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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita dos Pássaros #9 - Trevicta

08.11.19, Triptofano!

O céu estava perfeitamente limpo, com a excepção de uma ou outra gaivota que desafiava as leis da física de tão anafada que era.

Uma onda mais rebelde devorou-lhe metade da perna esquerda fazendo-a acordar sobressaltada, com a cabeleira cheia de areia e o corpo totalmente desnudo a escaldar do sol impiedoso.

Olhou em volta numa mescla de surpresa e incredulidade - o que é que estava a fazer naquele areal? como é que tinha ido ali parar? quem era ela?

Atada ao pé, como se fosse um presunto duma loja gourmet, uma etiqueta dourada ostentava um nome em letras cursivas - Jocilene

Seria ela Jocilene? Não se conseguia lembrar do seu nome, mas a conjugação sonora das sílabas trazia-lhe alguma tranquilizante familiaridade.

Sem aviso, uma dor azul lancinante trespassou-lhe a cabeça fazendo-a cerrar furiosamente os olhos.

Ícaro.......Ondansentrons.......Neotigason

A glande do seu clitóris emergiu do prepúcio, e Jocilene percebeu instintivamente que estava em perigo. Olhou em redor e viu, no fundo do areal, umas figuras disformemente humanoides em tons de cinzento a flutuar lentamente na sua direcção.

Foge.....foge......foge......foge!

Correu o mais depressa que pôde em direcção à floresta que ficava a meia dezena de metros de onde estava, transitando da fofura da areia da praia para a aspereza do solo coberto de folhas de palmeira que lhe causou pequenos cortes nas palmas do pés, com a boca inesperadamente inundada de um sabor a chocolate-hortelã e a Gatorade de laranja.

Continuou a correr desvairada, assustada, embrenhando-se por completo na vegetação, até bater de frente com uma figura que também ela corria.

Não era um humanoide disformemente cinzento, mas sim um homem cuja principal característica era um Prince Albert, um piercing dourado que lhe fazia sobressair os atributos varonis.

Ícaro?

Não, Emanuel, ou pelo menos é o que a etiqueta diz. - apontando para a identificação do pé, exactamente igual à de Jocilene - Também viste as criaturas?

Os Ondansetrons? Sim, estavam no areal...

Como é que sabes o nome deles? Já os conheces? O que é que estamos aqui a fazer?

Eu não sei...- balbuciou Jocilene -...simplesmente sei.

Ok, não interessa. Vem comigo, há uma cabana a pouca distância daqui. Lá estaremos em segurança.

Emanuel recomeçou a correr pela vegetação e Jocilene seguiu no seu alcance, fitando-lhe o cu redondo saltitante.  Teve de se obrigar a controlar os pensamentos pecaminosos, precisava primeiro de ficar a salvo e perceber a situação em que se encontrava.

A cabana encontrava-se totalmente camuflada de olhares curiosos e no seu interior apenas existia um pequeno frigorífico.

Quando Jocilene passou a porta a dor lancinante voltou a trespassar-lhe a cabeça, como uma bomba atómica lançada na sua cavidade craniana.

Eles estão aqui.....eles estão aqui.....eles estão aqui....

O seu clitóris começou a vibrar descontroladamente. Estava em perigo, estava em perigo, ESTAVA EM PERIGO.

Jocilene, está tudo bem? - Emanuel pousou-lhe uma mão no ombro, mas não era uma mão humana, era um apêndice de três tentáculos com artroses que se lhe colavam à pele. Ele era um deles, ele era o perigo, ele ia matá-la....

Em cima do frigorífico estava um taco de golfe, que Jocilene ia jurar que antes não se encontrava lá, mas era a sua única chance.

Num salto agarrou a arma, e com um movimento digno de um filme de Hollywood, ao mesmo tempo que o clitóris explodia num orgasmo insano, rachou a cabeça do filho da puta do alienígena que a queria matar.

O corpo de Emanuel caiu inerte no chão e nesse preciso instante o crânio de Jocilene quase que implodiu com a estrastosférica dor azul que a invadiu!

***

Enfermeira, desligue o simulador de realidade virtual.

Samuel carimbou furiosamente uma data de papéis rubricando uma mão cheia de outros, que teria de levar de volta para o escritório amorfo onde trabalhava. Aquele escritório que parecia ainda mais deprimente desde que Beatriz lhe tinha dito que não.

Injecto mais uma dose de medicamento e volto a ligar o simulador para ver como a paciente se comporta desta vez Dr.Samuel? - perguntou a raquítica e macilenta enfermeira.

O telemóvel de Samuel vibrou. Uma mensagem.....de Beatriz!

Encontramos-nos numa hora no local do costume.

Samuel agarrou atabalhoadamente os papéis e dirigiu-se para a porta.

O estudo acabou Sra.Enfermeira. O novo medicamento está oficialmente aprovado. Obrigado pelo seu trabalho.

Mas, mas....o medicamento não é eficaz. Você viu que ela voltou a matar!

O nosso trabalho aqui não é saber se o medicamento é ou não eficaz, mas se é ou não seguro. Ele não matou a paciente, se a paciente mata alguém ou não isso já não é connosco. - disse Samuel - Como se a Sra.Enfermeira não soubesse como funciona a indústria farmacêutica. - acrescentou com um riso escarninho enquanto se dirigia para a porta.

Então e o que é que eu faço com ela? - perguntou exaltada a enfermeira.

Queime-lhe os miolos! Depois eu invento qualquer coisa no relatório. - disse Samuel batendo a porta atrás de si, correndo ao encontro de Beatriz.

A enfermeira encolheu os ombros. Ordens eram ordens!

Ajeitou os sensores fotovoltaicos nas têmporas de Jocilene, aumentou para o máximo a potência e preparou-se para carregar no botão.

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