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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

15
Jul18

O dia em que mais vergonha tive de mim mesmo


Estava sentado no autocarro, perdido num daqueles jogos de fazer combinações, na esperança do tempo passar mais depressa enquanto não chegava ao meu destino.

 

Algo faz-me desviar os olhos do pequeno ecrã do telemóvel.

Um senhor pergunta a uma senhora se vai sair na próxima estação. Ela diz que não, e perante esta resposta ele começa a reclamar pelo facto de ela estar a impedir a saída dos outros.

 

É que não lhe pediu para ela se afastar, ou para trocar de lugar com ele, simplesmente começou a rosnar uma data de coisas, mas nada que fosse ofensivo, apenas extremamente antipático.

 

Porém sentia que aquilo não iria ficar por ali, por isso mantive a minha atenção focada no par, ele continuando a reclamar, ela maioritariamente muda, dando apenas uma tímida resposta que eu tivesse ouvido.

 

Até que o autocarro para e abre as portas. O senhor começa a sair, e no alto da sua arrogância vira-se para a senhora e diz:

 

Vê-se mesmo que és preta!

 

E enquanto as palavras ainda flutuam dentro do autocarro salta para o passeio e muito calmamente ruma ao seu destino.

 

Fiquei parado. Estático. Sem acreditar no que tinha ouvido.

 

As portas do autocarro fecharam-se e ele arrancou, e eu percebi que uma sensação de vergonha gigantesca tinha subido naquela paragem e colado-se ao meu corpo.

Vergonha por ter visto toda a cena e não ter dito nada.

Vergonha porque podia ter-me levantado e gritado ao senhor que fosse para o Inferno.

Vergonha porque vi alguém a ser maltratado por uma característica intrínseca à sua pessoa e devido ao meu silêncio de certa forma ter compactuado com o abuso.

 

Ninguém naquele autocarro disse algo sobre a situação. E tenho a certeza que não fui eu o único a ouvir aquela barbaridade.

 

A senhora permaneceu muda, com duas crianças pequenas a brincar ao pé das suas pernas. Crianças que mereciam ser protegidas da maldade que habita este mundo e não expostas a ela numa singela viagem de autocarro.

 

Ela tocou no botão de Stop, para sair na próxima paragem. Não era a minha.

 

Senti o corpo colar-se-me ao banco, mas soube que se não o fizesse nunca mais conseguiria olhar-me nos olhos. Levantei-me e aproximei-me dela. Perguntei se estava bem e pedi-lhe desculpa, desculpa por ter de ouvir uma coisa daquelas.

 

Ela sorriu-me e disse que não havia problema, que estava tudo bem. Mas eu sabia que não estava.

 

Por mais que a nossa capa seja dura, que a nossa armadura não enferruje, que estejamos prontos para todas as batalhas, dói sermos humilhados por uma característica nossa, que alguém pega e considera que é inferior e desprezível. Dói quando alguém nos cospe na cara que somos pretos, que somos gordos, que somos gays, que somos velhos.

 

Esta história não tem como objectivo apontar o racismo que existe escondido por detrás de sorrisos inclusivos, como foi um branco a criticar um preto podia ser um preto a criticar um asiático, ou um indiano a criticar um paquistanês, ou um ucraniano a criticar um finlandês.

O relevante não é a característica do agressor e a do agredido, é o facto de haver pessoas que se acham superiores a outras e por isso pensam ter o direito de as esbofetear verbalmente.

 

Por pior que tenha sido o dia de alguém, por mais desgastante que seja a sua vida ou que esteja consumida por uma doença que não a larga, ninguém, mas ninguém tem o direito de humilhar outra pessoa.

Temos todas as nossas diferenças, mas no fim estamos em pé de igualdade, porque somos todos seres humanos.

 

Quando chegou a minha estação saí com lágrimas nos olhos.

Esperançoso olhei para dentro do autocarro à espera de ver que a vergonha tinha seguido caminho. Mas há coisas que simplesmente não deixamos tão facilmente para trás, e esse dia vai ficar marcado na minha memória como aquele em que podia ter dito algo, mas preferi a segurança da minha bolha.

 

E se fosse comigo? Não teria eu gostado que alguém me tivesse defendido?

 

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