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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Viagem

31.03.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Viagem

Quando a pequena aldeia acordou sob o calor matutino dos raios de sol emergida no cantar bamboleante dos pássaros foram necessárias longas horas até se aperceber da ausência dele.

Fosse ele o homem que distribuía o aromático pão, ou o jovem que transportava em esforço dezenas de imaculadas garrafas de leite, ou mesmo o louco que todas as manhãs cantava no meio da praça, teria a aldeia dado conta da sua falta muito mais cedo.

Mas não, ele era o filho do alfarrabista, que ajudava o pai a catalogar pilhas de livros puídos que chegavam de paragens inóspitas. Alguns tinham palavras conhecidas nas capas de couro antigo, mas outros encontravam-se apenas recheados de arabescos incompreensíveis para qualquer ser humano. Ele era silencioso, reservado, com um ar sonhador diziam as mulheres mais velhas com instinto maternal, com um ar de parvo afirmavam os homens mastigando tabaco enquanto retorciam as mãos cheias de calos provocadas pelas enxadas e similares.

Após se ter procurado por ele em todos os cantos e recantos do povoamento, houve um sentimento de unanimidade na proclamação da fuga. Poderiam ter concluído que ele partira, mas não, foi decretado na justiça popular do boca-a-boca que ele tinha fugido: das responsabilidades, dos deveres, da vida simples, mas real, parca de conhecimentos, mas crente na glória de um divino.

Só o pai na sua tranquilidade devota sabia da verdade. Não que o filho lhe tivesse transmitido oralmente os seus propósitos, mas porque via todos os dias refletidos nos seus olhos a inquietação de quem sufoca dentro de si próprio, como um caranguejo-eremita que procura desenfreadamente por uma concha maior onde viver.  Sabia que ele não tinha fugido, mas sim que perdera o medo em abraçar a viagem para se encontrar.

Quedou mudas as pálpebras e vislumbrou a figura tímida, mas resiliente do primogénito, com a sua trouxa branca pintalgada de vermelho protegendo o muito do pouco que tinha: certamente um livro sobre destinos exóticos e ideias deliciosamente provocativas. Que vales e montanhas estaria ele agora a percorrer, que novos mundos estaria a criar apenas usando a palavra e a imaginação?

Uma lágrima gorda escorreu-lhe teimosa pelo rosto. A aldeia vibrou com o burburinho acerca da sua tristeza. Afinal a sua vida enquanto alfarrabista tinha ficado ainda mais difícil, sem alguém para ajudar a empilhar as quantidades absurdas de livros que continuavam a chegar transportados por cavalos esquálidos ou burros pachorrentos. No dia seguinte descobriu-se que também ele desaparecera.

Apenas uma pequena nota, escrita com uma mão trémula de emoção contida, oferecia uma réstia de justificação.

O meu filho ensinou-me que só devemos temer a segurança de criar raízes onde não somos verdadeiramente felizes.

***

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Lucimar - Francesinhas e Gargalhadas

30.03.22, Triptofano!

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O Lucimar é o meu protótipo de restaurante português. Duas portas estreitas seguidas, que dificultam a passagem para aqueles que como eu possuem um perímetro abdominal um pouco maior e escondem um par de traiçoeiros degraus; uma sala apinhada de mesas e pessoas entre as quais temos de nos espremer qual gincana evitando cair em cima de algo ou de alguém; um barulho de fundo constante de vozes, conversas, risos, talheres, pedidos a serem gritados para a cozinha e de uma televisão que apenas recebe atenção quando está a transmitir um jogo de futebol.

Voam para a mesa, pouco tempo depois de estarmos sentados, uns ovos com farinheira oferta da casa, entregues com um sorriso pela mascarada empregada. Apetecivelmente gulosos desaparecem num instante, sendo pedida nova dose para acalmar o estômago em fúria dos comensais. Como manda a tradição é pedido também pão e azeitonas, só faltando mesmo o queijo para completar a Santíssima Trindade. O pão vem embalado individualmente, como as regras agora o exigem, e as azeitonas marinadas em laranja conferindo-lhe um delicioso toque cítrico. Afinal há sempre espaço para um twist na tradição.

Lucimar - Francesinhas e Gargalhadas

Lucimar - Francesinhas e Gargalhadas

Quando os pratos principais chegam já circulam quantidades alegres de sangria e cerveja pela mesa. As conversas fluem sem pudor nem preocupações com ouvidos alheios. Naquela mesa do fundo, que um acaso permitiu que ficasse vaga, somos ao mesmo ninguém e toda a gente. Ao meu lado depositam uma maminha sem feijão; na minha diagonal um bife da casa cujo molho no momento do pedido mereceu um especial aviso de atenção, visto ser feito com natas, ketchup e imaginação da cozinha, mas que apesar da combinação improvável estava bastante agradável.

Para mim vem uma francesinha acompanhada de uma travessa de batata frita caseira para ensopar no molho. Sorrio ao sentir o couro cabeludo a ficar ligeiramente irritado; é sinal de que o molho está no equilíbrio certo, fugindo do desapontamento da doçura excessiva e do intragável do picante em demasia. A francesinha está bem recheada, mas não é uma adversária à altura para a minha já conhecida gula, sendo atacada sem pudor. As minhas papilas gustativas dão gritos de contentamento, só ficando ligeiramente reticentes pelo facto de o pão estar em certos pontos um pouco queimado. Nada que uma dose de batatas fritas encharcada de molho não resolva.

Lucimar - Francesinhas e Gargalhadas

Já passa da hora de fechar. As gargalhadas são contagiantes ao ritmo das histórias cada vez mais mirabolantes. Fala-se de estalos e de vaselina, da Nova Gente, da Cláudia Vieira e de diarreia. Pede-se sobremesa. O cheesecake de frutos vermelhos é consensual em termos de sabor em toda a mesa, apesar da apresentação ser diferente daquilo que esperava e eu colocar algumas dúvidas na capacidade crítica do grupo naquele momento. Dou mais uma colherada para comprovar que verdadeiramente sabe bem e quando dou por ela não ficou nem um vestígio do doce para contar a história.

Lucimar - Francesinhas e Gargalhadas

É altura dos cafés da praxe, sendo que a empregada que nos mostrou que para sorrir não é preciso mostrar os lábios, chega com uma garrafa de moscatel para brindarmos. Acompanha-nos num shot a nosso pedido e vejo-lhe pela primeira vez o rosto desnudo. É verdadeiramente simpática e naquele momento sinto que somos todos uma grande família, nós, ela e as restantes pessoas anónimas daquele restaurante.

Saio do Lucimar de coração e estômago cheio. Não há nada melhor do que esta alegria de viver tão fácil de encontrar num bom restaurante português.

Bendita Mudança de Hora

29.03.22, Triptofano!

Há quem possa não gostar, mas para mim esta última mudança de hora foi uma bênção dos céus.

É verdade que perdi uma hora de sono, porém fechar o computador do trabalho, coisa que nunca consigo fazer a horas decentes, e olhar pela janela e ainda ser de dia é simplesmente maravilhoso.

Poder ir com a Dona Custódia aproveitar a luminosidade num belo passeio na mata e os ponteiros do relógio aproximarem-se perigosamente das 19 horas é extraordinário. Enche-me a alma de alegria, de vitamina D e também de sustos ao descobrir que a Dona Custódia fica louca ao ver coelhos.

Sinto que desde que a hora mudou ando mais alegre e bem-disposto, e isso é o melhor ponto de partida para emanar energias positivas e atrair coisas boas para perto de mim!

E vocês, gostam da hora como está ou preferiam que ficasse de noite mais cedo?

Dona Custódia Bacalhau

 

Dona Custódia Bacalhau

 

Toda Molhadinha

28.03.22, Triptofano!

Esta tem sido a minha triste paisagem nos últimos dias, com algumas variantes no que toca às pernas e aos pés.

Toda Molhadinha

Eu sei que não me devia queixar, que há muito boa gente por aí com falta de homem e o Universo enfia-me logo uma mão cheia deles na minha varanda. Está bem que eles estão lá porque precisam de reparar a fachada do prédio e não porque descobriram que toda a sensualidade da minha pessoa passa os dias fechado no escritório a olhar para um computador, mas mesmo assim um homem é sempre um homem dirão vocês. Pois talvez sim mas ao mesmo tempo não direi eu.

Digamos que estes homens são ligeiramente mais vocais daquilo que eu aprecio. Não é que esteja a rezar por um espécime que passe todo o dia em silêncio a ler Foucault, mas ter alguém que grita a plenos pulmões que a gaja que está do outro lado da rua é uma ordinária não é bem aquilo que eu entendo por uma saudável interacção social.

Não obstante a parte menos positiva da comunicação, verdade seja dita que qualidades não faltam a estes detentores de um cromossoma Y. Um deles arranha bastante bem os êxitos do António Variações, dando-me banda sonora enquanto estou a ter formação sobre Big Data. Há outro que é perito em alimentação sustentável, porque está sempre a dizer que os papelões que estão no chão são piores que casca de banana, que uma pessoa escorrega e estatela-se lá em baixo. Existe o activista, que fez um discurso indignado de meia hora de como o patrão o impediu de beber cerveja na hora de almoço. E depois há o que adora a Dona Custódia, que apesar dos vidros não darem para ver quase nada de fora para dentro, conseguiu travar amizade com ela através de pancadinhas na janela.

Confesso que já me começava a habituar a estes homens e ao seu encanto, e parte de mim já estava mesmo à beira de apaixonar-se. Até que hoje, depois de darem os retoques finais, começam a fazer as limpezas dos vidros com panos e muito álcool, ao que um diz:

Isto é para deixar a janela toda molhadinha, como eu deixei a gaja ontem à noite.

Naquele momento, depois de ouvir o coro de risos de peito cheio, tive a certeza que se estes fossem os últimos homens do planeta eu iria-me tornar heterossexual.

Taskmaster | O programa que além de rir nos faz puxar pelo neurónio

27.03.22, Triptofano!

Sou a única pessoa que adora ver o Taskmaster? Acredito que não, porque este programa da RTP1, conduzido pelo Vasco Palmeirim e pelo Nuno Markl é simplesmente formidável!

Taskmaster

O formato é extremamente simples: 5 concorrentes, quatro dos quais são residentes com um quinto que vai mudando todas as semanas, competem nas provas mais surreais de sempre para ganhar pontos, sendo que o que tiver mais pontos no final do programa ganha o apetecível prémio final. Só dizer que na primeira semana esse prémio continha uma fralda com xixi, por isso podem ver que apetecível é um termo muito subjectivo.

Os desafios que são colocados pelo Taskmaster tem dois objectivos principais. Primeiro é o de fazer rir tudo e todos a bandeiras despregadas. Por exemplo, ver a técnica do Toy no segundo episódio para abrir uma melancia foi um misto de choque e de ataque de riso, com algum medo à mistura confesso. O segundo objectivo é o de fazer puxar pelo neurónio de uma pessoa, porque há sempre uma componente intelectual nestas provas, onde o raciocínio lógico e o engenho são fundamentais para se conseguir ter um melhor resultado e obter mais pontos. Como a situação de se ter que fazer uma bola de ténis de mesa subir por um tubo cheio de furos, que mostrou o quão imaginativas, e um pouco irrealistas, as pessoas conseguem ser.

Taskmaster é aquele programa fantástico para se ver em família enquanto se esquecem todas as preocupações, sendo que a única dúvida que nos assalta a mente é como raio vamos sacar informação extremamente precisa a uma pessoa que só nos responde em chinês!

 

Holocausto Brasileiro

26.03.22, Triptofano!

Chorei ao ler este livro. Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, é um dos livros mais pesados que li em toda a minha vida, mas talvez também um dos mais importantes. Não o recomendo a quem esteja a atravessar uma fase em que se encontre mais fragilizado, mas considero-o de leitura obrigatória em algum ponto da nossa existência. Li este livro na sua versão digital e foram 200 páginas que voaram em duas horas. A leitura é fácil, digerir o que lemos é que demora uma vida inteira.

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro conta a história de um genocídio, da aniquilação de 60 000 pessoas que já não eram mais pessoas. Eram números, nomes sem nexo, esqueletos andantes que tentavam proteger-se do frio, veículos para terapias de choques e mergulhos em piscinas cheias de fezes. Holocausto Brasileiro é a lembrança de que por mais que estejamos avançados cientifica e tecnologicamente, continuamos a ser ser humanos, com potencial para fazer o bem mas também para fazer o horrível e o abominável.

O livro retrata as barbáries que durante décadas ocorreram num dos maiores manicómios do Brasil. Para lá de sobrelotado, as pessoas sobreviviam muitas vezes comendo ratos e bebendo água do esgoto, enquanto eram escravizadas para dar lucro à instituição. E quando a sua força de trabalho terminava - as mortes chegavam a ser 16 por dia - os seus corpos ou ossadas eram vendidos. Não eram ser humanos, eram cifrões para a carteira de alguém.

Mas haveriam tantos loucos assim? Pensa-se que 80% dos indivíduos que viveram naquele inferno não tinham qualquer doença mental. Eram negros, gays, sem-abrigo, filhas que tinham perdido a virgindade antes do casamento, mulheres trocadas por uma amante. Era fácil institucionalizar alguém, tirar-lhe a liberdade e a dignidade, só porque era um estorvo ou porque conspurcava a sociedade.

Podemos pensar que em 2022 isto nunca voltaria a acontecer. Mas temos uma guerra na Europa que ameaça estender-se ao resto do mundo. Temos partidos políticos com ideias cada vez mais segregadoras e extremistas. E temos um índice de maldade a crescer alucinantemente nas pessoas.

Urge que nos mobilizemos. Que ingressemos em partidos políticos mesmo que não entendamos nada de política. Que estejamos onde as decisões são feitas, que façamos barulho, que não calemos a nossa voz, que não deixemos o nosso destino e o destino das próximas gerações nas mãos de sabe-se lá quem. Eu já o fiz, e foi das decisões que mais me encheu de orgulho.

Holocausto Brasileiro possui também um documentário online. Ainda não o vi mas dizem que é mais agressivo que o livro, mais aterrador, mais desolador. Quero vê-lo mesmo sabendo que vou vomitar as minhas entranhas. Chegámos a um ponto em que estarmos escondidos na nossa bolha translúcida já não é mais solução. Todos nos podem ver e facilmente alguém a rebenta com um pequeno alfinete.

 

Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade

25.03.22, Triptofano!

Existem as pessoas que querem ser ricas. Existem aquelas que lutam para ser extremamente bem-sucedidas. Eu gostava de ser uma pessoa interessante. Uma pessoa como Fran Lebowitz, que tem um magnetismo especial, independentemente de podermos gostar mais ou menos da sua personagem, de estarmos ou não de acordo com as suas opiniões muitas vezes acutilantes. Alguém que sabe da história e que tem as suas próprias histórias para contar. E é isso que torna Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade tão fascinante.

Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade

Ainda não vi a série toda, tenho saltado de episódio em episódio sem ordem definida, deixando-me cativar pelos pequenos resumos, mas simplesmente adorei o relato que Fran faz sobre a sua relação com os livros e como não se escusa a gritar com quem lhe fez uma má recomendação. Numa sociedade cada vez mais politicamente correcta diria que precisamos de gritar mais com quem nos engana e aponta maus livros, maus filmes ou maus restaurantes. Quem nos vende gato por lebre, que se deixa enfeitiçar pela moda do momento e nos desencaminha de descobertas orgânicas e com verdadeiro sentido.

Adorava ser uma pessoa interessante como Fran, só que não ter nem telemóvel nem computador parece-me um bocadinho excessivo, e onze mil livros enfiados num apartamento é demasiada coisa para limpar o pó, mas gostava mesmo de chegar ao fim da estrada, olhar para trás e poder dizer: és do catano!

Claro que se um dia for verdadeiramente uma pessoa interessante terei uma frase mais memorável para dizer mesmo que ninguém a ouça. Por agora trabalho para ser do catano!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Amarração

24.03.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano

 

Peixe morto, peixe torto, filete de pescada, garoupa,

Barbatana de bacalhau, douradinho mirrado, concha de sopa,

Salada de batata, ovas de polvo, rebento de agrião,

Alimentem-se do meu desespero espíritos da amarração.

Glória repetiu as palavras 5 vezes enquanto girava sobre si própria, fazendo os cristais dos ouvidos zumbirem loucamente e deixando-lhe um sabor a favas do almoço na boca. O médico tinha-lhe dito que deveria evitar movimentos repentinos por causa das tonturas,  mas aquela era uma situação excepcional que justificava uma crise de vómitos como a que tinha tido anos atrás numa excursão para Benidorm, de tal forma violenta que os passageiros tiveram que se apear em Villarrobledo e esperar três horas e meia por um novo autocarro que os levasse ao destino.

Limão, meloa, marmelada,

Se é panqueca de milho é enchilada,

Iogurte de banana, leite magro, pacote de Nestum,

Espírito ouçam as minhas preces que estou em jejum.

As instruções que vinham na revista esotérica mais popular do momento, a Amarrações Paleo e Paixões Veganas, eram no mínimo estranhas, mas Glória estava verdadeiramente desesperada, por isso borrifou furiosamente o ar com o perfume de castanha e erva-cidreira enquanto atirava por cima do ombro punhados de uma mistura de noz-moscada, bolota e ração seca para cão, que os autores diziam ser um ingrediente milagroso no que dizia respeito aos instintos mais animalescos.

Manteiga derretida, tomate maduro, bróculo assado,

Peixe-espada, caracoleta, solha, linguado,

Flor de maracujá, caixa grande de vitaminas do Centrum,

Espíritos façam a vossa magia fora do comum.

Uma onda de calor afogueou-lhe o rosto enquanto esfregava pó de ruibarbo no peito. De certeza que ia ficar com um eczema daqueles que só se resolvem com duas semanas de cortisona mas não se importava. Passou uma quantidade gigantesca de batom vermelho sangue nos lábios, cortando o restante em pequenos pedaços que colocou no topo de uma vela feita de cera de abelhas hipocondríacas do sul de Itália.

Pacote de batatas fritas de presunto, alheira de Mirandela,

Cotonete usada, papel higiénico, pão com mortadela,

Queijo de tremoço, pevide salgada, cerveja de pressão,

Agora é com vocês espíritos a decisão!

Glória acendeu a vela e colocou a corda em cima da chama, vendo as fibras a ser queimadas uma a uma, enquanto a cera vermelha viva do batom escorria pela cera branca celestial do círio em miniatura. Quando a corda finalmente rebentou deu um grito de alegria, o feitiço contra a amarração que alguém lhe tinha feito estava quase acabado.

Há mais de dois anos que estava estupidamente apaixonada pelo marido com quem se tinha casado apenas pelo dinheiro, e nem as bolinhas com que o padeiro a seduzia diariamente na esperança que ela fosse procurar o cacete de trigo que tinha nas calças eram suficientes para se libertar do amor pelo esposo que a corroía. Queria ser livre com o dinheiro dele, explorar outros destinos e outros homens, mas algo a prendia ao barrigudo quarentão que passava oito horas por dia a ser contabilista.

Despiu-se totalmente besuntando os cabelos com uma farinha de mandioca benzida online que cheirava estranhamente a atum e a plástico velho. Era lua cheia e teria que recitar a última prece 120 vezes enquanto andava sem parar banhada pela transformadora luz do luar.

Casca de caranguejo, maionese de alho, promoção de Persil,

Mil-folhas, calda de açúcar, abre o chapéu que chove em abril,

Perna de pau, garfo de madeira, cuidado com a enxurrada,

É agora, abram alas, estou desamarrada!

Glória acelerou o passo na tentativa de ignorar o chão gelado enquanto evitava a claridade pálida dos candeeiros de rua. Se alguém a visse a vaguear nua pelas ruas da Amadora enquanto recitava aqueles versos ainda poderiam achar que estava completamente louca.

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Three Songs for Benazir

23.03.22, Triptofano!

A Netflix lançou a Coleção Originais Netflix – Oscar® 2022 com 9 títulos para explorarmos e devorarmos. Fiquei especialmente interessado nos filmes documentais, que normalmente tem a capacidade de nos dar um murro no estômago, e foi isso que aconteceu com Three Songs for Benazir, durante uns curtos mas intermináveis 22 minutos.

Three Songs for Benazir

Shaista é o protagonista desta história que se desenrola no Afeganistão, mais concretamente num campo de deslocados em Cabul. Shaista não é mais do que uma criança - compreende-se pelo olhar, pelo sorriso, pela inocências dos gestos - mas já se encontra casado e à espera de um filho. Apesar de alguns dizerem que o sonho deste jovem é integrar o Exército Nacional Afegão, para mim o verdadeiro desejo de Shaista é voltar a estudar e poder fugir das intrincadas redes de papoilas e ópio, sendo o exército apenas um meio para atingir o fim.

Three Songs for Benazir tem a capacidade de nos deixar desconfortáveis enquanto acompanhamos a história de alguém a quem lhe foi roubada a inocência da juventude e a liberdade que todo o ser humano almeja, num percurso vertiginoso para a desgraça. É como assistir ao canto de um pássaro que quando tenta voar pela primeira vez descobre que as suas asas não funcionam e acaba no chão à mercê da sorte do destino.

Escrever Atas não é um trabalho de Mulheres

22.03.22, Triptofano!

Tudo já com pedras na mão depois de terem lido este título. Calma que não tive um resfriado machista que me congelou o cérebro, na verdade irão perceber que a minha afirmação de que escrever atas não é um trabalho de mulheres é até um manifesto feminista.

Se alguém alguma vez já escreveu uma ata, sem utilização daqueles softwares todos xpto da batata que prometem até um arrozinho de grelos no final, sabe que é um trabalho do mais burocraticamente aborrecido e exigente possível. Isto claro se uma pessoa quiser tentar transpor de uma maneira minimamente fiel o que aconteceu em reunião, e não escrever apenas que todos estavam com ar de enterro e que preferiam estar a beber uma cerveja e a comer tremoços enquanto assistiam ao Benfica.

Eu nunca tinha escrito uma ata e, para mal dos meus pecados, fui caçado para o fazer numa das reuniões que tenho ido em virtude da actividade partidária em que me envolvi recentemente. Sim, o vosso aminoácido preferido está metido na política, mas em vez de conseguir um tacho, ou uma panela, ou nem que fosse um daqueles púcaros em inox super giros, apenas obteve mais trabalho, ou, como se diz na gíria, mais sarna para se coçar. E escrever atas pelo menos para mim não é uma actividade nada fácil, porque além de termos de digitar freneticamente à velocidade da luz o que as pessoas vão dizendo, não podemos distrair-nos nem um momento, porque caso o façamos é meio caminho para ficarmos perdidos a navegar na maionese a tentar deslindar do que raio é que aquele indivíduo está a falar.

Escrever Atas não é um trabalho de Mulheres

Mas porque é que então escrever atas não é um trabalho de Mulheres? Não é por falta de competência, muito pelo contrário, diria que até é por excesso de capacidade o que as leva a normalmente ficarem agarradas a essa tarefa mais burocrática.

Existe uma gritante falta de mulheres na política, quando na verdade um partido deveria reflectir a sociedade, o que é estranho visto até haver ligeiramente mais mulheres do que homens em Portugal. É então necessário, além de desenvolver mecanismos que permitam atrair mais mulheres para a actividade partidária, implementar metodologias que garantam que a sua voz é ouvida. Porque de nada vale um partido regozijar-se por ter muitos membros que são mulheres mas depois estas estarem lá apenas a fazer de decoração, só para se passar uma falsa imagem de progressismo e de paridade.

Uma das formas de garantir-se a representatividade activa das mulheres é nas reuniões impedir que sejam elas a escrever a ata. Porque ao colocarmos uma mulher a fazer essa tarefa, ela vai ter de estar mais preocupada com o que os outros estão a dizer em vez de com aquilo que ela tem para dizer. Libertando-a deste trabalho de bastidores criamos a possibilidade de uma verdadeira representatividade e passamos uma mensagem de que as mulheres são incentivadas a intervir e que há uma preocupação em criar um espaço que não seja homogéneo em termos de ideias, porque é com a heterogeneidade que verdadeiramente crescemos.

Existem outras técnicas que se podem implementar para incentivar a maior participação das mulheres, mas tudo passa por também elas compreenderem que todos podemos fazer política. Com mais ou menos tempo, mais ou menos experiência, mais ou menos à vontade, todos podemos fazer a diferença nas políticas do nosso país caso queiramos. A política é feita pela sociedade e a sociedade é constituída por todos nós!

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