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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de escrita dos pássaros #2 - O amor e um estalo

20.09.19, Triptofano!
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou  
 
Todos os poros de Ricardo gorgitavam água naquela sauna decrépita dos arredores da cidade. 
Incessantemente, revia mentalmente uma e outra vez as mensagens que tinha recebido na noite anterior, os pedaços de texto que lhe tinham dilacerado o coração e a alma.
Aparentemente ele somente tinha pés, quando deveria ter asas para poder voar rumo a uma direcção desconhecida.
 
Pegou trémulo no frasco vermelho agressivo, e levou uma qualquer conjugação de ligações de carbono e hidrogénio ao nariz, snifando profundamente.
Numa fracção de segundos o seu cérebro implodiu, deixando um vazio azul que lhe preenchia toda a vontade do seu ser, ao mesmo tempo que lhe relaxava cada centímetro quadrado da sua musculatura.
 
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender  
 
Com o olhar vazio fez sinal ao pedaço de carne que o mirava há muito para avançar, e aquela glande rosa acizentada, desproporcionalmente grande e assustadoramente dolorosa, avançou galopante em direcção ao seu ânus.
Não foi mais que um minuto que a pele esteve em contacto com a pele, num ritmo acelerado, desenfreado, sem travões nem airbag, até que o corpo detentor daquele particularmente feio pênis vibrou em êxtase libertando uma explosão de sémen.
 
No ar ficou um cheiro a esperma e luxúria, a merda e desespero, mesclado com as luzes eléctricas epilépticas que banhavam o corpo inertemente ofegante de Ricardo.
 
*
 
As luzes eléctricas daquele gabinete médico de um branco descascado criavam um conjunto de sombras envelhecidas no rosto esquelético do médico.
 
Ricardo, as análises são conclusivas, você tem HIV.
 
Foi como se lhe tivessem dado um estalo directamente na traqueia, impedindo-o de respirar, deixando-a num estado de afogamento em terra árida e infértil.
Os dedos crisparam-se no telemóvel, o mesmo telemóvel que tinha recebido horas antes, na ternura da madrugada, um pedido de desculpa e uma vontade de regressar a um caminho fora das nuvens.
 
Pergunte pró seu Orixá
O amor só é bom se doer  
 
Ricardo saiu para os corredores vazios do hospital, cheios de gente morta a respirar.
Levou a trémula mão ao bolso e os dedos gelados descobriram esperançosos o frasco vermelho agressivo.
 
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou ...
 

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