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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

A Síndrome do Cavalinho de Plástico

05.11.19, Triptofano!

Já falei aqui no blog que tenho uma enorme dificuldade em mandar o que quer que seja fora, o que me coloca na linha da frente para um dia figurar num programa de televisão do tipo Acumuladores, onde as pessoas para visitar a minha casa terão de trepar um Kilimanjaro de recipientes de plástico que um dia poderão vir a ser úteis para separar por IVA e mês de aquisição o Everest de facturas que tenho debaixo da cama.

Além de não conseguir deixar ir sofro dum mal ainda pior, a ansiedade e o pânico doentio de saber que podem deitar-me algo fora!

Basta o Cara-Metade dizer que vai fazer arrumações na zona da casa onde está o meu monte de tralha que fico logo a suar descontroladamente e com palpitações - pode ser um monte de porcaria que nunca mais vou usar e nem me lembro que existe, mas apenas a ideia de que posso chegar a casa e as coisas não estarem lá é suficientemente para me deixar descompensado da cabeça.

Durante anos e anos tentei perceber de onde podia vir este trauma, porque fazia-me sentido que tivesse acontecido algo quando eu era mais pequeno que tivesse espoletado este padrão comportamental, mas por mais que me tentasse lembrar não conseguia descobrir o que poderia ter sido!

Até este último fim-de-semana, onde após uma longa introspecção intercalada com alguns roncos, relembrei-me dum episódio da minha infância que nunca tinha dado importância, mas que talvez esteja na base de todo este meu comportamento recolector.

Não tenho em mente que tenha sido uma criança muito exigente nem sequer egoísta, muito provavelmente porque ter um irmão mais velho não me deu espaço para tal!

Tinha alguns brinquedos que estimava e era com eles que me divertia durante longas horas, mas não sinto que tivesse uma obsessão de os guardar a sete chaves com medo que alguém mos tirasse.

Todos os anos eu, o meu irmão e os meus pais íamos passar as férias de Verão ao Algarve, e numa dessas férias eu tinha um brinquedo favorito, um cavalo de corrida que funcionava apertando-se uma pequena bomba de ar!

Basicamente a pessoa insuflava ar no cavalo e ele dava uns saltinhos como se estivesse a correr - antigamente as crianças não eram tão exigentes como são hoje em dia com as tecnologias e realidades aumentadas e coisas que tais.

Brinquedo Cavalo de Plástico com Bomba de Ar

Ora uma bela noite, estava eu a brincar com o meu cavalito, quando os meus pais recebem em casa um casal, que imagino fossem colegas de profissão do meu pai (ou isso ou iam fazer swing e as gotas para a alergia que me tinham dado para eu cair para o lado ainda não tinham funcionado), que traziam uma criança ainda mais pequenita que eu.

Os adultos conversam, o meu irmão não faço ideia onde estava que não me lembro dele, e eu brinco entretido com o pirralho que diga-se de passagem era daquelas crianças irritantes que acham que tudo o que existe num raio de um quilómetro é delas!

E do que é que ele foi gostar?  Do meu cavalinho claro!

Depois de umas belas horas na brincadeira os meus pais despedem-se do casal e aí é que todo o drama aconteceu!

O fedelho queria levar o meu cavalinho e eu obviamente disse que não, então foi um berreiro desgraçado!

O miúdo queria o cavalo à força toda e que queria e porque queria e chorava e dava pontapés no ar e eu só me apetecia era dar-lhe duas lamparinas naquela fuça para ver se ele ganhava juízo!

Agora eis o que acho que me traumatizou!

O miúdo saiu de casa com os pais a gritar! Desceu as escadas do prédio a gritar! Foi para a rua para entrar no carro a gritar como se tivesse a ser esventrado por uma horda de centopeias assassinas. E nesse momento a minha mãe que estava a assistir à cena da varanda (e certamente a pensar que era uma pena não ter umas pipocas à mão) vem ter comigo e diz-me:

Vá lá, dá-me o cavalinho que eu mando-o lá para baixo para o menino deixar de chorar!

Ó caralho, mas que merda vem a ser esta? Então o cavalinho era meu e agora a minha mãe queria dá-lo a um puto qualquer birrento só para ele ficar calado? Eu que me portava divinamente e não dava trabalho nenhum era prejudicado em detrimento dum fedelho que nunca tinha visto na vida?

Hoje penso que talvez aquele casal fosse mesmo parceiro de swing dos meus pais e a minha mãe queria manter as boas relações, mas chiça, dar o meu cavalinho é que não!!!!

Vocês podem estar a ler isto e a pensar que eu não bato bem da mona, o que também não deixa de ser verdade, mas parte de mim sente que foi este episódio que me tornou tão agarrado às coisas, com tanto medo que elas desapareçam!

Não porque sou uma pessoa egoísta ou não tenha prazer em dar e partilhar, mas porque de alguma forma tenho um medo infantil de que algo que eu goste possa ser dado a outra pessoa somente porque sim!

Como é que acham que eu posso ultrapassar este bloqueio? Já vos aconteceu alguma coisa similar na vossa vida?

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