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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

23.02.22, Triptofano!

Se um dia lançasse uma colecção de t-shirts a primeira teria estampado Nem mais um faroleiro para as Berlengas!, junto a um robusto farol em relevo. Provavelmente a segunda viria com Abaixo os telhados, a chuva é do povo! e um guarda-chuva esburacado. Para as seguintes teria de rever em busca de "inspiração" os episódios de Até Que a Vida Nos Separe, a minha mais recente paixão que encontrei via Netflix.

Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

Três gerações de uma família que vivem juntas numa quinta idílica lidam com as exigências da sua empresa de planeamento de casamentos e com as suas crises pessoais.

Quando comecei a ver a série, completamente sem saber ao que ia e confiante no algoritmo da Netflix em já saber os meus gostos, a primeira sensação foi de surpresa por ter chegado aos meus ouvidos a sonoridade incomparável do português de Portugal. Estou tão habituado a consumir fora fronteiras que por momentos achei que a Dona Custódia tinha carregado no comando da televisão (ela é um prodígio com os comandos conseguindo acender televisões e aumentar volumes só de se sentar em cima deles) e estava a ver um dos canais nacionais.

Não precisei de muito tempo para sentir que aquela inesperada série me fazia lembrar algo. Podia ser por causa da cor, dos ângulos da filmagem ou mesmo dos momentos extravagantes completamente alienados da realidade. Foi quando descobri que a série tinha sido produzida pela Coyote Vadio que percebi o porquê, visto também terem sido eles a produzir a surreal Pôr do Sol, exibida pela RTP e que eu tanto adorei. Agora confesso que saber que Até Que a Vida Nos Separe já tinha sido transmitida na mesma RPT o ano passado e eu só dar conta da série por causa de uma plataforma de streaming deu-me um valente eczema de alma. Não pude deixar de pensar do tanto a que estamos alheados e do outro tanto que nos vem parar às mãos não pelo nosso livre arbítrio mas devido a uma qualquer inteligência artificial.

Mas divagações filosóficas à parte, Até Que a Vida Nos Separe é muito mais do que promete nos primeiros episódios, ou seja, não é apenas uma série leve e engraçada para ir vendo enquanto se olha para o telemóvel, mas sim uma sinfonia de sentimentos que vai crescendo galopante ao longo da linha temporal, tendo-me levado a ficar em certo momento com um aperto no peito e partículas aquosas a bailarem-me nos olhos.

Sobretudo estamos perante uma série que fala de amor, da forma como o procuramos ou tentamos fugir dele, de como nos envolvemos e destruímos por um sentimento fruto de um encadeamento de reacções químicas. De como o amor pode ser farol e bóia de salvamento, mas ao mesmo tempo uma dose dupla de embriaguez à procura do esquecimento ou um salto no vazio da loucura de não se ser lembrado. Curioso como algo tão abstracto tem e dá origem a coisas tão concretas, tão palpáveis, tão assustadoramente reais.

Todos nós procuramos o amor, mesmo quando achamos o contrário. Na voracidade de um corpo, no calor de uma cama, na tranquilidade de uma noite sem horas ou no reflexo de um espelho embaciado. E por isso é que Até Que a Vida Nos Separe é tão mais do que a simples primeira impressão que passa. É um tributo à força motriz das nossas vidas. E por causa disso merecia estar em primeiro lugar no top de visualizações da plataforma. Porque o amor também se cria em português.

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