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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

A razão de não conseguir deitar coisas fora!

10.04.19, Triptofano!

Sei que andamos numa fase em que toda a gente está empenhada em ter o mínimo de coisas materiais de forma a supostamente ter também o mínimo de ruído que afecte a harmonia da sua vida.

 

Há quem passe por destralhamentos gigantes, revirando a casa de uma ponta à outra, deitando fora o que já não presta e doando aquilo que ainda possa ser de utilidade a terceiros.

 

Existe quem tenha optado pelo estilo minimalista nas suas casas, que basicamente assemelha-se a um cenário pós-assalto mas onde os ladrões foram simpáticos suficientes para deixarem o sofá e a televisão.

 

É verdade que passam a haver muito menos coisas para uma pessoa limpar o pó mas dá-me arrepios só de pensar que teria de começar a viver com um armário cápsula, só com trinta e pouca peças de roupa.

 

Como só em cuecas tenho mais de trinta e não prescindo de usar um par limpo todos os dias e também não estou para chegar a casa e lavar as ditas cujas à mão, seria daquelas pessoas que andaria pela rua só de roupa interior, sujeito a apanhar uma pneumonia e a provocar algum enfarte do miocárdio a uma velhinha com mais secura vaginal!

 

Depois há a loucura pela Marie Kondo.

 

Eu juro que não percebo esta onda de fanatismo por uma mulher que tem orgasmos a dobrar os soutiens.

 

Algo me diz que parte de admiração passa por ela ser uma asiática pequenina toda com ar de boneca. Se fosse uma matrafona da zona de Chelas duvido que a popularidade fosse a mesma.

 

De qualquer das formas ontem tentei voltar a ver um episódio da Marie.

 

Dez minutos depois já dormia babando-me compulsivamente.

 

Sejamos honestos, se eu fosse para fechar os olhos e fazer uma reza de agradecimento à minha casa seria no caso de ela se limpar a si própria, não por me dar abrigo ou protecção ou coisa que o valha, e como ela é e será sempre uma badalhoca não há cá reza para ninguém!

 

Eu sou aquela pessoa que tem muita dificuldade em deitar coisas fora!

 

Obviamente que não chego ao extremo de acumular latas de salsichas, nem recibos do supermercado de 2012, ou mesmo fazer uma colecção de bolas de cotão que apanho nos cantos da minha casa. (se a badalhoca se limpasse a ela própria já não me precisava de dobrar!)

 

Mas roupa, brinquedos, livros ou outros objectos menos descartáveis simplesmente não consigo mandar para o lixo ou sequer dar a quem possa precisar deles.

 

Eu tenho perfeita noção que não vou usar muitas das coisas que tenho. Sei que provavelmente vou passar anos sem olhar para elas.

 

Mas todas essas coisas são memórias, são pedaços de uma existência que se eu deitar fora vou deixar de ter acesso, porque apesar do nosso cérebro ser espantoso se ele não tiver algo que espolete a recordação ela provavelmente irá ficar perdida na nossa rede neuronal para sempre.

 

Neste fim-de-semana tive de ir à arrecadação da casa dos meus pais procurar um livro, e quando dei por ela estava a remexer nuns brinquedos de quando era pequeno, coisas velhas e sem valor monetário que há muito podiam ter ido para o lixo.

 

Mas pegar naqueles bocados de nada fez-me voltar à minha infância, inundou-me de um sentimento de alegria e paz e despreocupação que de outra forma não teria.

 

Cada objecto tem uma história muito própria, algumas são boas outras nem tanto, e faz-me recordar uma pessoa, uma situação, uma parte de mim mesmo, e não consigo evitar de tirar alguns minutos para pensar quem eu era na altura que aquele objecto fazia parte activa da minha vida, o que fiz de certo e o que fiz de errado, o que eu esperava do mundo e o que ele me deu até agora.

 

É basicamente um momento de reflexão e introspecção sempre que dou de caras com algo que já podia estar perfeitamente no lixo ou a ser utilizado por outra pessoa.

 

Lembro-me que da primeira vez que preparei um antibiótico na farmácia senti que aquele cheiro era estranhamente familiar.

 

Em conversa com a minha mãe ela disse-me que quando era muito pequeno andava sempre a tomar antibiótico, e o cheiro, para minha surpresa, ficou para sempre registado no meu cérebro.

 

É o mesmo com os objectos.

 

Eles ficam registados para sempre na minha matéria cinzenta. Eles são pedaços de quem eu fui. Encerram momentos que só eles podem abrir, que  de outra forma ficarão perdidos para sempre no turbilhão de sinapses que ocorre dentro do nosso crânio.

 

Não consigo deitar coisas fora porque sinto que estou a perder irremediavelmente parte do meu passado.

 

E apesar de termos de viver no presente focados no futuro, uma pessoa só pode ambicionar crescer se tiver noção do seu passado e aprender com ele, evitando obviamente viver sufocado em recordações.

 

Mais algum de vocês identifica-se com esta minha forma de pensar? Conseguem viver de uma forma mais simplista, por assim dizer, ou também são muito apegados aos vossos bens materiais?

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