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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Não está tudo bem!

29.06.20, Triptofano!

Há muito tempo que não vinha aqui ao blog, na realidade, há tempo demais que não aparecia por estes lados.

Não posso dizer-vos que foi devido a uma razão ou outra em particular, mas sim à soma de várias variantes, que irei partilhar convosco brevemente.

Posso dizer-vos que não fui infectado com o Covid-19, felizmente, nem padeço de nenhum problema de saúde física. Agora mental já é outra história totalmente diferente.

Eu percebo que todas aquelas mensagens do Vai Ficar Tudo Bem sejam uma forma de dar ânimo e conforto, mas a verdade é que Não Está Tudo Bem, independentemente de ir ficar tudo bem ou mais ou menos bem ou totalmente menos bem.

Antes de escrever este texto pensei qual o tipo de mensagem que iria passar para quem me lesse. Será que me iam achar ingrato? Mimado? Fraco e queixinhas? E depois percebi que eu preciso de exteriorizar, independentemente de haver quem possa considerar que a minha verdade seja apenas uma data de choraminguices.

O Covid-19 está a impactar na minha saúde mental de uma forma que eu não achei que fosse possível. E não é por ter de usar máscara nos transportes ou de ter estar constantemente a desinfectar as mãos. É porque todos os dias estou exposto ao umbigocentrismo das pessoas, que se agravou em 1000 vezes com esta pandemia.

Eu gosto de trabalhar. Gosto do trabalho que faço. Como em todos os trabalhos há dias piores e dias melhores. Mas ultimamente todos os dias são maus, porque a Farmácia onde estou encontra-se mesmo no centro de uma daquelas freguesias de Sintra que são consideradas o epicentro dos novos casos de Covid.

É claro que tenho medo de ficar doente. Medo de passar a doença aos que amo. Medo de precisar de um lugar num hospital e não haver nenhuma vaga. Medo de alguém ter de escolher entre mim e outra pessoa para usar o último ventilador. Seria hipócrita se dissesse que não pensava nisso pelo menos uma vez por dia.

Mas o que me está a deixar verdadeiramente exausto é ter de repetir até à exaustão os protocolos de segurança, que salvaguardam a minha saúde mas também a dos outros.

É certo que há pessoas excepcionais, mas a maior parte do meu dia é passado a pedir para colocar máscaras, para tapar narizes, para não puxar máscaras para baixo, para desinfectar as mãos, para não se aproximar demasiado do balcão, para não colocar as coisas em cima do balcão, para não tentar entrar pelo acrílico dentro, para aguardar fora da farmácia enquanto não for chamado, para entrar dentro da mensagem enviada pelo Centro de Saúde porque devemos evitar mexer no telemóvel do utente.

Tudo isto enquanto se desinfecta constantemente balcões, multibancos, superfícies onde o utente possa ter tocado mesmo quando existem inúmeras referências visuais para não o fazer, a máquina da tensão, a balança, a cara no caso de algum gafanhoto nos ter atingido a testa...

Não é fácil. Também há menos clientes, menos dinheiro a entrar, e existem despesas fixas para pagar todos os meses. Mesmo não sendo patrão não vivo num mundo do faz de conta onde acho que vai existir um buraco com quantidades infinitas de dinheiro para pagar as contas. Percebo que se a minha entidade patronal não facturar o meu posto de trabalho também fica em risco.

Não está tudo bem. Não está mesmo nada tudo bem. Mas pelo menos já me sinto mais leve ao escrever este texto. Talvez o devesse ter feito antes. Só que muitas vezes, nem para nós somos bons.

Mulher Chorando - Pablo Picasso

 

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