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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.3 - Secobarbital

14.02.20, Triptofano!

Miguel olhou para a capa do livro que aparecia sedutiva no ecrã do seu tablet.

Desafio de Escritas dos Pássaros #2.3 - Secobarbital

Por toda a Internet só se falava deste livro, um manual para iniciar relacionamentos que consistia em 36 perguntas infalíveis para dois desconhecidos apaixonarem-se perdidamente.

Miguel percorreu todas as perguntas que estavam divididas em três grupos, desde Tem uma intuição secreta de como vai morrer?, passando por Como se sente em relação à sua mãe? e acabando num Se fosse morrer esta noite sem possibilidade de falar com ninguém, o que lamentaria não ter dito a uma pessoa? Por que não disse até agora?, lendo atentamente a explicação de porque é que cada pergunta e consequente resposta eram importantes para que no fim do processo dois desconhecidos ficassem unidos pelo energia mais forte do universo: o amor!

Quando terminou de ler o livro Miguel esboçou um sorriso triste enquanto com um golpe de nuca desligou o tablet. Aquele manual até podia funcionar, mas não para ele.

Tinha ficado tetraplégico há quarenta anos atrás. Um salto mal calculado para uma piscina deixou-o totalmente dependente de terceiros, preso numa cadeira eléctrica que conduzia com o queixo. A namorada da altura ainda o visitou durante alguns meses, até encontrar um novo amor, com pernas e braços que funcionassem. Miguel não a condenava, com 17 anos ninguém merecia ficar preso a um fardo daquele tamanho.

Alguns amigos permaneceram durante um pouco mais, mas a vida levou-os para outros caminhos, enquanto que Miguel estava preso num beco sem saída. Apenas lhe restava a mãe, beata de nascença, que entre rezas e terços o alimentava, vestia, dava-lhe banho, trocava a fralda e todos os dias o "confortava" dizendo que o sofrimento dele era um desígnio do Senhor; e a Internet, que navegava velozmente usando um teclado especial que aprendeu a utilizar com pancadas secas da nuca.

Gostava de flertar com mulheres na Internet, usando fotos de outros homens, encantando-as com o seu humor mordaz e as histórias fantasiosas de como era um amante sem limites, mas no fim do dia Miguel sabia o que era, uma cabeça presa num monte de carne inútil.

40 anos depois Miguel já não aguentava sobreviver mais daquela forma, queria somente um bilhete dourado para um vida noutra dimensão sem sofrimento, mas não o conseguia fazer sozinho. Não era como se pudesse abrir a porta de casa e atirar-se pelas escadas abaixo na esperança de partir o pescoço: para poder morrer tinha que ter a ajuda de alguém.

Com o subsídio de invalidez que recebia todos os meses poupou o suficiente para uma viagem sem regresso para a Suíça, onde um comprimido mágico o libertaria da sua prisão. Mas não tinha forma de ir, porque a única pessoa que o podia ajudar era a mãe, que se opunha totalmente entre gritos e ameaças de fogos infernais à ideia de que ele pudesse morrer de forma não natural.

Miguel também não queria que ela sofresse por causa da sua decisão, não queria que ela sentisse uma facada nas costas depois de tantos anos devotamente a cuidar dele.

Um mar de lágrimas inundou-lhe os olhos. Amava a mãe mas uma parte dela queria que ela morresse para se poder libertar. Sabia que quando ela não estivesse mais naquele mundo para tratar dele teria que ir para uma instituição.

Talvez aí encontrasse alguém que o quisesse levar à Suíça. Ou nessa altura já teria ocorrido a despenalização da eutanásia, e ele poderia finalmente ser dono de si próprio.

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