Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

27
Set18

Como uma frase pode mudar a nossa realidade


Lembro-me como se fosse hoje do meu primeiro namorado.

 

Sempre tive uma predisposição para namorar com homens mais velhos do que eu.

 

Uma diferença de 15, 20 anos não era significativa para mim, talvez pelo facto do meu pai e eu termos uma diferença de 4 décadas.

 

Alguns poderão dizer que estava a viver um distorcido complexo de Electra, procurando uma figura que substituísse de certa forma a imagem paternal, mas para mim simplesmente sentia atracção pela forma como as sinapses dos homens mais velhos faziam conexões.

 

O meu primeiro namorado tinha mais 24 anos do que eu. Eu tinha 18, ele tinha 42.

 

Antes dele só tinha tido uns namoricos virtuais com pessoas estrangeiras, na altura em que o MySpace era o último grito da moda em termos de redes sociais.

Namoricos tontos, onde se discutiam possibilidades de visitas e ficava-se acordado até às três da manhã por causa das diferenças horárias.

 

Encontrei-o porque decidi fazer algo para sair do marasmo emocional em que vivia.

 

Nos meus sonhos iria encontrar o meu príncipe encantado ao virar da rua, numa aula da faculdade, quando ele se mudasse para o andar abaixo do meu.

No momento em que percebi que a probabilidade disso acontecer era para além de diminuta tomei uma decisão.

 

Fui a um chat de encontros gays, na altura não havia Tinder nem Grindr nem Manhunt nem coisa que o valha, e pensei, ou vai ou racha. O chat era se não me engano do Terravista, que na altura supostamente era bastante popular.

 

Tive sorte, pelo menos eu considero que a tive.

 

Só falei com dois homens. O primeiro desejou-me tudo de bom mas infelizmente residia no Porto, o segundo tornou-se meu namorado por quase dois anos.

 

Lembro-me da primeira vez que o encontrei, passados poucos dias, no Centro Comercial Colombo.

 

Ele bebeu café, daqueles num copo de plástico, e sorriu para mim depois de contar uma piada. Eu apeteceu-me ter-lhe enfiado a colherzinha de plástico entre a falha dos dentes da frente, de tão constrangido e pouco à-vontade que estava.

 

Mas ele não desistiu de mim e eu acabei por não fugir assustado, e a partir daí desenvolvemos uma relação.

 

Ele nunca foi um homem bonito, mas também eu nunca procurei homens indubitavelmente belos. Numa rápida retrospectiva relativamente a todos os homens que tive na minha vida, algo que os unia era o charme e a personalidade. Os corpos e os rostos ficavam em segundo plano.

 

Esta meu desligar da banalidade da aparência talvez se deva ao facto de eu próprio ter crescido a acreditar que era feio e com um corpo desagradável ao olhar. Não que alguma vez alguém mo tenha dito, mas há vírus que se instalam nos nossos cérebros e nos contaminam a visão que temos de nós próprios sem percebermos de onde eles vieram.

 

Por acreditar que eu próprio era desprovido de beleza soube aceitar aqueles que de alguma forma não eram tão bafejados pela mesma.

 

Mas isto não implicava que deixasse qualquer pessoa entrar por causa de uma baixa auto-estima, mas sim que a minha procura recaísse no que as pessoas eram e não no que aparentavam.

 

Foi com o meu primeiro namorado que perdi a virgindade.

 

Sempre tive a ideia fincada que só a perderia quando já andasse na faculdade, e assim aconteceu.

 

O meu despertar para a sexualidade foi tardio, mas para mim fez sentido que assim acontecesse.

Estava preparado para me descobrir e para descobrir os outros, e perceber a verdadeira natureza multi-dimensional das relações sexuais.

 

Com ele perdi a virgindade do corpo mas também da mente.

 

Foi ele que me incutiu o gosto pelas viagens, apesar de nunca termos viajado juntos. Foi com ele que falei sobre o mundo em redor e percebi que havia muito mais que a pequena bolha onde eu habitava. Foi ele que me trouxe uma caixa de Pringles de cada canto do mundo para completar uma colecção que acabou os seus dias arremessada no lixo. Foi ao pé dele que peguei pela primeiro vez num carro, e numa marcha-atrás descontrolada parti um farol (sei que grande parte da minha fobia em conduzir vem desse momento do qual nunca me consegui libertar). É dele que ainda sinto o abraço e a emoção no olhar quando fizemos as pazes depois de um par de dias separados.

 

E foi ele que matou a nossa relação.

 

Ele estava a conduzir e eu estava ao lado dele, feliz, sem preocupações, quando de repente ele diz-me:

 

Gosto muito de ti mas tenho a noção que isto não vai ser para sempre!

 

Foi como um murro no estômago que ele me tivesse dado. Um balde de água fria que me tivesse despejado pela cabeça. Naquele momento as paredes do meu castelo de areia ruíram.

 

Soube exactamente o que ele me quis dizer.

 

Não era que ele me quisesse deixar, mas ele achava que em certa altura eu iria descobrir que aquela relação não tinha futuro, que eu iria perceber que era novo e ele velho, e o que nos unia era menos do que aquilo que nos separava.

 

Só que eu nunca, mas nunca, tinha pensado que não seria para sempre. Na minha infantilidade apaixonada pensei que fosse para sempre, que iríamos estar juntos para sempre, que seríamos dois homens apaixonados para sempre.

 

Hoje, com a sabedoria que os anos me deram, talvez devesse ter tido outro tipo de reacção. Falar com ele, escutar os seus medos, beijar-lhe os lábios enquanto lhe acalmava as dúvidas.

 

Ao invés disso gelou-se-me o coração e a alma. Se ele sabia que não ia ser para sempre então eu tinha que encontrar outra realidade. Foi esse momento, essa frase, que ditou o final da nossa relação.

 

Quando contei esta história à minha mãe, muitos anos depois, ela não conseguiu deixar de sorrir por causa do paralelismo que fez com uma sua vivência.

 

Na sua mocidade, a minha progenitora rezava todos os dias, não porque gostasse realmente de o fazer mas pelo facto de lhe ter sido incutida a prática.

 

Até que um dia, uma freira lhe disse para não deixar de rezar no dia presente por achar que teria muito tempo para o fazer no futuro.

 

Nesse momento a minha mãe apercebeu-se que realmente tinha todo o futuro à frente dela.

 

Até hoje nunca mais rezou.

6 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D