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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

26
Fev18

As minhas postas de pescada sobre o Festival da Canção


O Festival da Canção é algo que me acompanha desde há muitos anos. Apesar de com o sucesso do mesmo, ter-se multiplicado o número de pessoas que jura a pés juntos que sempre viu e delirou com o programa, no meu caso o Festival fez realmente parte da minha vida.

 

E não falo dos serões em miúdo a ver numa pequena televisão o desfilar das canções, para mim, o impacto deste concurso deu-se por volta dos meus 18 anos, quando comecei a namorar.

 

O meu primeiro namorado era fanático pela Eurovisão, e a maior parte dos amigos dele ainda mais fanáticos eram, viajando todos os anos para o país anfitrião do programa.

 

Cresce e desenvolvi a minha personalidade rodeado de cd's de músicos desconhecidos eliminados nas semi-finais de países distantes, de livros que falavam sobre quem tinha arrecado mais e menos pontos, e pasmem-se, de um Trivial Pursuit dedicado ao Festival, com perguntas só acessíveis a quem respirava Eurovisão.

 

Cheguei uma vez a ver o programa na casa de um dos comentadores do Festival do ano passado, rodeado de fervorosos adeptos que tinham o seu próprio sistema de atribuição de pontos. Nesse ano de 2006, vaticinei que os vencedores seriam os Lordi da Finlândia, e tudo o que recebi foram esgares de gozo e narizes torcidos. No fim mostrei que estava certo.

 

Com o fim da relação também houve uma separação entre mim e a Eurovisão, como se uma pequena mágoa se tivesse instalado entre nós, mas nunca deixei de a seguir pelo canto do olho, mas sem o entusiasmo do passado confesso.

Fico no entanto feliz de ver que, com a vitória portuguesa do ano passado a loucura eurovisiva voltou um pouco, e a música portuguesa recomeçou a ser valorizada. Espero apenas que não seja uma fase - devemos incentivar o que de bom temos quando estamos em baixo, não apenas quando gozamos os louros da vitória.

 

Mas relativamente às músicas, houve duas que me tocaram profundamente, cada uma da sua semi-final.

 

A primeira da Catarina Miranda - Para Sorrir Eu Não Preciso de Nada. Uma verdadeira ninfa da floresta é como Catarina se nos apresenta, deslumbrando com o seu timbre de voz e com a sua interpretação de uma música que é uma ode à língua portuguesa.

 

Nas redes sociais muito se fala que esta canção será um possível futuro hino lésbico, muito por causa da última frase "Ela é minha namorada".

Apesar de numa interpretação mais poética se poder identificar a tal namorada como uma personificação da solidão ou da auto-estima, já que para sorrir não precisa de nada, muitos garantem que o abandono da rapaziada de que a música fala e a dicotomia masculino/feminino presente nos sapatos e no vestido da intérprete remetem para uma namorada de carne e osso.

 

Qualquer que seja a verdadeira intenção da letra (e uma letra inteligente é aquela que cria burburinho entre as pessoas) o deslumbramento que Catarina Miranda trouxe ao cantar esta melodia é unânime.

 

A segunda de Isaura e Cláudia Pascoal - O Jardim. Para esta música vou roubar algumas das memórias do cara-metade, que me fizeram entender ainda mais a profundidade da canção tão bem interpretada pela Cláudia, que visivelmente estava emocionada pela mensagem que transmitia através da sua voz.

 

O cara-metade e a Isaura conheciam-se dos tempos da escola, e não foram poucas as vezes que ele visitou a casa da Dona Zaida, a avó para quem Isaura compôs esta música.

A Dona Zaida além dum sorriso permanente no rosto, tinha sempre para oferecer um batido de banana e uma sandes de fiambre e manteiga, e o seu jardim era algo de espectacularmente bonito.

É impossível quando temos estes detalhes mundanos de uma vivência passada não sermos tocados ainda mais pelo cerne da música, mas mesmo que os ignorasse, O Jardim por si só é uma peça de arte.

 

Independentemente de quem ganhar, apesar dos meus preferidos serem os anteriormente referidos, espero apenas que se comece a perceber que há música de qualidade criada dentro deste pequeno país, independentemente da língua em que esta seja cantada. O importante é deixarmos de pensar que a relva do vizinho é sempre mais verde que a nossa, porque às vezes isso só se deve pela utilização de adubos cancerígenos.

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