Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Triptofano

O teu aminoácido essencial!

5 coisas que menos gosto de fazer como Farmacêutico

11.06.19, Triptofano!

Ser farmacêutico comunitário é um trabalho fantástico porque nos permite ajudar os outros, estamos constantemente a aprender coisas novas e ainda podemos dar umas valentes risadas com algumas situações caricatas que nos aparecem pela frente.

Mas desenganem-se aqueles que acham que ser farmacêutico é só coisas boas.

Por detrás de todas as caixinhas guardadas alegremente num saco de papel, de todos os aconselhamentos do melhor creme para o acne e de todas as dissertações com ar de alquimista sobre o melhor chá para a comichão das virilhas, existe uma panóplia de coisas pavorosas que colocam os nove círculos do Inferno de Dante arrumados a um canto.

Partilho convosco, porque sei que me vão entender e estar solidários com a minha dor, as 5 coisas que menos gosto de fazer enquanto farmacêutico comunitário.

As 5 coisas que menos gosto de fazer enquanto farmacêutico comunitário

1 - Perfuração de Orelhas

Longe vão os tempos em que para uma pessoa ser farmacêutico bastava-lhe saber de cor todas as interacções medicamentos e a cor dos comprimidos! (mesmo que eles venham selados num blíster de alumínio - é obrigação do farmacêutico não me venham cá com desculpas)

 Hoje em dia são necessárias verdadeiras capacidades de body piercer, para poder perfurar a orelha daquela inocente alma que achou que a farmácia seria um lugar mais seguro que a ourivesaria.

Minha gente que me está a ler, queria deixar aqui um aviso para ninguém nunca dizer que foi ao engano

EU SOU UM PERIGO COM A PISTOLA DOS BRINCOS

Eu tremo por todo o lado. Eu suo desalmadamente. Eu aponto mais ou menos para o sítio onde devo furar (convém acertar pelo menos na orelha) e depois fecho os olhos antes de apertar o gatilho.

A verdade é que apesar de eu achar que nunca me deveriam ter concedido porte de arma não houve nenhuma pessoa a queixar-se dos meus furos. Até houve um pai que uma vez filmou a minha perfuração para colocar no Facebook, estando eu mais assustado que a criança.

Mas também é verdade que desde a ocasião em que uma colega me massacrou por causa do furo que eu lhe fiz estar demasiado perto de um que ela já tinha, rara foi a vez que voltei a pegar na pistola.

Hoje deixo-me ficar pelos serviços de assessoria, que basicamente é ajudar a escolher o modelo que ficará melhor a cada pessoa, e depois chamar algum colega para fazer o trabalho sujo.

2 - Vender Óculos

Vender óculos de leitura é das piores tarefas que podem dar a um ser humano, porque a probabilidade de ele ficar insano depois de 30 minutos ronda os 95%.

Nunca ninguém sabe quantas dioptrias é que precisa nos seus óculos, por isso os primeiros vinte minutos num atendimento deste tipo são para descobrir quão pitosga é a pessoa.

Depois de lhe termos dado papéis com todos os tamanhos de letras possíveis e imaginários chega a pior parte, a escolha do modelo dos óculos.

Se fosse para usar no dia-a-dia, eu até compreendia que uma pessoa quisesse algo assim bonitinho, mas quando me dizem que é mesmo só para usar ao computador, será que é preciso tanta indecisão entre os castanhos que combinam com o cabelo e os vermelhos que dão um ar menos cansado?

Minha gente, o homem desnudo que têm como Wallpaper do vosso computador não é real e não vai tecer comentários sobre a vossa possível falta de bom gosto, por isso vão por mim e comprem uma coisa qualquer.

3 - Vender Sapatos Ortopédicos

Se vender óculos é mau vender sapatos é mil vezes pior.

Num momento vocês são o pilar dos cuidados básicos de saúde, no outro estão a gabar a qualidade das solas almofadadas com penas das avestruz e das tiras de cabedal tingidas a fúcsia que fizeram sucesso na última colecção Outono-Inverno.

Mas mais desesperante que a infinita conversa do Ai o 38 está tão grande mas o 37 fica-me apertado no joanete, devo estar a fazer retenção de líquidos só pode que eu antes usava o 35, é o facto da grande maioria das pessoas que compra sapatos ortopédicos serem pessoas de idade que não conseguem sequer calçar um sapato.

Por isso o bom do farmacêutico tem que tirar o sapato antigo, levar com um pivete gigantesco a chulé, quase vomitar quando descobre que a pessoa não tem meias e possui um verdadeiro musgo nas unhas, esforçar-se para enfiar o sapato novo no pé da pessoa para ela poder andar metro e meio só para no fim ouvir um Oh eu até gosto, mas queria mesmo era com um bocadinho de salto!

4 - Realizar o Teste da Cotinina

Quando descobri que a farmácia tinha um protocolo com uma companhia de seguros que manda os clientes fazer testes para perceber se eles estão saudáveis e assim diminuir-lhes o prémio do seguro automaticamente achei que era algo de fantástico.

Até fazer o primeiro teste de cotinina.

O teste de cotinina basicamente serve para perceber se certa pessoa fuma ou está em contacto com grandes quantidades de fumo.

O problema é que para fazer este teste é preciso uma amostra gigantesca de saliva, recolhida de uma esponja que a pessoa tem de esfregar insistentemente nas bochechas e em todos os outros recantos da boca.

Se há quem consiga deixar a esponja totalmente húmida num instante, existem aqueles que ficam eternidades a esfregar e esfregar e esfregar.....e eu nos entretantos não sei se hei-de ficar a olhar, se digo alguma piada, se improviso no momento uma canção de incentivo ou se simplesmente finjo que estou a ler uma notícia interessantíssima no telemóvel.

E quando finalmente recebo a esponja ligeiramente húmida rezo imediatamente a todos os santinhos que seja possível espremer saliva suficiente para fazer o raio do teste......o que obviamente não acontece mesmo usando toda a minha força braçal.

E lá volta a pessoa a esfregar, já com a boca completamente dorida de tanto passar com a esponja, enquanto eu penso que estou preso num filme semi-erótico de baixa categoria....

5 - Trocar o Papel das Senhas

Já sei que vocês devem estar a achar que eu fiquei sem ideias e coloquei este tópico aqui só para encher, mas a verdade é que qualquer pessoa que trabalhe num local onde haja senhas sabe que existem verdadeiros dramas relacionados com estas.

Nem falo das pessoas que tiram senhas prioritárias quando não o são, ou das criancinhas que adoram tirar 48 senhas obrigando-nos a perder 10 minutos e meio dedo só para as acertar.

O meu drama é quando o papel das senhas acaba e tenho que as trocar.

Sei imediatamente quando este fenómeno acontece porque há um utente que começa a carregar enfurecidamente no botão na esperança que o papel saia. E depois de um par de minutos à bulha com a máquina, quase a partindo, grita a plenos pulmões que já não há papel.

E se por acaso uma pessoa não vai logo a correr, se tem o azar de estar a meio de um atendimento, é o fim do mundo.

Porque sem senhas não dá. Porque sem senhas como é que se sabe a ordem. Porque sem senhas as pessoas perdem toda e qualquer capacidade de fazer uma fila e mais vale mandar uma bomba atómica porque a humanidade obviamente não vai conseguir sobreviver.

E quando a minha pessoa lá vai a correr, com o rolo de papel e a chave na mão, é todo um outro filme.

Porque as pessoas não dão espaço, não deixam respirar, estão ali em cima da máquina à minha volta, quase a fazer um escudo humano não venha uma criatura do Senhor dos Anéis tentar roubar-me o rolo de papel e aí é que nunca mais há senhas.

E quando finalmente abro a máquina logo duas ou três alminhas confirmam que realmente não há papel, que o papel acabou, e eu tou ali, a tentar enfiar a porcaria do papel que não quer entrar e depois não corta e a máquina está perra e já suo por todo o lado e só me apetece mandar tudo para fora da farmácia que vou ter uma coisinha má, até que finalmente há senhas de novo.

E eu estou subitamente cinco anos mais velho!

 

E vocês, quais são as coisas que gostam menos de fazer no vosso trabalho?

 

 

33 comentários

Comentar post

Pág. 1/3