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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Body Shaming

02.01.21, Triptofano!

Depois de tanto tempo a ver as publicações da Dona Pélvis no Instagram, decidi que 2021 seria o ano em que ia tratar a sério da saúde da minha bexiga, e para isso nada melhor do que começar a beber diariamente litro e meio de água.

Uma das formas de nos comprometermos com um desafio é envolvermos outras pessoas nele, porque aí não existe apenas a pressão que colocamos em nós mesmos, mas também a pressão alheia, por isso resolvi partilhar a resolução na minha conta de Instagram.

Um dos grandes problemas de partilharmos a nossa vida com o mundo é ficarmos sujeitos a que parte do mundo não engrace muito com a nossa vida. Digamos que é uma espécie de dano colateral que temos de pensar muito seriamente se queremos e sabemos lidar com ele.

Ora entre várias mensagens simpáticas recebi uma não tão amorosa, de um contacto que fez a questão de partilhar a sua opinião de que eu estava a beber tanta água não por estar preocupado com a minha bexiga mas sim por estar gordo que nem uma lontra.

É nesta altura que vocês dizem que a pessoa estava a meter-se comigo e a dar uma de engraçada - só que não. O que aconteceu naquela mensagem e nas que se seguiram foi uma verdadeira tentativa de body shaming, de querer envergonhar o outro pelo aspecto do seu corpo.

Não vou dizer que sou uma pessoa toda resolvida e que não fico chateado quando alguém me diz que estou a um passo de ter um espectáculo só para mim no Zoo Marine, porque a verdade é que fico, já que de outra forma não estaria aqui a escrever sobre isto. Mas honestamente ficaria muito mais incomodado se esse tipo de comentário tivesse vindo de um amigo ou de um familiar próximo, ou mesmo de alguém com quem tivesse uma relação estreita de trabalho. 

Quando era mais novo tinha uma relação não muito saudável com a minha imagem corporal, porque achava que estava sempre demasiado gordo, mesmo que obviamente não o estivesse. Não cheguei ao ponto de um transtorno alimentar - respeito imenso quem todos os dias luta contra esse tipo de doenças - mas não sabia amar o meu corpo.

Foi preciso um dia estar na universidade e uma colega passar por mim e gritar "ó esqueleto, vai comer uma sandes" para acordar para a realidade. Sim, a abordagem dela não foi a mais politicamente correcta, mas no meu caso funcionou bastante bem.

Aprendi a gostar de mim de uma forma como nunca tinha gostado, e sobretudo a não ser tão exigente comigo mesmo. A amar todos aqueles pequenos detalhes, as pseudo-imperfeições, os parâmetros que não se encaixam nos moldes das redes sociais. 

Nos últimos anos fui ganhando peso. Uma chatice porque não tenho calças que me servem. Uma chatice maior quando tenho que correr para apanhar o comboio e parece que estou a transportar uma criança refugiada anafada dentro da minha cavidade abdominal. Mas é algo que não me tira nem o sono nem o amor-próprio quando me vejo ao espelho.

Lamento saber que ainda há pessoas que se refugiam no body shaming para tentarem ultrapassar os seus próprios preconceitos. Esta pessoa que me mandou a mensagem tinha peso a mais, e nos últimos anos conseguiu emagrecer bastante.

O problema é que emagreceu para provar alguma coisa aos outros que a desprezaram quando era mais gorda. Não emagreceu nem para ela nem por ela, e isso fez com que no fundo continuasse com os mesmos medos, as mesmas inseguranças, as mesmas revoltas interiores.

E quando alguém que por mais que mude não consegue atingir aquele nível de felicidade - porque a felicidade trabalha-se por dentro, não por fora - o que é que faz? Ataca o outro, tenta humilhar, pisar, rebaixar, envergonhar...

Tenho verdadeiramente pena desta pessoa, porque pode ter conseguido ficar mais magra, mas sem dúvida nenhuma ficou muito mais estúpida.

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