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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio dos Pássaros #14 - Kyanós

13.12.19, Triptofano!

Tossiu compulsivamente enquanto apagava furiosamente mais um cigarro no cinzeiro.

O médico já o tinha avisado que devia parar de fumar, porque a sua saúde tinha-se degradado bastante nos últimos tempos, apesar de ter apenas cinquenta e poucos anos.

Além da tosse havia uma dor de cabeça persistente que o acompanhava e uma sensação de estar sempre enjoado. Até a pele estava diferente, mais húmida e avermelhada. Se não soubesse que tal era impossível ainda consideraria a hipótese de poder estar grávido.

É do tabaco dizia o médico, mas ele sabia que o verdadeiro culpado eram os nervos que o consumiam desde a misteriosa doença da mulher.

Um par de anos mais nova que ele, era uma mulher insossa, sem graça, completamente subjugada e incapaz de dar um passo sozinha. Tinha-se casado com ela porque os pais o convenceram que uma mulher de boas famílias era um óptimo cartão de visita e iria-lhe trazer alguma estabilidade, mas desde o início que ele percebeu que não tinha nascido para aquilo.

Antes de celebrarem o primeiro ano de casamento já ele se tinha envolvido com mais de uma dúzia de prostitutas com quem fazia coisas que a mulher nem imaginava existirem. Gostava especialmente de urinar dentro delas depois de se vir. Nem a todas agradava essa prática, mas ele era o cliente e se ele pagava elas só tinham que obedecer.

Os anos passaram e ele continuou a envolver-se com mulheres, cada vez mais frequentemente, chegando ao cúmulo de um dia, num estado de bebedeira e tesão descomunal, ter levado uma para casa e fornicado-a no quarto de hóspedes, enquanto a mulher dormia placidamente, a estúpida!

Há cinco meses atrás começou a desconfiar que algo de estranho se passava com a esposa.

Ela começou a esquecer-se de lhe fazer o jantar, de lhe lavar a roupa, de comprar os maços de cigarros que fumava diariamente. Primeiro pensou que pudesse estar a orquestrar algum tipo de greve doméstica, mas quando ela por alegado esquecimento deixou um bico do fogão aceso e quase mandou a cozinha pelos ares percebeu que a situação era mais séria do que uma simples birra.

Passou a chamá-lo pelo nome do pai, que tinha falecido há mais de uma década, e mais que uma vez chegou-se a esquecer de quem ela própria era.

Nenhum médico conseguiu perceber qual era a doença de que ela sofria. Uns falavam de demência, outros de Alzheimer, uma neurologista franzina até chegou a colocar em cima da mesa a possibilidade de uma doença auto-imune que devorava neurónios e sinapses.

E ali estava ele, a tratar dela, daquela mosca-morta, daquele pedaço de merda que lhe estava agarrado ao sapato há tantos anos. Só não a deixava porque dependia financeiramente dela, e não fosse a mãezinha que ligava todos os domingos para saber da filhinha coitadinha já a tinha espetado num lar. Ele não tinha nascido para ser um mártir do casamento.

A mulher estendeu-lhe um café com os olhos vazios.

O médico tinha recomendado que ela fizesse ao máximo as rotinas a que estava habituada, de forma a que o cérebro não se desligasse completamente. E algo que ela ainda era capaz de fazer todas as manhãs era o café preto que ele bebia acompanhado de três cigarros.

Naquele dia sentia-se com mais frio do que o habitual. Talvez estivesse a chocar uma gripe. Sorveu um grande gole do líquido castanho na esperança de se aquecer, mas ao invés da temperatura corporal aumentar começou a sentir uma dor forte no peito.

Uma dor que começou a irradiar para o braço, uma dor gigantesca, opressiva, como se um elefante o estivesse a esmagar. Com a mão no peito tentou-se levantar mas as pernas falharam-lhe e caiu no chão.

Olhou para a mulher que o mirava inexpressivamente e arfou desesperado:

Liga para o 112, rápido!

Ela olhou para ele e quase num sussurro respondeu-lhe:

Desculpa amor, mas não me lembro do número!

Enquanto observava os últimos resquícios de vida a abandonarem o corpo do marido sorriu timidamente. Tirou do bolso do avental o frasco de cianeto com que nos últimos meses lhe tinha envenenado pacientemente o café e reviu mentalmente o plano.

Esquecer-se convenientemente do telemóvel em casa para nenhum satélite maluco descobrir por onde tinha andado. Apanhar um autocarro pagando o bilhete com moedas e ir até ao centro comercial da periferia da cidade. Ir a uma das casas de banho e despejar na sanita o resto do cianeto e colocar num dos baldes do lixo o frasco. Voltar para casa e "descobrir" o marido morto, ligando apavorada para o 112.

Um arrepio de prazer percorreu-lhe todo o corpo perante a antecipação do que ia fazer.

Ela tinha nascido para aquilo!

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