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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.5 - Nitromint

29.02.20, Triptofano!

Carolina acordou exactamente às sete da manhã, ao som do rádio despertador que inundou o quarto com a inconfundível voz de Carminho.

Bom dia, amor
Dizem as rosas da janela ao ver o sol nascer
Bom dia, amor
Tal como as rosas, espero sempre por te ver

Levantou-se de um salto, abriu a janela para que o sol da manhã entrasse sem impedimentos e espreguiçou-se demoradamente. Hoje era o dia porque tanto esperava.

Vestiu o roupão que tinha abandonado sonolentamente no chão na noite anterior e dirigiu-se à cómoda, onde acendeu três velas vermelhas e colocou uma pitada de sal dos Himalaias num copo com meia dúzia de cristais coloridos e uma foto plastificada do seu grande amor, ao mesmo tempo que declamava o feitiço:

Meu amado, meu amado

Serei o teu fado

Meu amado, meu amado

Estaremos sempre lado a lado

Carolina nunca tinha acreditado no amor até o ter conhecido, aquele homem que virou o seu mundo de pernas para o ar. Sabia que ele era casado, mas as conversas durante horas, os jantares longe dos olhares do mundo e as noites de sexo escaldante fizeram-na acreditar que era possível um futuro a dois.

Quando começou a abordar o tema divórcio ele mudou de atitude, ficou mais esquivo, as conversas foram substituídas por mensagens, os jantares por rápidos encontros em áreas de serviço e as noites de sexo por fodas onde ela nem conseguia atingir o orgasmo.

Desesperada resolveu ligar para um daqueles números de valor acrescentado que figuravam em folhetos distribuídos no metro ou despejados indiscriminadamente em caixas de correio. A mulher que a atendeu pareceu-lhe verdadeiramente interessada no seu problema, e depois de mais de uma hora de conversa foi sugerido a Carolina que fizesse um feitiço de amarração. Demoraria três meses mas seria tiro e queda garantiu-lhe a mulher.

Carolina passou por todos os recantos do corpo o creme de veneno de cobra que a tornaria irresistível, vestiu as cuecas bordadas a fio de linho virgem da Noruega e colocou o fio com um pequeno coração dourado que tinha benzido à luz da lua cheia - tudo coisas que tinha comprado através da mulher do telefone e que lhe tinham custado uma autêntica fortuna. Mas como a mulher lhe dizia, o verdadeiro amor não tinha preço.

Pegou na mala e saiu de casa mesmo sem tomar o pequeno-almoço, porque o único alimento que verdadeiramente necessitava era o amor daquele homem.

Quando entrou no táxi, em direcção ao encontro que tinha marcado num café a meio da rua, porque as esquinas aparentemente eram locais a evitar por terem energias de separação, a dúvida tomou conta dela. Será que o feitiço iria funcionar?

Enviou uma mensagem para a mulher que em poucos segundos lhe respondeu:

Não se preocupe. Hoje terá o coração dele nas suas mãos.

O táxi chegou ao destino e lá estava ele, fumando um impaciente cigarro. Carolina saiu do veículo na sua direcção, com um sorriso apaixonado estampado no rosto.

Foda-se Carolina - disse o homem - já te disse que está tudo acabado entre nós. Que parte é que tu não entendes?

Carolina estava preparada para esta reacção. Do bolso tirou um pequenino frasco de água benzida num vulcão e borrifou o seu amado, enquanto dizia silenciosamente a reza que lhe tinham ensinado, de forma a quebrar qualquer impedimento externo que tivesse sido convocado.

Mas que merda é essa porra? Tu só podes ser completamente chanfrada. Põe isto na cabeça mulher, já não há nada entre nós. Se tu não desapareceres eu...

O homem não conseguiu terminar a frase porque uma faca de cerâmica tinha-lhe sido espetada no peito só ficando com o cabo ensanguentado de fora.

Carolina sorriu ligeiramente. Afinal a mulher do telefone tinha razão. Ela ia ter o coração dele nas mãos. De uma forma ou de outra...

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