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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

A Casa e a Bóia

30.05.20, Triptofano!

Desde muito pequeno, até aos meus 16/17 anos, passei as minhas férias de Verão no Algarve, mais concretamente em Armação de Pêra. Os meus pais adoravam aquela zona e todos os Setembros rumávamos para sul durante 15 dias, já que era nessa altura que o preço dos apartamentos para alugar ficava mais barato.

Devo ter aprendido a nadar por volta dos meus 5 anitos, e antes disso os meus pais para evitarem que me afogasse, já que eu adorava estar dentro de água, colocavam-me uma daquelas bóias gigantescas à volta da cintura que era quase maior do que eu. E o quanto eu adorava a minha bóia, azul, cheia de peixes e cavalos marinhos e que me impedia de afogar mas também me limitava os movimentos.

Houve um dia, estava eu na água de mão dada com o meu pai, quando começamos a ouvir uma agitação anormal das pessoas que estavam mais à frente. 

A culpada era uma Casa, que era o nome que o meu pai dava às ondas gigantescas que apareciam sem razão aparente, mesmo o mar estando calmo, e para mim, uma criança minúscula presa a uma bóia gigantesca, aquela onde era mais do que uma casa, era um arranha-céus.

Lembro-me de ver todas as pessoas a começarem a mergulhar furando a onda, como se fossem golfinhos em fuga, e qual foi o meu pânico quando o meu pai me largou a mão, deu uns passos em frente e mergulhou, deixando-me à mercê da massa de água.

Recebi em cheio o impacto, e rebolei vários metros envolto pela rebentação e pela areia. A certa altura pensei que ia morrer porque não conseguia respirar entre tantas cambalhotas, até que a água me depositou no areal, a cuspir areia, bastante assarapantado mas com a bóia azul dos cavalos-marinhos intacta.

O meu pai veio a correr ter comigo, com um grande sorriso no rosto e ainda hoje recordo que fiquei magoado com ele. Como é que ele me podia ter largado a mão para se salvar e deixado à mercê de tamanho perigo?

Demorei alguns anos a ultrapassar a mágoa inconsciente que tinha relativamente àquele dia, até que a maturidade da passagem do tempo me fez perceber que há alturas em que faz sentido sacrificar-mo-nos pelos outros, e existem outras onde temos de pensar primeiro em nós mesmos, e não é por isso que amamos menos o outro.

Se o meu pai me tivesse continuado a agarrar a mão também ele tinha levado com a onda, também ele tinha sido arrastado, e ao contrário de mim ele não tinha nenhum amortecedor de plástico para absorver as pancadas.

Ele colocou-se em segurança para depois vir correr a ajudar-me - é como o que nos ensinam quando esperamos que o avião descole, primeiro colocar a nossa máscara de oxigénio e só depois a dos outros.

A onda gigantesca que me engoliu e cuspiu também me fez compreender algo que ainda hoje tento recordar diariamente: o medo pode aparecer em várias formas, muitas delas extremamente assustadoras, mas depois do impacto e de algumas possíveis mazelas descobrimos que somos muito mais fortes do que aquilo que pensávamos.

Ah, após do sucedido a minha mãe decidiu que era altura de eu ir aprender a nadar, algo que consegui quase morrendo afogado. Mas isso é tema para outro post.

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