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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

A subtilleza de não deixar de viver

08.02.21, Triptofano!

Não sei se foi a pandemia, o abandonar o trabalho, a mudança de casa ou o mestrado - ou uma fusão de todos estes elementos qual salada de frutas quando uma pessoa queria mesmo era um arroz doce de cortar à faca - que trouxeram à superfície toda a ansiedade que tinha tentado recalcar durante os últimos anos.

Tentado talvez seja a palavra mais acertada, porque todo eu tenho sido uma pilha fotovoltaica de pensamentos no futuro em vez de navegações conscientes no presente. Cada dia que envelheço compreendo melhor o António Variações, mas como me falta o génio de poder passear em plena Baixa Lisboeta com um papagaio de madeira no ombro resta-me a pouco exuberante companhia das inquietudes fabricadas pela minha cabeça.

Por alguma razão sinto que esta ansiedade que vive em mim não é minha, mas sim uma construção alheia que me foi depositada sem eu dar conta. Que me foi cimentada através de pequenos gestos irrelevantes ao olhar desatento mas nefastos agora que me vejo com esta companhia de noites mal dormidas e de vontades incontroláveis de fechar os olhos para dormir.

Há dias que tenho a perfeita noção que não vivo - corro através do dia na esperança que ele acabe para que chegue ansiosamente outro que talvez possa aproveitar. Muitas vezes sem sucesso, os dias são como batimentos cardíacos sem espaço para arritmia, e tudo o que me apetecia era enfiar um digitálico debaixo da língua e perceber como era fugir ao encadeamento do sempre igual, por mais diferente que possa ser.

Nos últimos dias tenho chegado ao pico do meu nervosismo. Um aperto invisível na garganta enquanto o meu cérebro faz planos infindáveis de horários para daqui a 3 horas, 12 horas, 24 horas, 48 horas....planos que 99.9% das vezes não são cumpridos e levam a outros planos que desencadeiam outros planos, qual divisão de células mutagénicas desenfreadas por conquistar um qualquer sistema linfático.

Tenho tentado usar um truque para ultrapassar esta fase.

Lembrar-me de como quase deixei de viver - não metaforicamente mas literalmente - há uns anos atrás e como todas as preocupações com que sobrevivo hoje podem desaparecer mais rápido que uma mão cheia de comida chega à boca.

Em 2010 estive no Uganda. Uma viagem incrível, uma experiência que me marcou para sempre. Na última semana, antes do adeus, fui a um restaurante etíope no centro da cidade, bastante frequentado por turistas. Lembro-me de comer sentado no chão, usar as mãos como ferramentas e compreender que o básico potencia aquilo que por vezes não vemos como maravilhoso.

Quando voltei a Portugal, pouco tempo depois, vi notícias do Uganda, desse país que antes não sabia sequer que existia. Num ataque bombista o restaurante etíope onde tinha estado foi dizimado. Vários estrangeiros perderam a sua vida, num cenário de sangue, carne e medo.

Eu tinha estado sentado no chão daquele local pouco tempo antes, convicto de que tinha toda a vida pela frente, todos os planos, todas as inquietudes, todas as ansiedades.

O destino quis que não fosse eu a ficar em pedaços. E é nisso que me apoio sempre que o meu cérebro parece ansiar que eu me transforme numa sombra daquilo que realmente sou.

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