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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

28
Mar18

Mentir para dar Sangue?


É do conhecimento de todos que em Portugal as reservas de sangue não são ilimitadas, na realidade basta uma visita aqui para termos conhecimento de qual é a quantidade medida em dias, que o Instituto Português do Sangue e da Transplantação tem em stock para cada grupo sanguíneo.

 

Sendo O positivo, tenho a noção que o meu sangue é bastante útil para ajudar pessoas que precisem de transfusões, visto poder doar a todos os indivíduos que sejam Rh positivos. Mais útil que um O positivo, somente um O negativo, que é aquele indivíduo que pode dar a qualquer pessoa, e é o tipo de sangue que é usado quando há necessidade de uma transfusão muito urgente e o grupo sanguíneo da vítima é desconhecido.

 

Mas independentemente de se ser O, A, B, AB, Rh positivo ou negativo, dar sangue deveria ser um acto de responsabilidade social, porque enquanto indivíduos inseridos numa sociedade temos quase que a obrigação de cuidar e de olhar uns pelos outros. Ou pelo menos deveria ser assim - e a doação de sangue seria um entre muitos actos que cada cidadão poderia efectuar em prol do bem comum.

 

No passado já dei sangue, umas quatro ou cinco vezes, e tenho perdido algures o cartão de dador. Volta e meia lembro-me que podia ir ajudar a salvar uma vida, perder uma hora do meu dia, doar algum do líquido vermelho que me corre nas veias.

 

Só que depois lembro-me que estou farto de ter que mentir para poder ajudar alguém que possa vir a precisar da minha dádiva.

 

Tudo porque sou homossexual.

 

Minto, na realidade o problema não é a minha homossexualidade, mas sim o facto de ter relações sexuais com homens. Porque se fosse abstinente aí não haveria problema algum  - teria era de o ser por um período igual ou superior a 12 meses.

 

E se há quem por escolha ou por imposição do destino esteja nessa situação, a cadência da minha vida sexual obriga-me a estar afastado das dádivas de sangue.

 

A Direcção-Geral de Saúde, presentemente, incluí os Homens que tem Sexo com Homens (HSH) nas sub-populações com risco infeccioso acrescido, juntamente com os trabalhadores do sexo e com os utilizadores de drogas.

Houve uma altura, um par de meses, onde aos HSH foi-lhes retirado esta classificação, para júbilo de todos aqueles que lutam pela igualdade independentemente da orientação sexual.

 

Foi sol de pouca dura.

 

Actualmente, se quiser fazer uma dádiva de sangue e assumir que tive um relacionamento sexual com outro homem, terei que esperar 12 meses até poder fazer uma reavaliação enquanto possível dador. Não interessa se foi um encontro sexual esporádico ou se tenho relações com o mesmo homem há 20 anos. Se tiver sexo com um homem tenho que aguardar 1 ano - em abstinência.

 

No caso de um homem heterossexual, o período de espera é de 6 meses, e isto apenas se tiver trocado de parceiro sexual. Caso não tenha havido mudança no parceiro, não há necessidade de abstinência - e depois da troca também não, desde que não volte a haver mudanças.

 

Talvez considerem que só os heterossexuais sejam capazes de ter relações monogâmicas duradouras.

 

A questão que se impõe é se devo mentir para ter acesso à possibilidade de doar sangue?

 

O que é mais importante, poder fazer a diferença e ajudar a salvar uma vida ou assumir quem eu sou com orgulho mesmo que isso me afaste de um acto tão nobre como é o da doação de sangue?

 

Desta vez, infelizmente, escolhi não ser um super-herói!

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