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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Masculinidade Tóxica

30.03.21, Triptofano!

Se me perguntarem se fico chocado por Rui Fonseca e Castro liderar o movimento Juristas pela Verdade, dir-vos-ei que o que me causa transtorno é haver um juiz que considera que a melhor forma de resolver contendas é ao murro e pontapé, como se em vez de vivermos em sociedade estivéssemos numa realidade paralela tipo Mortal Kombat.

Não fosse suficientemente mau termos um cidadão a achar que o desconfinamento é um livre passe para uma adaptação mais corpo a corpo dos Hunger Games, há toda a questão da masculinidade tóxica que envolve o discurso.

Rui Fonseca e Castro diz que “É uma proposta para resolver isto como homens”, o que significa que a mulher, esse ser frágil de cristal que nem se aguenta nas canetas com uma rabanada de vento, não pode resolver os seus assunto com porrada.

Talvez as mulheres façam competições de quem cozinha mais depressa na Bimby. Ou de quem consegue encerar o chão da sala de jantar sem ficar com dores nas costas até ao próximo Natal. Ou, loucura total, resolvam as questões mais difíceis em tribunal.

“Parece uma menina a chorar” é outra das pérolas tóxicas que podemos ler na notícia do Público. Porque obviamente um dos dez mandamentos da masculinidade é que se um homem chorar é menina. Ou panasca. Ou panasca que afinal quer ser menina.

Homem que é homem no máximo chora se o seu clube de futebol não for campeão. Se chorar por outra coisa é menina. Se não gostar de futebol de certeza que é panasca.

São estes estigmas que vão sendo perpetuados de geração em geração e que vão cada vez debilitando mais os homens. Fazendo-os acreditar que não podem ter sentimentos. Que tem de ser de pedra. Que não podem pedir ajuda. Que estar triste, amargurado, deprimido, o que quer que seja, é para os fracos, é coisa de gajas.

O homem resolve os seus problemas com umas cervejas, umas conversas de macho e uns socos no maxilar em caso de desentendimento.

Há uns meses atrás, o meu sobrinho adolescente, na fase de transição entre o secundário e a universidade, sofreu com alguns ataques de pânico. E só quem já experienciou é que percebe que se trata de um fenómeno avassalador, onde tudo nos foge do controlo, especialmente as emoções.

Uma das vezes foi tão grave que os bombeiros tiveram de ser chamados, e quando viram que o jovem estava emocionalmente debilitado a forma de lhe darem força foi dizer que um homem não chora.

Não vos conto isto por achar que existiu maldade neste conselho. Há sim uma masculinidade tóxica entranhada em muitos homens, que sem perceber auto-perpetuam um castramento sentimental em si e nos outros.

Felizmente o meu sobrinho é emocionalmente mais maduro que o tio, e compreende que chorar só faz dele mais humano. Uma característica que aparentemente muitos esqueceram que possuem.

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