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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Até Sempre Làska!

14.09.20, Triptofano!

Custa-me muito escrever este post porque é quase como que admitir que ela partiu e não vai voltar.

Não são umas férias na veterinária nem na casa da avó, e agora sempre que olho para o lugar onde antes estava a gaiola dela, entretanto arrumada no alto do armário onde o meu olhar raramente descansa, sinto um vazio maior do que aquele deixado pela sua habitação numa cor vibrante da qual já nem me recordo.

É a brancura do teu ser que me inunda o pensamento e a alma. A alvura do teu descanso na janela daquela casinha de madeira roída para albergar o teu corpo. Aqueles saltos de alegria quando choviam pedaços de papel que revestiam o chão para evitar que as tuas patas se voltassem a ferir.

Vivias sozinha porque preenchias qualquer solidão. Eras mais personalidade em um kg de bicho do que muita gente anoréctica de atitude. Eras uma fome insaciável de mundo, de carinho na medida que desejavas ter e de cenoura.

Naquele final de dia não tinhas tocado em nada da comida que te tínhamos posto. As orelhas translúcidas e uma respiração ofegante foram o suficiente para pegarmos no carro e te levar fora de horas ao veterinário.

O coração estava nas mãos, na boca, nos pés, em todos os locais menos no sítio anatómico onde deveria estar, e tu aconchegada nos meus braços, a olhar para as luzes da ponte como se soubesses que em breve também tu te tornarias uma luz.

Saímos da veterinária com esperança, já tinhas sobrevivido a uma operação mais complicada, seria certamente algo simples, um susto, mas voltarias para casa. Nunca voltaste. Sabemos que fizeram o melhor por ti, que lutaram para te manterem nesta dimensão, mas a fragilidade inerente à tua essência transportou-te para longe de nós.

Sei que agora és uma luz, uma estrela, uma presença algures neste universo, uma vivência noutro tempo-espaço que ataca deliciada uma alface enquanto escrevo choroso estas palavras. Mas não consigo deixar de me julgar, de questionar se te dei o tempo que merecias, o afecto que desejavas, se fui o pai que me comprometi a ser quando te trouxe para a minha família.

Todo este tempo que estive afastado do mundo, do blog, dos amigos, até da família, a lutar por uma profissão, por um reconhecimento maior do que a minha pessoa, terá valido a pena? Desiludi-te de alguma forma quando estavas ali para mim?... e agora que não te vejo é que sinto o quanta falta sempre me fizeste...

É só um animal de estimação irão dizer alguns, aqueles que não percebem que mesmo que nos arranquem um dedo da mão vamos continuar a escrever, mas vai sempre haver a memória de um espaço que antes não estava vazio.

Onde quer que estejas só espero que me perdoes se não fui o suficiente. Podia colocar uma foto tua mas quero guardar para sempre a recordação da minha memória.

Até Sempre Làska!

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    redonda

    16.09.20

    não era para ser anónima
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