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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio dos Pássaros #4 - A Beatriz disse que não. E agora?

04.10.19, Triptofano!

Foda-se!

Toda a casa vibrou com a gaveta da cómoda agressivamente fechada e continuou a vibrar perante os murros coléricos desfechados por Samuel na tampa da mesma.

Puta. Cabra de merda. Vaca do caralho.

A face de Samuel era uma mistura entre o grotesco e o hediondo, com os olhos tingidos de sangue e as veias do pescoço prestes a rebentar, mas bastou uma milésima de segundo para toda a agressividade se diluir na atmosfera e ser substituída por uma agonia sofrida intercalada entre soluços mudos.

Ela não merecia ser chamada de puta. Ela deveria ter as suas razões. Ela sempre tinha estado lá para ele. Ela devia ter mandado aquela mensagem a dizer que não porque algo de grave se tinha passado. Ela não o ia deixar. ELE PRECISAVA DELA.

Filha de uma PUTA!

Samuel arrancou mãos cheias de cabelos enquanto emitia um som guturalmente animalesco, enquanto recordava a mensagem onde Beatriz dizia que não.

Tacteou o bolso das calças até encontrar o blíster com os comprimidos de Tegretol. A médica disse-lhe para não ler a bula do medicamento, para não se assustar com as referências a epilepsia e convulsões. No caso dele os comprimidos ovalóides serviriam para controlar as mudanças de humor, para não haver tantos vales e montanhas, mas sim uma estrada mais plana.

Samuel raramente tomava os comprimidos. Enfiou três de uma vez na esperança de acalmar a tormenta de sentimentos que devorava todos os espaços intersticiais do seu organismo.

Tentou respirar fundo mas vinha-lhe constantemente à boca um refluxo estomacal que só por mero acaso não o fez vomitar descontroladamente, tão descontroladamente como era a paixão odiosa que sentia por Beatriz.

Passou ao de leve com as pontas dos dedos nas marcas das vergastadas que há três dias atrás tinha sofrido sob o seu comando, e não conseguiu evitar ter uma erecção. Uma erecção que lhe fez recordar as pequenas cicatrizes que ainda tinha nos testículos de uma sessão especialmente dolorosa e satisfatória que envolvera pinças e corrente eléctrica.

Samuel trabalhava num daqueles escritórios cinzentos amorfos onde toda e qualquer réstia de felicidade é aniquilada por dezenas de folhas de Excel e um qualquer prazo impossível de cumprir.

Chefiando uma equipa de 12 corpos sem alma, o dia dele era regurgitar ordens e despedir quem não aguentasse o ritmo da morte acelerada, sem sequer pestanejar ou dar-se ao luxo de sentir algo mais do que monotonia.

Por isso é que Beatriz era importante. Ela fazia-o sentir vivo. Ela era o ar que os seus alvéolos colapsados por uma doença pulmonar crónica obstrutiva precisavam. Ela era pão mastigado para a boca faminta e desdentada que ele escancarava para o mundo.

Abriu de novo a gaveta.

Viu o arnês que ela uma vez lhe dissera conferir-lhe uma masculinidade viril ao torso que tanto lhe agradava, pousado em cima da fralda para adultos, com manchas ressequidas de mijo, que o obrigava a usar quando o castigava por essa mesma masculinidade viril.

Pegou em tudo e com um novo acesso de raiva atirou com as coisas contra a parede.

VAI-TE FODER SUA PUTA DE MERDA!!!

O telemóvel tocou.

Samuel precipitou-se na direcção dele com o coração na boca e a alma algures perdida entre o amor e o ódio.

Estou sim Bea...

(...)

(...)

(...)

Sim amor, claro que vou buscar as crianças à escola!

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