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Triptofano

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20
Ago18

A marcha dos refugiados: uma experiência social


Olá leitores do Triptofano! Daqui o Cara Metade! 

 

Há algum tempo que não falávamos. É bom estar de volta!

 

Hoje quero partilhar convosco uma experiência diferente que tive, faz dias, na Hungria (o resultado daquilo a que muitos chamam de experiências sociais). Estive por lá durante três semanas, para participar num projeto Erasmus+ chamado “European Food Culture”, com mais 60 pessoas. O principal objetivo deste programa era, a pretexto das Cozinhas tradicionais dos 10 países envolvidos, falarmos sobre os nossos pontos de convergência, em termos de comida e cultura e escrevermos um livro de receitas de âmbito Europeu.

 

Mas, porque a isto se associa o tema do diálogo intercultural e da tolerância entre os povos, houve um especial foco na tão atual questão dos refugiados e nas migrações com destino à Europa.

 

Estando na Hungria, eurocética e cética sobre os migrantes e refugiados (país que tem dois muros a circundar as suas fronteiras), num projeto europeu e com um historial de ascensão do discurso populista e nacionalista dos seus sucessivos governos, decidiu a organização, onde me incluía, fazer uma simulação de uma marcha de refugiados.

 

Tirando proveito de estarmos a uns curtos passos da fronteira com a Croácia, o croqui estava montado: sem aviso prévio, haveria um figurante a fazer de agente de controlo fronteiriço que haveria de acordar todos os participantes às 7 da manhã e pedir-lhes que abandonassem todos os seus pertences e que levassem apenas a sua identificação. Dir-me-ão: mas isso não se compara à triste realidade que um refugiado em situação real enfrenta. Concordarei e direi que nenhum de nós imagina o que é estar nessa situação, se nunca esteve. Mas, direi também, que foi o suficiente para pôr a nu todos os preconceitos que temos e experimentarmos, em parte, algumas das emoções que todos sentem perante a injustiça e a incerteza. Já lá irei.

 

Desde logo, o figurante estava instruído para não falar uma única palavra de inglês. Teria formulários, escritos em húngaro e faria controlos pontuais discriminando uns participantes em detrimento de outros, baseado nas suas caraterísticas físicas e país de origem.

 

O medo das pessoas era real. Ninguém sabia ao que ia. Unicamente que se dirigia para a fronteira Húngaro-Croata para-sabe-Deus-o-quê. E foi então que começaram os estereótipos.

 

A cada controlo de identidades feito pelo Agente de controlo fronteiriço, a angústia crescia. “I now understand: if you look like a muslim, you get controlled”. As explicações multiplicavam-se. O(s) preconceito(s) também. Incluindo na delegação Portuguesa, em que houve um membro barrado, em que registei a seguinte frase “Eu disse logo ao Carlos que ele ia ficar para trás. Ele tem uma pele escura e parece um cigano. O Miguel é mais normal”. E tantas outras frases que fui registando ao longo do caminho em direção à fronteira.

 

Houve quem questionasse o suposto Agente. Quem lhe dissesse que era licenciado e intectualmente perspicaz. Houve até uma psicóloga do grupo que se ofereceu a ficar ao lado do Agente para o ajudar na missão desse dia para com este grupo. Houve quem lhe perguntasse quem é que ele pensava que era porque, assim se sabia, aquele território ainda era Europeu. E que tinha direitos.

 

Uns passos mais adiante e a organização aí tinha deixado alguns mantimentos. Depois de muita falta de ética do suposto Agente. Depois de muitas questões. Depois de muita relação divergente com a autoridade. Depois de muitos receios e desesperos e de pensamentos de grupo que tencionavam aniquilar a estratégia do Agente.

 

Houve então um momento em que a organização explicou a simulação. E todos tiveram a oportunidade de dizer o que sentiram. Alguns sentiram raiva por terem abandonado os seus pertences sem mais. Outros pela impotência que sentiram na abordagem à autoridade. Outros porque foram privados de prosseguir e teriam de, aí, abandonar o país.

 

Eu partilhei as frases que registei ao longo do caminho e houve um consenso: é a pura verdade. Estávamos na União Europeia. Tínhamos direitos. Mas, numa situação contingencial como aquela, nada disso era mais verdade. Nada era verdade, na verdade. Nenhum direito que reclamávamos era universal e garantido. As injustiças e a arbitrariedade no trato fizeram mossa. A incerteza dava-lhes um nó na garganta. E tudo isto foi uma simulação.

 

Conseguem entender agora a estupidez da falta de tolerância e compreensão na questão dos migrantes? Como todas as experiências sociais cai no ridículo da simulação.

 

Mas eles conseguiram. E mais curioso ainda.

 

Percebemos todos que a nossa Europa sempre teve migrações e tolerância como nomes do meio.

 

 

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