da Índia ou da China. O meu conselho é optarem por um laboratório que esteja há muitos anos no mercado, o que acaba sempre por dar alguma segurança. Em alguns casos, há laboratórios que produzem medicamentos de marca e também produzem genéricos, sendo o produto final igual, só que embalado numa caixa diferente. Perguntem ao vosso farmacêutico quais são as opções existentes mas não se esqueçam que o genérico mais caro não é obrigatoriamente o de melhor qualidade.

 

Perguntem ao vosso médico por alternativas. Quando um genérico é lançado normalmente o medicamento de marca fica mais caro, não porque o preço aumentou, mas porque a comparticipação que o Estado dá a esse medicamento diminui. Quanto mais barato for o genérico mais pequena será a comparticipação. Uma hipótese é descobrirem se a substância activa que vocês tomam existe noutras formas farmacêuticas. Tomavam os comprimidos, será que existe em gotas? Em pó para dissolver na água? Em comprimidos orodispersíveis? Pode acontecer que essas formulações ainda não tenham medicamento genérico e o vosso médico concorde com a mudança.

 

Usem os sistemas de complementaridade. Todas as semanas apanho alguém que nunca usou o cartão da Multicare ou dos Bancários. Informem-se sobre se tem direito a alguma complementaridade extra para utilizar na compra de medicação, seja para apresentar directamente na farmácia ou para serem reembolsados após a compra. Talvez aquele medicamento de marca caríssimo fique mais acessível.

 

Cada caso é um caso. Tenho utentes que só se dão bem com os medicamentos de marca. Outros que sempre tomaram genéricos e nunca tiveram problemas. Pessoas que não se deram bem com o original e o genérico funcionou maravilhosamente. Em suma, não existem dois casos iguais, e o mais importante é estarem atentos de forma a perceberem se o medicamento que compraram está a ser eficaz ou não. E todas as dúvidas que tiverem entrarem em contacto com o vosso farmacêutico ou médico, que são as pessoas mais habilitadas para vos esclarecerem.

 

Espero que este post tenha sido útil na dissipação de algumas dúvidas e já sabem, outras questões que tenham é só deixar na caixa de comentários!

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