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Triptofano

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Desafio de Escrita do Triptofano | A Prisão

27.01.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Prisão

 

Francisco fechou os olhos, sorriu com o estômago e inspirou profundamente.

Talvez aquele retiro no mosteiro da Tailândia três anos atrás sempre servisse para alguma coisa, além da perda indesejável de peso devido a uma gastroenterite que o deixou de cama durante um par de dias. Lembrou-se das palavras expelidas num inglês rudimentar que o monge veterano dizia ao conduzir a meditação: Faça a sua mente acreditar que está num lugar diferente.

Francisco bem queria aldrabar a mente fingindo que estava em outro sítio, mas as condições não permitiam tal façanha. A cama onde se sentava de tão dura que era já lhe tinha transformado o rabo num paralelepípedo, a parede a descascar tinha veios de humidade que lhe penetravam desconfortavelmente pelas costas, já sem falar no facto de ser obrigado a estar descalço o que lhe provocaria no mínimo um resfriado se não tivesse o azar de apanhar pé de atleta. E aquela bola agarrada ao tornozelo? Aquela bola matrafona era talvez o pior a que estava sujeito, mas tinha sido uma imposição que não conseguira negociar.

Forçou-se a sorrir tranquilamente com mais força. Há quanto tempo estaria ali? Parecia que já tinha passado uma eternidade e meia. Os dentes rangeram sob a força que aplicou no maxilar, indignando-se silenciosamente com a sua situação. Como é que tinha ido parar àquela situação? Logo ele que dedicara tantas horas da sua vida ao estudo, que viajara para lugares recônditos para se aperfeiçoar enquanto ser humano, que até tinha dormido com o número certo de pessoas para assegurar a ascensão vertiginosa da sua carreira. Se calhar não tinha dormido com o número suficiente de pessoas. Ou teria dormido com pessoas a mais?

Corta! ouviu-se uma voz enfezada gritar vinda do corpo macilento e crespo de um rapaz de vinte e poucos anos.

Francisco levantou-se ruminando indignações para dentro, agitando as pernas para as desentorpecer fazendo a bola preta de esferovite saltitar ao compasso dos seus movimentos. Como raio é que tinha vindo acabar a protagonizar filmes de categoria rasca para trabalhos de final de curso de estudantes de cinema?

Fechou os olhos, sorriu com o estômago e fez a sua mente acreditar que estava nos estúdios de uma telenovela da moda onde era o galã principal. Esse sim era o seu lugar por direito, e ia fazer de tudo para o reclamar. Nem que para isso tivesse que matar...

***

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