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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Introspecção 1.1: Procrastinar

16.07.20, Triptofano!

Já não é a primeira vez que falo sobre o assunto no blog, mas tenho uma tendência tão enraizada em procrastinar que chega a uma certa altura em que fico com nojo de mim próprio.

Talvez possam achar que nojo seja uma palavra muito forte, mas é exactamente assim como eu me sinto, e estranhamente, desenvolvi nos últimos tempos uma tendência para tomar banho com mais regularidade, numa espécie de ânsia de me limpar e me sentir menos conspurcado. Um dia que passe totalmente em casa posso chegar aos seis banhos diários, o que obviamente não é bom nem para a minha saúde mental, nem para o microbioma da minha pele nem sequer para a conta da água.

Procrastino tudo. Desde arrumar a casa, a cuidar de mim, a responder a mensagens de um amigo, a tomar decisões sobre o meu futuro, tudo, mas tudo, é procrastinado até ao limite. E poderia desculpar-me com o facto de ser muito atarefado, mas a verdade é que há dias em que passo horas ao telefone ou a ver televisão e não consigo fazer aquela pequena tarefa, ou enviar aquele e-mail simples, ou fazer o telefonema que adio há mais de um mês.

O banho já passou a ser um ritual, uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo, onde lavo-me, retiro todas as energias estagnadas, e depois vou com força fazer uma tarefa. E quando dou por ela já estou a olhar para o anteontem, ou a jogar deitado na cama, ou a ver se alguém me respondeu no Facebook a uma publicação (mesmo que vá procrastinar a resposta a eventual comentário). Depois quando o meu cérebro faz o clique, lá vou eu tomar banho novamente, sentir-me outra vez com energia, a tensão fora dos ombros, um novo recomeço....e é um ciclo sem fim.

Poderia dizer que era preguiça pura e dura esta minha procrastinação, mas há sempre mais num icebergue do que aquilo que conseguimos ver fora de água.

Primeiro pensei que poderia ser um medo horrível de sair da minha zona de conforto, de ter de enfrentar novas situações (apesar de lavar a louça não ser exactamente uma nova situação causadora de ansiedade), de ser demasiado control freak e não ter a certeza de controlar todas as variáveis.

Mas subitamente percebi que eu tenho é medo de controlar o meu próprio futuro. Desde pequeno que tive um caminho mais ou menos traçado pelos meus pais. Que devia ir para uma área de ciências porque as outras ou não davam emprego ou eu não tinha jeito. Nunca sequer questionei e acabei em Ciências Farmacêuticas. Na faculdade segui o protocolo, estudar, passar de ano, acabar o curso, procurar emprego. Tudo quase feito de forma mecânica.

É verdade que houve alturas em que fiz diferente, que arrisquei, que mandei o medo às urtigas, mas nos últimos anos sinto-me cada vez mais acomodado, mais medroso, mais confortável na minha realidade, mais temoroso em fazer algo que possa alterar os acontecimentos.

E isso tudo acaba por impactar as pequenas e as grandes coisas da minha vida. As pequenas e as grandes decisões. O que é banal do que é crucial. Prefiro deixar passar um prazo e dizer que foi o universo que assim quis do que olhar de frente para a realidade e dizer que eu é que tenho um medo do caraças de agarrar a minha vida pelos cabelos (ou pelas orelhas caso seja careca).

Procrastino porque tenho medo de subitamente perceber todo o potencial que tenho à frente e compreender que não tenho capacidades para o agarrar.

Prefiro ficar assim, na segurança do quão pequeno eu sou, do que tentar atingir a grandeza do que eu posso ser.

Hoje vou ter uma conversa com a minha entidade patronal que ando a procrastinar à uma semana. Que gostaria de procrastinar até não poder adiar mais. Que me consome por dentro devido à incerteza que pode trazer ao meu futuro.

Mas se quero crescer tenho de enfrentar as minhas limitações, e perceber que por mais banhos que tome a única forma de limpar a minha cabeça é de dentro para fora!

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