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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita do Triptofano | Sementes de Ira

10.02.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | Sementes de Ira

Com mais naturalidade! - grasnou uma voz angulosa vinda dos lábios ameixa de uma mulher de meia idade. - Lança as sementes como se fossem um prolongamento do teu ser!

Francisco revirou os olhos com desdém, certificando-se porém que a mulher não lhe via a expressão, enquanto cerrava os punhos com força para evitar proferir um chorrilho de  impropérios, enquanto sentia as saliências negras das sementes a enterrarem-se-lhe nas palmas das mãos.

Tinha conseguido o papel principal num filme independente com financiamento da União Europeia, que iria estrear em sete salas de cinema portuguesas e concorrer a um galardão dum festival agro-sustentável que decorreria num vilarejo dinamarquês do qual nunca tinha sequer ouvido falar. Mas para isso tinha precisado de se meter na cama com a realizadora, que agora insistia que ele precisava de entrar em comunhão com o solo e com as sementes para ser credível, enquanto o marido desta assistia aos devaneios pecaminosos do leito sentado numa poltrona com um copo grosseiro cheio de ice tea de pêssego ananás com duas pedras de gelo a boiar quais icebergues solitários resultantes de um degelo de mau gosto. Assegurava ele que preferia mil vezes que fosse whiskey, enquanto bebericava o líquido acastanhado com estalidos irritantes da língua viperina, mas problemas no fígado tinham-no afastado do prazer do malte.

A mulher conseguia ser tão irritante no set de filmagem como entre os lençóis, sempre numa espécie de delírio metafísico dando instruções vagas de como atingir o clímax, que passavam ora por beliscar com a força de um caranguejo as pontas das mamas descaídas ou por friccionar rapidamente como quem quer atear a chama dos primórdios as nádegas demasiado volumosas fruto de um implante de silicone colocado algures num país de terceiro mundo. Pior que tudo eram os lábios vaginais, sujeitos a um rejuvenescimento há três anos atrás como ela lhe explicou no meio da sua tagarelice incessante, que agora mais pareciam duas línguas de pato ressequidas que lhe tinham sido coladas ao corpo.

O sol estava no seu pico e Francisco transpirava em bica enfiado dentro das desconfortáveis roupas de sarja e com uma espécie de chinelas calçadas que eram dois números abaixo do seu. Ali estava ele, a lançar sementes ao solo que, por meio das maravilhas da tecnologia, se transformavam automaticamente em plantas com um ar desagradavelmente assustador.

O enredo da história era tudo menos credível. Passava-se num futuro distante, em 2084, onde as alterações climáticas tinham destruído todas as culturas e os seres humanos passavam graves carências alimentares. Francisco fazia parte de uma elite de agricultores-biólogos-cientistas que tentavam criar sementes que vingassem nos solos nutricionalmente desertos, sendo que após vários anos de pesquisa incessante tinha criado um grão que deitado à terra germinava automaticamente. O problema é que dava origem não a resplandecentes espigas de milho ou de trigo, mas sim a perigosas plantas carnívoras com um apetite especial por carne humana.

Tocou ao de leve numa das plantas robotizadas e quase ficou sem um dedo, tal foi a velocidade com que o vegetal dentado fechou as suas mandíbulas na tentativa de provar o sabor do seu epitélio salgado. Enquanto reclamava entre dentes das modernices a que o cinema dos dias de hoje se sujeitava, ao mesmo tempo que analisava se realmente não tinha perdido nenhum pedaço de dedo, viu pelo canto dos dentes um pedaço do que parecia ser uma cartolina colorida a espreitar pelo canto da boca cerrada de uma bojuda planta rasteira.

Francisco tentou puxar a cartolina mas a força mandibular da planta era surpreendente. Esgravatou o terra com os pés até encontrar um pedaço de madeira com uma dimensão que considerasse satisfatória, tendo utilizado a ponta do mesmo para forçar a abertura do ser robotizado como se fosse uma alavanca,  permitindo-lhe tirar o pedaço de papel grosso e constatar que tinha uma mensagem impressa.

Uma mão lava a outra...

Como se quisesse mostrar ao universo o seu conteúdo, a planta anteriormente fortemente cerrada rejubilava escancarada com um pequeno pedaço engelhado de osso e carne que se materializava numa pequena mão humana.

O grito de repulsa surpresa de Francisco atraiu a atenção da mulher dos lábios ameixa, que ao vislumbrar o artefacto lançou-se dramaticamente ao chão uivando um Mais uma de forma prolongada e teatral. Uma variedade de corpos precipitou-se em torno da mulher desmaiada, oferecendo esguichos de água, rebuçados derretidos de caramelo ou palmadinhas na face com um pouco mais de força que o necessário. Só depois de alguns minutos de incessante rebuliço é que Francisco conseguiu que alguém lhe mostrasse num telemóvel vermelho sangue o porquê daquela ser mais uma.

Num bosque na periferia da cidade uma mulher tinha encontrado dias antes uma pequena mão numa alcofa imaculadamente branca, com uma mensagem exactamente igual àquela com que Francisco se tinha acabado de deparar.

Um arrepio atravessou-lhe o corpo ao lembrar-se do resto da expressão popular. Se uma mão lavava a outra, onde é que iriam encontrar o rosto?

***

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