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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Devemos deixar as crianças usar livremente o telemóvel?

05.02.20, Triptofano!

Já não é a primeira vez que, na farmácia onde trabalho, uma mãe pergunta-me qual a minha opinião sobre dar para as mãos de uma criança com dois ou três anos um telemóvel para ela se entreter.

Ora se no início eu ainda dava a minha opinião honesta, aprendi que as pessoas não querem sinceridade mas sim um afago na consciência, para que possam ir para casa com um sorriso no rosto e sem aquele peso na alma de que podem estar a ser maus pais, já que sempre que eu iniciava o meu discurso anti-telemóveis a resposta que eu ouvia era:

Mas o senhor tem filhos? Pois bem me parecia que não, se tivesse não falava assim!

Agora sempre que me fazem essa pergunta faço um sorriso tipo esfinge e esquivo-me da questão, porque já vou a caminho dos quarenta e não me posso dar ao luxo de criar stress oxidativo extra na minha vida.

Sim, sou contra os telemóveis em crianças pequenas, mas não significa que ache que quem disponibilize essa tecnologia aos seus filhos seja um mau pai. Na verdade não acredito que na generalidade existam maus pais, há sim pessoas que vão tentando fazer o melhor que podem e sabem na árdua tarefa de educar uma criança.

Se calhar eu, se me visse com duas criancinhas do demónio a correr e aos saltos pela casa, talvez também lhes desse um telemóvel para as mãos para elas sossegarem durante dez minutos que fosse. Ou isso ou punha-lhes umas gotinhas de Rivotril no leite...

Devemos deixar as crianças usar livremente o telemóvel?

Porque é eu sou contra as crianças usarem telemóveis?

Primeiro, a luz azul dos pequenos ecrãs é nociva para os olhos, tanto de miúdos como de graúdos, havendo a possibilidade de a longo prazo se desenvolver degeneração macular, uma doença da retina que no pior dos casos pode levar à cegueira. 

Tendo em conta que os olhos das crianças são estruturas muito mais imaturas e sensíveis, é fácil de perceber que a luz vai ter mais impactos negativos neles.

Acredito piamente que, daqui a cinquenta anos, venha-se a descobrir que houve um aumento gigantesco de doenças oculares relacionadas com o uso dos ecrãs em tenra idade, e nessa altura talvez se comece a perceber que ter um miúdo cinco a seis horas por dia agarrado a um telemóvel não é de todo benéfico.

Agora o que me complica com os nervos é quando atendo pais que querem comprar óculos de sol para proteger os olhos da criança das radiações solares, mas depois não se lembram de os proteger da luz azul dos telemóveis e tablets e afins.

Em segundo, as crianças precisam de interagir com os seus cuidadores e com outras crianças.

É muito bonito dizermos que estamos numa era de tecnologia, e que agora as crianças quase que nascem com um computador agarrado às costas, mas bolas, nós precisamos de criar seres sociáveis com a noção da realidade que os engloba, não pequenos seres vivos presos numa bolha virtual que vão acabar a viver 24 horas por dia fechados num quarto, a comer batatas fritas e pizzas de pacote, enquanto teclam freneticamente um código algorítmico qualquer e gritam desesperados quais morcegos míopes se um dos progenitores abre as cortinas para deixar entrar alguma réstia de luz solar.

Por fim, os conteúdos que as crianças consomem nem sempre são os melhores. 

Claro que aqueles desenhos animados com músicas horríveis que nos ficam na cabeça durante semanas e nos fazem apetecer cortar os pulsos não são assim muito preocupantes, apesar de eu achar que há coisas melhores no Youtube, como as músicas dos Babies Go (façam uma pesquisa e depois agradeçam-me), mas e o que dizer acerca dos vídeos dos influenciadores que os miúdos devoram e por quem são completamente obcecados?

É que se para a criança trata-se apenas de um vídeo giro com um miúdo ou uma miúda a falar sobre o novo brinquedo que comprou ou sobre os super mega ténis da moda que lhe chegaram a casa via correio, todos nós deveríamos saber que isto não é apenas entretenimento, mas sim publicidade descarada que fomenta o espírito consumista do nosso rebento.

Ou vão-me dizer que nunca tiveram um filho aos gritos histéricos a dizer que também quer uma coisa qualquer que viu um dos seus ídolos virtuais a usar?

Hoje em dia a publicidade já não ataca os pais directamente mas sim de uma forma muito mais inteligente que é através das crianças, que são naturalmente muito mais susceptíveis às estratégias de marketing.

Devemos deixar as crianças usar livremente o telemóvel?

Não sou pai e sei que a minha opinião vale o que vale, mas acredito piamente que me sentiria no fim do dia mais em paz comigo mesmo se tivesse um filho que me cagasse a casa toda com um slime comprado na loja dos trezentos em vez de ter ficado num canto com os olhos pregados no telemóvel!

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