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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio dos Pássaros #10 - Concerta

15.11.19, Triptofano!

Os primeiros raios de sol aqueciam o interior da bucólica viatura que deslizava pelo asfalto, dando um ar quase que divino aos caracóis louros que emolduravam a cara angelical daquele miudito de cinco anos.

Já chegámos? Já chegámos?

As palavras saídas de uma boca tão docemente delicada espantavam pelo tom de maturidade imbuído nelas, como se houvesse uma alma ancestral a habitar naquele pueril corpo que tivesse encontrado nos vocábulos a melhor forma de se expressar.

Norberto olhou pelo espelho retrovisor fazendo contacto visual com o filho, observando deliciado cada centímetro quadrado daquela criatura que era uma extensão dele, aquela amostra de pessoa que segurava ternamente mas com toda a força do seu pequeno ser um grande ramo de astromélias com tons dourados.

Já chegámos? Já chegámos?

Talvez outro pai já tivesse dado um par de berros mediante tamanha insatisfação inquisitória, mas Norberto simplesmentou voltou a estabelecer contacto visual e a sorrir.

O filho tinha sido diagnosticado com uma variedade de hiperactividade que nem os médicos souberam explicar, mas para ele tudo devia-se ao facto da mãe o ter abandonado há um ano.

Os ter abandonado, porque também Norberto se viu de um momento para o outro, sem aviso prévio ou carta registada, sozinho com uma criança para criar.

Aquelas viagens de carro, que pai e filho faziam juntos, custavam-lhe horrores, mas tinha decidido que para o bem estar da criança faria o seu melhor para manter o contacto entre ela e a progenitora.

Nesses dias, Norberto aumentava a dose dos comprimidos que comprava na farmácia da esquina sempre mediante a apresentação do cartão de cidadão para tornar a jornada o mais tolerável possível!

Já chegámos!!!!!!

O carro deteve-se perante um portão enferrujado escancarado, como a convidar todos a entrar, e o garotito dos caracóis dourados, com inesperada habilidade, abriu a porta do carro e, com o ramo de flores bem seguro na mão como se fosse o seu maior tesouro, correu à procura da mãe.

Norberto deteve-se mais alguns instantes dentro da viatura. Colocou os óculos de sol que guardava no porta-luvas e preparou-se para o encontro.

Sabia que iria chorar de saudades por aquela mulher que lhe tinha dado tantas esperanças de um futuro e de um momento para o outro o fizera ficar sem nada, mas não queria que isso perturbasse o filho.

Passou o portão e procurou com os olhos a figura angelical daquele pedaço de gente, daquela memória, eternamente enclausurada nos genes, da mulher que mais amara na vida. Pelo chão meia dúzia de astromélias reflectiam o sol da manhã, perdidas no entusiasmo do reencontro.

E ali, a meia dúzia de metros, o filho repousava a inocência do seu corpo no frio da laje de cimento do túmulo da mãe, tagarelando com um sorriso acerca das aventuras dos primeiros dias de escola.

*

João não conseguiu evitar fungar compulsivamente quando leu as últimas frases daquele livro. Apesar do seu metro e noventa todo ele era uma mistura de soluços e lágrimas e ranho quando lia aquelas histórias tão tristes, como era a de Norberto e do seu filhinho órfão! 

Pegou num lenço perdido entre os invólucros brutalmente assassinados dos chocolates de leite com avelãs e assoou-se ruidosamente!

Célia querida - disse dirigindo-se à mulher que estava na outra ponta do sofá - tens que ler este livro! A história é tão triste que acho que vou ficar desidratado de tanto chorar!

Célia sorriu insipidamente para o marido durante uma milésima de segundo, voltando a embrenhar-se na pesquisa que estava a fazer no telemóvel.

Tinha recebido uma proposta extremamente tentadora a nível monetário de um novo cliente, o problema é que ele queria uma forte componente de coprofilia, algo que Célia nunca tinha sequer imaginado fazer.

Problemas, só problemas...

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