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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Goiabada

24.09.17, Triptofano!

Tínhamos feito novamente amor.

 

Poderia dizer que tínhamos feito sexo mas com ele as coisas eram tão melancolicamente calmas que a palavra sexo conotava-se duma agressividade que não fazia jus aos nossos movimentos ritmadamente lentos. No sofá cama ao som da música de algum templo budista os nossos corpos transpirados uniam-se durante longos minutos.

Era o nosso quarto ou quinto encontro, não sabia bem ao certo.

 

Depois de tomarmos banho sentámos-nos na frugal mesa da cozinha e ele serviu-me um café acompanhado de tostas e goiabada.

 

Como eu gostava de goiabada. Como eu gostava dele.

 

Tenho uma coisa para te dizer.

 

Franzi a testa. Parte de mim achava que era demasiado cedo para uma declaração daquelas. A outra parte ansiava que ele pronunciasse uma palavra tão simples mas capaz de mudar o destino de alguém.

 

Sou HIV positivo.

 

Olhei-o nos olhos. Vi o medo, a tristeza, o sofrimento, a angústia. Comi mais uma fatia de goiabada. 

 

E então? - perguntei enquanto lambia o doce dos dedos.

 

Não te importas? - havia alguma incredulidade na sua voz, como se não acreditasse no som que tinha chegado aos seus ouvidos.

 

Porque haveria de me importar? - respondi-lhe com a maior franqueza possível. Se tivesses colesterol elevado ou hipertensão importar-me-ia?

 

Levantei-me e dei-lhe um beijo. Senti o corpo dele estremecer quando os nossos lábios trocaram partículas de saliva.

 

Hoje tantos anos depois olho para trás e percebo que não foi um vírus que nos impediu de sermos felizes.

 

Foi somente o facto de ele nunca ter conseguido dizer a palavra Amo-te.

2 comentários

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    Triptofano!

    26.09.17

    Querida MJ
    Primeiro que tudo nunca dizes tolices nenhumas, não sejas tola! Compreendo perfeitamente o teu comentário no entanto gostaria de acrescentar alguns dados para o debate saudável do assunto :)

    Felizmente hoje em dia o HIV já não é sinal de morte, a medicação está tão avançada, as pessoas estão tão bem acompanhadas (nas farmácias hospitalares e comunitárias) que todos aqueles que queiram fazer o tratamento (obviamente que há casos de abandono do mesmo) possuem uma esperança de vida igual a todos os outros cidadãos. Mantendo a carga viral estável e vigiando as defesas do doente consegue-se manter a doença estagnada :) Muito mais complicado são alguns casos de cancro ou de insuficiências graves - como a dos rins ou do coração!

    A grande luta é comparar o HIV com a hipertensão arterial mas eu sei que não será fácil porque tudo o que é relacionado com o sexo é estigmatizado num abrir e fechar de olhos. O caso do surto de Hepatite A deste ano, quando havia casos ninguém se preocupava, este surto como se associou a práticas sexuais oro-anais foi um Deus me acuda. O sexo continua a ser um gigantesco tabu que não ajuda em muitas coisas!

    Compreendo quando dizes que talvez tenha havido um pouco de egoísmo, e provavelmente houve mas acho que o que falou mais alto foi o medo!
    Infelizmente, neste "mundo homossexual" ainda existe muita discriminação no que toca a escolher um parceiro. Se se é gordo é-se posto de lado, o mesmo se se for velho, manco, feio, careca, peludo, etc...Possui HIV então coloca-te no fundo da lista!
    Por isso muitas pessoas preferem não contar logo, de formo a não se exporem e a também não estarem sistematicamente a serem rejeitadas!
    O uso do preservativo e a toma da medicação torna virtualmente nulo o perigo de contágio - por isso se houvesse transmissão a culpa seria dos dois, porque cabe a mim também proteger-me!

    Agora houve uma coisa que eu aprendi, e talvez ele também, que não é por alguém nos aceitar e nós aceitarmos alguém, que vai haver amor entre essas duas pessoas!
    Há muito mais em jogo!

    Desculpa o testamento minha querida e muito obrigado por tudo aquilo que me dás
    Um beijo enorme
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