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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.2 - Cytotec

07.02.20, Triptofano!

Esmeraldina não confiava em médicos.

Tinha sido por causa de um médico que perdera a sua mãe, a mãe que tanto lhe fizera falta durante a inocência da juventude, a mãe cuja ausência a obrigou a tornar-se mulher muito antes do tempo.

Ela não tinha sequer 30 anos quando lhe disseram que tinha o útero descaído, e que a melhor opção seria remover tudo. Útero, trompas, ovários, e tudo o mais que se pudesse encontrar pelo caminho.

A mãe de Esmeraldina confiava em médicos, confiava tão cegamente que não pensou em pedir uma segunda opinião, confiava tão cegamente que deixou que a abrissem para tirar o mais precioso que tinha dentro dela: a capacidade de gerar nova vida. E foi quando lhe tiraram essa capacidade que ela encontrou a morte.

Uma compressa esquecida. Uma infecção generalizada. Uma morte galopante causada por um médico que na ânsia de ganhar dinheiro tinha inventado uma doença que não existia. 

Esmeraldina não sabia disso, mas não precisava de o saber para não confiar em médicos.

Fez a sua vida sem nunca chegar perto de um centro de saúde ou de um hospital. Encontrou os seus remédios nas ervanárias, nas conversas com as vizinhas, nas folhas desbotadas de um livro da biblioteca itinerante.

A filha teve-a numa parteira, entre gritos, toalhas frias e contracções. Pensou que morria nesse dia mas a força que trazia dentro era maior do que ela, e depois de horas de sofrimento trouxe uma menina ao mundo.

Uma menina que amou e cuidou sem remédios nem vacinas, apenas com o conhecimento que os anos lhe tinham trazido.

Uma menina que agora estava deitada na cama da parteira, sofrendo entre gritos, toalha frias e contracções. 

Esmeraldina não estava preocupada. Tinha aprendido a confiar naquela parteira, nas mãos hábeis que sabiam tirar a vida de um corpo. 

A filha já tinha tomado os comprimidos há mais de quatro horas, não deveria demorar muito até todo o processo ter terminado.

Bastaram apenas mais alguns minutos, breves para ela, eternos para a filha, para que a parteira subtraísse das vísceras um feto avermelhado que rapidamente colocou dentro de um grande saco preto do lixo.

O aborto tinha sido um sucesso.

Esmeraldina olhou com um misto de ternura e desdém para a filha que gemia baixinho de dores - de corpo e de alma - na cama da parteira.

Com 14 anos já deveria ser adulta o suficiente para perceber que não se deve confiar em médicos, muito menos abrir as pernas para eles ao som da primeira promessa de amor eterno.

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