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Triptofano

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Desafio de Escrita do Triptofano | A Viagem

31.03.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Viagem

Quando a pequena aldeia acordou sob o calor matutino dos raios de sol emergida no cantar bamboleante dos pássaros foram necessárias longas horas até se aperceber da ausência dele.

Fosse ele o homem que distribuía o aromático pão, ou o jovem que transportava em esforço dezenas de imaculadas garrafas de leite, ou mesmo o louco que todas as manhãs cantava no meio da praça, teria a aldeia dado conta da sua falta muito mais cedo.

Mas não, ele era o filho do alfarrabista, que ajudava o pai a catalogar pilhas de livros puídos que chegavam de paragens inóspitas. Alguns tinham palavras conhecidas nas capas de couro antigo, mas outros encontravam-se apenas recheados de arabescos incompreensíveis para qualquer ser humano. Ele era silencioso, reservado, com um ar sonhador diziam as mulheres mais velhas com instinto maternal, com um ar de parvo afirmavam os homens mastigando tabaco enquanto retorciam as mãos cheias de calos provocadas pelas enxadas e similares.

Após se ter procurado por ele em todos os cantos e recantos do povoamento, houve um sentimento de unanimidade na proclamação da fuga. Poderiam ter concluído que ele partira, mas não, foi decretado na justiça popular do boca-a-boca que ele tinha fugido: das responsabilidades, dos deveres, da vida simples, mas real, parca de conhecimentos, mas crente na glória de um divino.

Só o pai na sua tranquilidade devota sabia da verdade. Não que o filho lhe tivesse transmitido oralmente os seus propósitos, mas porque via todos os dias refletidos nos seus olhos a inquietação de quem sufoca dentro de si próprio, como um caranguejo-eremita que procura desenfreadamente por uma concha maior onde viver.  Sabia que ele não tinha fugido, mas sim que perdera o medo em abraçar a viagem para se encontrar.

Quedou mudas as pálpebras e vislumbrou a figura tímida, mas resiliente do primogénito, com a sua trouxa branca pintalgada de vermelho protegendo o muito do pouco que tinha: certamente um livro sobre destinos exóticos e ideias deliciosamente provocativas. Que vales e montanhas estaria ele agora a percorrer, que novos mundos estaria a criar apenas usando a palavra e a imaginação?

Uma lágrima gorda escorreu-lhe teimosa pelo rosto. A aldeia vibrou com o burburinho acerca da sua tristeza. Afinal a sua vida enquanto alfarrabista tinha ficado ainda mais difícil, sem alguém para ajudar a empilhar as quantidades absurdas de livros que continuavam a chegar transportados por cavalos esquálidos ou burros pachorrentos. No dia seguinte descobriu-se que também ele desaparecera.

Apenas uma pequena nota, escrita com uma mão trémula de emoção contida, oferecia uma réstia de justificação.

O meu filho ensinou-me que só devemos temer a segurança de criar raízes onde não somos verdadeiramente felizes.

***

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