Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Dona Custódia Bacalhau

11.01.22, Triptofano!

Dona Custódia Bacalhau. Dona Custódia para os momentos do dia-a-dia. Custódinha ou Custódita para aqueles já íntimos. Nunca apenas Custódia. Uma Dona muito dona de si. Em breve fará 3 anos. Desses 36 meses, 6 foram passados connosco. O resto é passado. Crescemos com o passado, mas não precisamos de viver nele eternamente.

Quando veio para nossa casa, a primeira viagem de carro foi angustiante, tal era o martírio interno em que ela se debatia, ansiando por se libertar daquele veículo motorizado. Hoje é a primeira a saltar para cima do banco de trás, refastelando-se na toalha puídamente escarlate, enquanto espera que o motor arranque para adormecer ao som das rodas a viajar no alcatrão. Adora andar de carro.

Nos primeiros tempos comia com muitas dificuldades, apesar de no canil nos terem dito que seria de boa boca. Não comia a ração, não pegava nos biscoitos nem sequer naqueles sticks para os dentes. Tivemos de comprar a ração com os grânulos mais pequenos e dar-lhe à mão, cortar os sticks em pedaços pequenos para ela os conseguir roer. Todos temos as nossas peculiaridades, esta seria a dela. Hoje come um stick inteiro e mais se houvesse, adora biscoitos (apesar de não termos voltado a comprar dos grandes mas algo me diz que os comeria num instante) e é capaz de literalmente enfardar os maiores grânulos de ração que possam imaginar quando vai à casa de algum amigo de quatro patas.

Quando chegou tínhamos muitos brinquedos para ela: ignorou todos menos um pato amarelo chamado Lucas. Ainda hoje existe, visto que tem bastante cuidado com os seus brinquedos. Só que agora já não se refugia apenas no Lucas, e passa longos minutos a mordiscar a ovelha Mé Mé Xoné ou o Sr. Tomate. Também passou a correr desenfreada pelo corredor para abocanhar um pinguim de borracha estupefacta que lhe atiramos. Antes quedava imóvel.

A Dona Custódia nunca fez xixi em casa. A não ser no primeiro dia que baptizou o sofá estrategicamente coberto com previdentes resguardos. E no segundo em que subiu para cima da mesa da sala num misto de medo e excitação por algo que nos passou despercebido. Talvez só pela simples razão de ter um lar.

É a cadela mais sociável que conheço. Uma vendida a festas e ternuras na rua. É inteligente, não precisou de muito tempo na escola de obediência para aprender a reconhecer os nossos comandos, que faz com especial empenho quando sabe que vai receber uma guloseima. Não gostava da minha mãe no início - percebemos que tinha um estranho trauma com chapéus e a primeira vez que a viu ela trazia um colocado - mas agora é uma alegria indescritível quando estacionamos à porta de casa dela. Não sei quem tem mais amor por quem. Se a Dona Custódia pela minha mãe, se a minha mãe pela Dona Custódia.

Gosta de ser escovada, tolera que lhe aparem o pêlo, abomina o secador e não aprecia muito quando lhe enfio o nariz no pescoço para inalar toda aquela aroma a coco quando regressa com banho tomado. Impossível de resistir a um ambientador em forma de cão tão bem cheiroso. Raramente ladra. Quando ladra é tão inesperado que rouba todas as atenções. Sabe-se impor quando necessário, apesar de preferir usar estrategicamente um colo como porto seguro. É mais sabida do que a acho, e ela sabe que mesmo que eu saiba vou-lhe continuar a achar graça.

Já fiz todas as coisas - ou quase todas - que prometi a mim mesmo que nunca faria quando tivesse um cão. Limpar-lhe as patas e o rabiosque quando voltamos da rua com um toalhete, apesar de agora não o fazer por suspeitar que lhe causava alergia. Comprar-lhe a cama mais confortável do mundo mas dormir todas as noites com metade do corpo de fora para sua alteza Dona Custódia ter o seu espaço bem a meio da nossa cama (o romance tornou-se bastante mais difícil de acontecer confesso). Comprar-lhe um impermeável para a chuva e uma camisolinha para o frio e raramente os usar porque ela não vai à bola com eles. Instruir todas as pessoas que convivem com ela a não lhe dar comida alguma que não lhe seja especificamente destinada e depois deliciar-me com o seu ar de divinal satisfação quando devora um pedaço de frango que surripiei do meu prato sem o Cara-Metade ver (como se ele não fizesse exactamente o mesmo).

É esta a Dona Custódia. Dona Custódia Bacalhau.

Dona Custódia Bacalhau

 

2 comentários

Comentar post