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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado?

26.08.20, Triptofano!

Quando se fala em ter um momento gastronómico excepcional com uma harmonização de bebidas a primeira coisa que nos vem à cabeça é o vinho. É o mais usual e até agora talvez o mais consensual, mas e porque não fazer uma harmonização com cocktails?

Provavelmente estão a pensar que após o segundo ou terceiro cocktail (ou primeiro consoante a vossa tolerância ao álcool) já nem iriam saber o que é que estavam a comer e o resto da refeição seria um misto entre fazer olhinhos ao senhor do fundo da mesa que era na verdade uma árvore com traços humanóides e um sem fim de histórias de como na vossa viagem de finalistas tinham encarnado o espírito de um golfinho.

Para desmistificar a ideia que o casamento entre cocktails e a gastronomia está condenado ao divórcio, o chef Vitor Adão do restaurante Plano, situado na Graça, aceitou o convite de Honório Oliveira, Brand Ambassador da Diageo em Portugal, para um jantar de degustação acompanhado de cocktails com baixo ou nenhum teor alcoólico e cuidados pontos de acidez e doçura, cocktails estes que estiverem presentes no World Class.

O World Class para quem não sabe (e eu não fazia a mínima ideia) é a maior competição de cocktails do mundo, onde participam mais de 60 países, sendo que em 2019 o campeão português foi José Mendes, bartender no The Royal Cocktail Club no Porto.

Refiro o nome de José Mendes por duas razões. Primeiro porque é um rapaz extremamente simpático que esteve presente no jantar a fazer cocktails e a falar sobre este verdadeiro mundo que é muito mais do que enfiar líquidos para dentro de um copo e agitar vigorosamente. Em segundo porque é um prodígio ao nível dos do Entroncamento, porque contou-me que tinha aumentado 10 kgs de peso na quarentena. Ora isto não seria nada de extraordinário se o moço não fosse magro como um carapau, o que só pode querer dizer que lhe nasceu um braço ou uma perna durante o isolamento.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

No dia em que fui jantar cozinhou-se ao ar livre!

Mas falemos do que é mais importante e que vocês querem saber: o que é que eu enfiei para o bucho?

A refeição iniciou-se com três snacks diferentes: cabeça de xara com molho tártaro e pickle de cenoura - esperem uma textura ligeiramente desafiadora mas um sabor muito agradável -, alho francês com alho oriental - aqui o meu conselho é provarem primeiramente de forma separada a flor do alho oriental para perceberem a riqueza do seu sabor - e rissol de berbigão com maionese - um sabor rico que surpreendia por ter um toque de picante na ponta. 

Agora o que eu não consegui compreender nestes snacks foi a obsessão com o sal grosso (talvez até fosse flor de sal mas nesta situação vai dar ao mesmo). O alho francês repousava numa quase cama de sal, enquanto que no topo do rissol podiamos encontrar uma uma pitada generosa de sal grosso. Impossível de comer sem estragar toda a experiência, a única coisa que me restou fazer foi sacudir para o lado.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

O alho francês com alho oriental

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Os três snacks que tive a oportunidade de provar.

Depois veio aquilo que todo o tuga que é tuga adora: pão e coisas para enfiar no pão. O pão da Gleba estava simplesmente delicioso e só era ultrapassado pelo queijo de ovelha alentejano que foi atacado sem dó nem piedade. Também as azeitonas, o azeite transmontano e a cecina de vaca (cecina designa uma carne que foi salgada e depois seca) marcharam que foi uma delícia. 

A única coisa pela qual não fiquei totalmente apaixonado foi um peixe cheio de cebola que não faço a mínima ideia do que era. O grande problema nestes jantares de degustação é que muitas vezes não há menu e mesmo que os empregados expliquem o que se está a comer uma pessoa já não vai para nova e a memória já começa a falhar. Independentemente do nome em latim do bicho só sei que tinha muita espinha o que aliado a uma iluminação de jardim muito romântica mas muito pouco espinha-friendly tornou a degustação da iguaria no mínimo desafiante.

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Sal no pão? Porque é que não me surpreende?

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Quem não gosta de um bom azeite para molhar o pão!

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A perdição de qualquer tuga.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

O peixe que comi e não perguntei o nome - falta de etiqueta social eu sei.

O cocktail que acompanhou estes dois momentos foi na realidade um mocktail composto por um chá de frutos do bosque e perfume do bosque (sim, também se usam perfumes nas bebidas) e por Seedlip, um destilado sem álcool que foi o primeiro da sua categoria a ser introduzido no mercado.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Saboroso e sem um vestígio de álcool!

O prato de carapau curado servido com nabo e óleo de carabineiro podia ter sido perfeito não fosse  pela areia que estava no berbigão. Eu peço imensa desculpa mas o meu poder mutante é conseguir detectar traços de areia em coisas que tenham vindo do mar. Seja camarão, seja amêijoa, seja búzio, se houver vestígios de areia eu vou encontrá-los. E para grande pena minha este berbigão deixou-me a mastigar pedrinhas. De resto o prato estava irrepreensível.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

O prato de carapau curado apresentado de forma irrepreensível.

Agora fantástico, soberbo, apaixonante, estava aquela que para mim foi a melhor confecção da noite - a lula de anzol que vinha com um pickle de pêra rocha que me fez ter um pequeno orgasmo. Um orgasmo que nos deixa com os olhos marejados de lágrimas e a boca semi-cerrada como se estivéssemos prestes a ser beijados por um desconhecido (sem Covid e herpes claro) numa discoteca em Nova Iorque enquanto o resto da mesa questiona a nossa sanidade mental.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Lula de anzol - o melhor prato da noite.

O cocktail que acompanhou estes dois pratos tinha um sabor mais desafiante, composto por whiskey, uma infusão de ínula (uma planta halófita) da Ria Formosa, flor de sal e água tónica. Não posso dizer que tenha sido o meu favorito porque eu e o whiskey temos uma relação muito especial, mas isso não me impediu de o ter bebido até ao fim.

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Honório Oliveira e José Mendes a fazerem a sua magia.

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Whiskey e Ínula

Com um molho com base de manteiga, natas e espumante, nunca poderia a corvina ficar mal acompanhada (Deus nosso senhor proteja para todo o sempre a boa da molhanga), sendo que o pickle de curgete que vinha servido com a mesma deixou-me muito boas memórias (já deu para perceber que eu sou um verdadeiro apaixonado por pickles).

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Molhanga - o melhor deste mundo!

A salada de tomate coração de boi com água de tomate e telha de pão surpreendeu-me menos em termos de palato do que estava à espera, tendo em consideração a riqueza e profundidade de sabor desta variedade de tomate, mas mesmo assim foi um bom momento da refeição.

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Salada tomate coração de boi.

Agora o verdadeiro momento foi o cocktail com um gin com cordial de coração cítrico com toranja, lima e laranja amarga cujo único defeito foi o tamanho, já que estava tão bom, mas tão bom que era capaz de ter bebido um balde inteiro do mesmo. Ainda tentei piscar o olho ao José Mendes para ver se ele me dava a receita, mas tendo em conta a quantidade de comida que já devia ter acumulada nos dentes naquele momento da noite era evidente que as minhas capacidades de sedução não me iam levar a lado algum.

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Eu de boca fechada para não verem os meus dentes cheios de comida...

Sabem aquele momento em que recebem uma estalada de luva branca mesmo no meio da cara? Pois bem, isso aconteceu-me quando me serviram um cocktail de whiskey e vermute envelhecido ao longo de 14 dias em barrica de Pedro Ximenez com um cordial de café de Timor, laranjas do Algarve, cravinho e flor de anis (digam lá se eu não tenho jeito para o copy e paste? - sabia lá eu o que era um cordial de café ou uma barrica de Pedro Ximenez).

Eu que pensava que não gostava de whiskey vim a descobrir que afinal não estava era a beber os whiskeys certos, porque o Cardhu usado no cocktail era simplesmente divinal (Pai se me estiveres a ler por favor passa-me a dar esta marca nos anos está bem?).

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Quando te ensinam o que devias andar a beber...

Acompanhou este cocktail uma carne Maronesa (uma raça autóctone de gado bovino de Portugal) maturada a 60 dias, servida com jus de vitela e esmagada de batata à transmontana que foi um verdadeiro regalo para o meu estômago.

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A deliciosa carne Maronesa!

Quando já estava satisfeito (mas não cheio - vocês sabem que eu sou pessoa detentora de mais do que um estômago) vieram as sobremesas.

Primeiro uma agradável melancia grelhada com aipo e coentros que serviu de entrada para um éclair recheado com um creme de pasteleiro cítrico. E minha gente, este creme cítrico era obsceno de tão bom. Se este creme cítrico fosse um filme passava depois da meia-noite no canal 18 porque era ordinariamente maravilhoso e só me apeteceu esfregar a cara nele.

Gastronomia e Cocktails: Um Casamento (in)Esperado? - Restaurante Plano

Uma estreia para mim: melancia grelhada.

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Uma palavra para o creme: PORNOGRÁFICO!

O rum da Guatemala servido com as sobremesas deixou-me com um sorriso no rosto devido ao detalhe especial que se encontra na garrafa referente à família envolvida na sua produção e com um arrepio na cavidade bucal devido à sua capacidade de aniquilar qualquer partícula viral que por lá andasse.

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Descubram mais sobre a história do rum Zacapa.

No fim desta refeição muito agradável rebolei-me até casa com a certeza de que nem só de vinhos se acompanha uma boa refeição. Quando feitos com mestria os cocktails tem tudo para ser um conjugue fiel da gastronomia.

 

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