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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Inventing Anna

15.02.22, Triptofano!

9 episódios com aproximadamente 1 hora cada compõem a mini-série da Netflix criada por Shonda Rimes de que todos falam. Baseada numa história real, Inventing Anna é muito mais do que uma compilação de jantares luxuosos, hotéis sumptuosos, mentiras em quantidade abismal e doses incompreensíveis de ingenuidade.

Empresária ou vigarista? Uma jornalista investiga a forma como Anna Delvey convenceu a elite de Nova Iorque de que era uma herdeira alemã.

Inventing Anna

Durante os 9 episódios, vamos conhecendo melhor Anna Delvey, a criação, e Anna Sorokin, a criadora, apesar de no fim de tudo ter ficado com a sensação de que não fiquei a conhecer verdadeiramente nenhuma das duas. Isso e com a impressão de que os 9 episódios poderiam ter sido condensados em 6 ou 7 no máximo. Mas creio que estamos perante um verdadeiro caso de fazer render o peixe, e este peixe é de qualidade.

Não fiquem com a ideia de que não gostei da série, porque a verdade é que não consegui evitar apaixonar-me por Anna, pelo sotaque, pela audácia, pela falta de vergonha, pelos amuos, pela paranóia e pela fragilidade. Anna é uma espécie de célula eucariótica, que parece relativamente simples mas na verdade possui uma organização estrutural complexa. Só que senti que fiquei a perceber melhor o que movia as personagens secundárias do que a motivação de Anna. Não me pareceu que fosse o dinheiro em si, mas mais uma vontade quase destrutiva de afirmar-se enquanto indivíduo. Mas porquê tamanha necessidade numa pessoa tão nova?

Independentemente das minhas dúvidas filosóficas Inventing Anna tem uma mensagem fenomenal por detrás. Poderão achar que é um alerta para o facto de na verdade podermos nunca saber quem outra pessoa realmente é. Para mim a lição é que muita gente só está interessada em quem acha que nós podemos ser.

Anna inventou-se a si própria, mas só teve sucesso nessa criação do seu imaginário porque encontrou múltiplas pessoas que queriam forçosamente acreditar na história que ela repetia até à exaustão. Pessoas cujo maior interesse não era no indivíduo em si, mas nas possibilidades que a interacção com aquela pessoa lhe poderia trazer. O dinheiro, os conhecimentos, o estatuto, as regalias...

Pode parecer uma contradição, porque há muito pouco tempo disse que deveríamos apontar o dedo aos criminosos e não às vítimas. Mas no mundo em que Anna entrou a pulso quem são as verdadeiras vítimas? Quem são realmente as sanguessugas? Estaremos tão cegos pelas aparências e pela vontade desesperada de usar os outros como alavanca para o nosso ego que mesmo quando somos vítimas nos tornamos nos verdadeiros criminosos?

Inventing Anna é uma ode perfeita ao desespero de quem quer ser implacavelmente aceite, independentemente do menor ou maior grau de mentiras a que tenha de recorrer para tal efeito. E só por isso vale totalmente o tempo despendido sentado no sofá em frente ao ecrã do televisor!

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