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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O meu mapa da literatura!

28.02.22, Triptofano!

Apesar de ter vindo de fim-de-semana prolongado para Estoi, no sábado não pude deixar de assistir ao Clube do Livro Feminista das Heróides, pelo qual me apaixonei perdidamente devido a toda a dinâmica e às fantásticas partilhas e discussões que se criam durante aquelas duas horas que passam a correr.

Uma das coisas que foi abordada na sessão foi a diversidade da leitura, sendo que talvez muitos de nós pensemos que temos um leque muito abrangente de livros de cabeceira por uns serem romances, outros policiais e alguns de ficção científica. Eu pelo menos pensava assim!

Só que mais importante que o estilo literário é perceber que tipo de autor estamos a ler. Estaremos a ler principalmente autores europeus e estadunidenses? Quem escreve os nossos livros são homens ou mulheres? De que etnia são? Que características possuem?

Obviamente que um livro é um livro, e um bom livro é um bom livro independentemente de quem o escreve, e um mau livro não se vai transformar miraculosamente em algo bom apenas por ter sido criado por uma pessoa com características X, Y ou Z. O que aqui está em questão é a heterogeneidade de visões do mundo, transcritas por palavras não por quem assiste de fora mas por quem vive por dentro determinadas realidades. E é essa pluralidade que nos permitirá crescer como indivíduos em vez de nos isolarmos numa ilha deserta inóspita de pensamentos e carregada de venenosas certezas.

Procurei online uma espécie de mapa do mundo para livros, mas não encontrei nenhum (se alguém conhecer por favor deixe nos comentários), por isso decidi adaptar um daqueles mapas interactivos onde podemos apontar os países que já visitámos, só que neste caso usei as nacionalidades dos autores. Mais concretamente das autoras, porque para este mapa optei por sinalizar os livros que li desde o início deste ano que tenham sido escritos por mulheres, sendo que ao longo do tempo o irei actualizando

 

  • Estados Unidos da América | Carson McCullers | O Coração é um Caçador Solitário
  • Reino Unido | Virginia Woolf | Um Quarto Só Seu

The Mind | Um Jogo de Tabuleiro Mentalista

27.02.22, Triptofano!

Sempre que venho ao turismo rural da Quinta do Mocho há um novo jogo de tabuleiro pelo qual me apaixono. Desta vez foi o The Mind, um jogo de tabuleiro para verdadeiros mentalistas, em que a intuição aliada a uma estratégia invisível são as ferramentas necessárias para se conseguir avançar no jogo, já que não é permitido falar nem fazer sinais, apenas sincronizar as mentes dos diversos jogadores.

The Mind | Um jogo de tabuleiro mentalista

Para 2 a 4 pessoas (apesar de já ter jogado com 6), The Mind permite jogos rápidos de 20 a 30 minutos, com muita emoção, olhares de dúvida e gritos desesperados quando alguém em vez de estar focado nos nossos pensamentos está a deambular pelo jantar do dia passado.

Todos os jogadores fazem parte da mesma equipa, sendo que o objectivo é ir ultrapassando níveis, que vão ficando cada vez mais complexos. No primeiro nível cada jogador recebe uma carta aleatória que pode ir de 1 a 100. O que é pretendido é que as cartas sejam lançadas na mesa por ordem, sem que se fale, sem que se faça gestos, apenas com a intuição.

Por exemplo, se num jogo de 4 pessoas uma recebe um 12, outra um 57, a terceira um 26 e a última um 95, o nível é ultrapassado com sucesso se as cartas ficarem na mesa pela ordem 12, 26, 57, 95. Caso haja algum engano, por exemplo o 57 ser lançado antes do 26, uma vida é perdida, representada pela carta do coelhinho de aspecto sobrenatural.

Quando se passa um nível, a carta do mesmo indica se houve alguma recompensa ganha, que pode ser ou uma vida extra ou uma carta de estrela ninja. Esta estrela ninja permite que a qualquer altura todos os jogadores em simultâneo descartem a carta que tenham em mão com menor valor.

O jogo fica mais exigente quantos mais níveis se ultrapassam, já que o número do nível corresponde ao número de cartas com que se começa. Nível 2, duas cartas para cada participantes, nível 3, três cartas, e por aí adiante até ao nível 12. Agora imaginem quando começam a estar em jogo valores muito seguidos, por um exemplo alguém com um 32, outro com um 33, e ainda um 34. É nestes momentos que as conexões neuronais precisam de estar alinhadas com a maior precisão possível, qual relógio suíço.

The Mind é daqueles jogos de tabuleiro que só percebemos o quão viciantes são quando os começamos a jogar e é também aí que compreendemos que se aparecesse um vírus qualquer que apenas nos permitisse comunicar com o poder da mente estávamos completamente tramados!

Adivinha Culinária!

26.02.22, Triptofano!

Este fim-de-semana vim a Estoi celebrar o aniversário de um grande amigo, e algo que não podia faltar era comida que una as pessoas à volta da mesa e reconforte a alma.

Adoro quando sou surpreendido com iguarias que nunca tinha provado, sendo que desta vez não foi excepção. 

Conseguem adivinhar que alimento é este?

Uma iguaria desconhecida

 

O reencontro

25.02.22, Triptofano!

A cauda agitada a uma velocidade quase que juraria superior à do som.

Os saltos de incontrolável alegria em todas as direcções, qual campeã olímpica de trampolim.

Os incontáveis beijos que me deixam todo lambuzado.

A alegria no olhar. A alegria do reencontro. O amor mais puro em apenas um olhar.

Às vezes devido às vicissitudes laborais minhas e do Cara-Metade a Dona Custódia fica com a minha mãe. Prefiro que assim seja do que a deixar sozinha em casa. Talvez esteja a agir erroneamente na sua educação de cadela independente mas a minha mãe e ela são tão felizes juntas que não me importo.

Na verdade a Dona Custódia é feliz com toda a gente e tem a extraordinária capacidade de trazer alegria a quem quer que se cruze com ela.

As nossas ausências nunca são muito longas, mas o momento do reencontro é tão celebrado que parece terem passado anos. E são esses momentos que eternizo no meu coração e pelos quais vale a pena viver.

Dona Custódia Bacalhau

 

Desafio de Escrito do Triptofano | O Repasto

24.02.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | O Repasto

O olho direito de Igor abriu-se para a claridade do salão. Foi necessário um prolongado minuto para que o esquerdo acompanhasse o processo de receber estímulos visuais, algo que lhe acontecia desde criança. Ao acordar o olho direito abria-se energético, com ânsias de devorar o mundo em todas as suas refracções de luz, enquanto que o esquerdo aparentava preferir a escuridão, entreabrindo-se com a lentidão de uma flor tímida à chegada da Primavera, não raras vezes acompanhado de espessas remelas amarelas que se lhe colavam às pestanas.

Algo tinha acordado Igor do seu sono. Podiam ter sido os fogos de luz trémulos das velas espalhados pelo espaço, podia ter sido o frio do chão onde o seu corpo se encontrava confusamente estendido ou talvez o causador do despertar fosse a irritante sonoridade de uma qualquer música clássica que se desprendia das paredes. Para ele a música clássica era toda igual, uma pasmaceira, uma morte angustiante da alma, um depressivo para a aceleração entusiástica da vida. Ele gostava de frequentar as discotecas mais obscuras, com as bebidas mais opacas nos copos ainda com marcas de anteriores lábios e com a música mais alta e vibrante que lhe fizesse o corpo entrar num transe de dança. Uma vez tinha ido jantar a casa de um amigo de um amigo, num encontro às cegas, onde o tema de conversa foi a riqueza imagética de uma qualquer sinfonia de Bach. Conversa não, monólogo, porque Igor manteve-se todo o tempo em silêncio, esforçando-se por ignorar o vernáculo que saía da boca daquele homem franzino de trinta e poucos anos. Comeu o jantar e comeu o homem, mas a música clássica era simplesmente um pedaço de pão demasiado duro que ele não fazia tenções de mastigar.

Não se lembrava como tinha chegado ali, a última memória era a de ter colocado debaixo da língua um comprimido em forma de estrela que um desconhecido suado lhe tinha entregue em plena pista de dança. Estaria a alucinar? Nada daquilo seria real? O salão era enorme, e além das velas espalhadas por todo o espaço apenas existia uma lareira, estranhamente posicionada na parede vários metros acima do chão, e uma colossal mesa no centro do espaço coberta por uma toalha branca.

Dela vinha um cheiro delicioso a comida, e o estômago rosnou-lhe agressivamente, ordenando que fosse em busca de mantimentos para lhe apaziguar a ira de ácido clorídrico. Quando se aproximou mais da mesa os seus olhos abarcaram um verdadeiro repasto, parcialmente devorado por alguém ou alguma coisa que aparentemente já não se encontrava ali. Nervoso Igor puxou a toalha e espreitou para debaixo do móvel de madeira, para constatar com um risinho de alívio que nenhuma entidade ali se escondia. O mais importante agora era matar a cada vez mais transcendente fome que o consumia, depois poderia preocupar-se em como sair daquele lugar e perceber como lá tinha ido ter.

As mãos precipitaram-se para uma fatia de queijo que levou freneticamente à boca, trincando com uma antecipação de prazer. O prazer saiu-lhe frustrado porque ao trincar o lacticínio percebeu desagradavelmente que ele era feito de plástico. Incrédulo alcançou o frango, o presunto, o pedaço de bolo, a melancia, só para constatar que todos eles eram materiais orgânicos poliméricos sintéticos de constituição macromolecular. Tudo o que estava naquela mesa não passava de um engodo alimentar, apesar do cheiro delicioso que desprendia.

A única coisa que não tinha sido plastificada era uma sopa de consistência meio viscosa com uma superfície espessa a lembrar a nata do leite que tantas náuseas lhe causava em criança. Mas naquele momento já não era uma criança e estava desesperado por comida. Na ausência de encontrar uma colher usou a mão como concha, e engoliu uma quantidade generosa do líquido. Tinha pequenos grumos e deixava uma sensação adstringente na língua, mas tirando isso tinha um sabor tolerável.

No momento em que enfiara mais uma mão cheia de líquido na cavidade bucal a irritante música clássica cessou e a lareira desapareceu dando lugar a uma mensagem em letras garrafais. Igor sentiu-se completamente estupidificado quando compreendeu que estava perante um daqueles televisores com uma imagem extremamente realista e olhou com curiosidade para a mensagem.

UMA MÃO LAVA A OUTRA...

Havia qualquer coisa com uma consistência gelatinosa na sopa que tinha mostrado demasiada resistência ao encontro com os seus dentes. Cuspiu para a mão para ver o que era no exacto momento em que a mensagem do televisor se transformava.

...E AS DUAS LAVAM O ROSTO.

Igor não conseguiu controlar um jacto de vómito azedo quando olhou para a palma da mão e viu um pequeno olho trincado a fitá-lo de volta.

***

Descubram também os textos da Ana D., da Marta - O meu canto, da Ana de Deus, do Bruno, da Maria Araújo e da Cristina Aveiro. Querem participar? Vejam aqui como!

Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

23.02.22, Triptofano!

Se um dia lançasse uma colecção de t-shirts a primeira teria estampado Nem mais um faroleiro para as Berlengas!, junto a um robusto farol em relevo. Provavelmente a segunda viria com Abaixo os telhados, a chuva é do povo! e um guarda-chuva esburacado. Para as seguintes teria de rever em busca de "inspiração" os episódios de Até Que a Vida Nos Separe, a minha mais recente paixão que encontrei via Netflix.

Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

Três gerações de uma família que vivem juntas numa quinta idílica lidam com as exigências da sua empresa de planeamento de casamentos e com as suas crises pessoais.

Quando comecei a ver a série, completamente sem saber ao que ia e confiante no algoritmo da Netflix em já saber os meus gostos, a primeira sensação foi de surpresa por ter chegado aos meus ouvidos a sonoridade incomparável do português de Portugal. Estou tão habituado a consumir fora fronteiras que por momentos achei que a Dona Custódia tinha carregado no comando da televisão (ela é um prodígio com os comandos conseguindo acender televisões e aumentar volumes só de se sentar em cima deles) e estava a ver um dos canais nacionais.

Não precisei de muito tempo para sentir que aquela inesperada série me fazia lembrar algo. Podia ser por causa da cor, dos ângulos da filmagem ou mesmo dos momentos extravagantes completamente alienados da realidade. Foi quando descobri que a série tinha sido produzida pela Coyote Vadio que percebi o porquê, visto também terem sido eles a produzir a surreal Pôr do Sol, exibida pela RTP e que eu tanto adorei. Agora confesso que saber que Até Que a Vida Nos Separe já tinha sido transmitida na mesma RPT o ano passado e eu só dar conta da série por causa de uma plataforma de streaming deu-me um valente eczema de alma. Não pude deixar de pensar do tanto a que estamos alheados e do outro tanto que nos vem parar às mãos não pelo nosso livre arbítrio mas devido a uma qualquer inteligência artificial.

Mas divagações filosóficas à parte, Até Que a Vida Nos Separe é muito mais do que promete nos primeiros episódios, ou seja, não é apenas uma série leve e engraçada para ir vendo enquanto se olha para o telemóvel, mas sim uma sinfonia de sentimentos que vai crescendo galopante ao longo da linha temporal, tendo-me levado a ficar em certo momento com um aperto no peito e partículas aquosas a bailarem-me nos olhos.

Sobretudo estamos perante uma série que fala de amor, da forma como o procuramos ou tentamos fugir dele, de como nos envolvemos e destruímos por um sentimento fruto de um encadeamento de reacções químicas. De como o amor pode ser farol e bóia de salvamento, mas ao mesmo tempo uma dose dupla de embriaguez à procura do esquecimento ou um salto no vazio da loucura de não se ser lembrado. Curioso como algo tão abstracto tem e dá origem a coisas tão concretas, tão palpáveis, tão assustadoramente reais.

Todos nós procuramos o amor, mesmo quando achamos o contrário. Na voracidade de um corpo, no calor de uma cama, na tranquilidade de uma noite sem horas ou no reflexo de um espelho embaciado. E por isso é que Até Que a Vida Nos Separe é tão mais do que a simples primeira impressão que passa. É um tributo à força motriz das nossas vidas. E por causa disso merecia estar em primeiro lugar no top de visualizações da plataforma. Porque o amor também se cria em português.

X-Tudo no Ambigrama

22.02.22, Triptofano!

Lá está ele com as palavras complicadas a fingir que é erudito, pensam vocês enquanto se arrependem automaticamente de terem vindo visitar aqui o meu blog. Calma, a verdade é que a minha pessoa limita-se a replicar o que recebe via WhatsApp daqueles contactos com quem nunca fala mas também não tem coragem de bloquear, e aparentemente o maravilhoso dia de 22.02.2022 é um ambigrama, ou seja lê-se da mesma forma esteja de pernas para o ar ou não.

Se neste momento estão quase a fazer uma cambalhota a tentar perceber como é que raio 22022022 se lê da mesma forma de cabeça para o ar, esclareço-vos que o truque só funciona se os números forem desenhados perfeitinhos da forma como aparecem naqueles rádios despertadores de há 20 anos atrás, que nos acordavam com o Baby One More Time da Britney estampando-nos um sorriso no rosto mesmo que fossem 7 da manhã.

Para celebrar o ambigrama eu e o Cara-Metade decidimos celebrar da melhor forma que sabemos: comendo! E como na Bolt Food encontrámos uma maravilhoso promoção de pague 1 leve 2 no X-Tudo, nem pensámos duas vezes.

Confesso que nunca tinha ouvido falar no X-Tudo, nem no X-Nada, nem no X-X-Estou-aflito, mas como as fotos tinham bom aspecto, resolvi fazer a encomenda desta hamburgueria em Queluz, que aparentemente também possui  uma gémea na zona de Lisboa. E foi aí que eu sabia que o universo estava a mandar-me um sinal, mas um daqueles sinais gigantescos do trânsito, porque a hora de entrega estimada era dali a 45 minutos, às 22.22. Sim, eu também fiquei de queixo caído, tanto pela coincidência como a pensar como é que ia aguentar três quartos de hora sem enfiar nada no bandulho.

Entregaram-me o pedido meia hora mais cedo. Sim, leram bem, mais cedo. Se fosse hora e meia atrasado eu não me admirava, mais meia hora mais cedo é porque certamente estávamos perante um alinhamento planetário onde tudo era possível, até eu ganhar os Ídolos com esta minha voz de cana rachada.

X-Tudo | Queluz

A comida tinha um ar divinal, por isso foi com muita dificuldade que eu consegui tirar uma fotinha da mesma, já que o Cara-Metade estava a salivar de tal forma descontroladamente que eu temi pela minha vida, não por ele me poder atacar, mas por causa da vizinha de baixo, que se lhe aparece uma infiltração vinda do meu apartamento viro cadáver.

X-Tudo | Queluz

A primeira coisa em que os meus dentes se ferraram foi nos salgadinhos, uma combinação de seis miniaturas que vinham com outras seis gratuitas. O terceiro lugar, muito honroso, ficou para o croquete de carne, o segundo para a bolinha de queijo e a medalha da ouro foi arrebatada pela coxinha. Honestamente acho que se nos próximos tempos fizer algum tipo de comemoração vou encomendar salgadinhos ao X-Tudo porque estavam mesmo muito bons.

X-Tudo | Queluz

Refeição que se digne de chamar de refeição tem de ser acompanhada com batatas fritas. Se foram pagas à parte? Foram! Se eram daquelas pré-fritas congeladas? Quase de certeza absoluta! Se estavam maravilhosas e o recipiente foi lambido no fim? Vocês já sabem a resposta por isso nem vale a pena perguntarem! Como bónus vinham acompanhadas de uma maionese de ervas verdes que era X-Ncrível! (X-Tudo caso queiram adoptar este maravilhoso slogan para a vossa maionese exijo um carregamento vitalício da mesma ok?)

X-Tudo | Queluz

Apesar de tudo estar a ser cinco estrelas havia a possibilidade do hambúrguer ser intragável. No entanto quando olhei para aquele X Costela, com costela bovina desfiada, bacon, queijo, alface, tomate, maionese e barbecue numa caminha de pão brioche, sabia que nada poderia correr mal. E tinha razão, existe uma proporcionalidade directa entre a aparência deste hambúrguer e o seu sabor, por isso esperem uma X-Festa na vossa boca quando o trincarem. Além disso também estava na promoção do 2 por 1, por isso fiquei muito X-Satisfeito além de X-eio. E sim é neste momento que vocês começam a ter vergonha alheia e eu me despeço com um X-.

O Nosso Prego

21.02.22, Triptofano!

Santos da Casa não fazem Milagres! Que é o mesmo que dizer que a minha pessoa lambareira consegue ir até cascos de rolha para comer uma francesinha ou uns dumplings mas depois não conhece os maravilhosos restaurantes que existem ao pé de sua casa. É aquela típica história que a galinha da vizinha é sempre mais gorda que a minha. Talvez porque a pobre da galinha tenha um problema de tiróide mas pronto vocês percebem onde eu quero chegar.

Para tentar contrariar essa tendência de apenas conhecer o que está longe decidi ir almoçar com o Cara-Metade a um restaurante que está a escassos metros de nossa casa, O Nosso Prego, que aparentemente possui vários irmãos espalhados por esta Lisboa fora. Desta vez a Dona Custódia não veio connosco, tendo ficado em casa a ser monitorizada pelo nosso super sistema de vigilância, para perceber se ela ficava calminha a dormitar no sofá ou se chamava todos os cães das redondezas para fazer uma rave. Digamos que precisamos de tentar um pouquinho mais o desapego.

Mas voltando ao O Nosso Prego, como vos contei ele fica pertíssimo de minha casa por isso é um saltinho a pé, sendo que o espaço exterior engana bastante, porque achamos que vamos deparar com um sítio pequeno e apertado e quando entramos é todo um mundo gigantesco. Nem um minuto demorou para nos sentarem e quando dei por ela já estava a atacar sem dó nem piedade um queijinho fresco e umas fatias fantásticas de broa, tudo muito bem acondicionado como manda a legislação.

O Nosso Prego

Sabem aquelas pessoas tão simpáticas, mas tão simpáticas que possuem um sorriso que nos ilumina até as entranhas e que impede que fiquemos chateados com elas mesmo quando nos perguntam 25 vezes o nosso pedido? Foi uma dessas pessoas que nos atendeu, maravilhosa, calorosa mas um pouco sem memória. Revi-me completamente nela aquando os meus dias de farmacêutico comunitário.

Como pão e queijo não são suficientes para alimentar os gloriosos corpos da minha pessoa e do Cara-Metade decidimos antes dos pratos principais atacar umas belas sopas.

O Nosso Prego

Eu uma sopa da pedra, atulhada de coisas boas mas felizmente sem nenhuma pedra para me partir os dentes. Confesso que fiquei extremamente surpreendido pela positiva com a qualidade desta sopa. Já o creme de marisco do Cara-Metade, apesar de estar gostoso tinha um sabor um pouquinho demasiado industrializado. Estaremos perante um caso de caldoknorrite? Da próxima vez prometo que vou à cozinha investigar!

O Nosso Prego

No que toca ao prato principal tive de escolher aquele que é o ex-líbris da casa, o prego, neste caso no prato, com tudo aquilo a que tenho direito: arroz, batata e ovo estrelado. Honestamente só dispensava ter direito a tantos alhos em cima do meu lindo prego, mas provavelmente o restaurante olhou para a minha cara e viu os meus níveis de colesterol e achou que eu tinha de fazer um reforço de alicina para manter a parte cardíaca minimamente saudável.

O Nosso Prego

O Cara-Metade foi pelo bitoque à nosso prego e não sobrou nem um bocadinho para amostra, apesar de para o palato dele o molho não estar a 100%. Explicou-me ele eloquentemente que o facto de eles aplicarem directamente cerveja na chapa onde grelham o bife sem qualquer outro tipo de aromático para deglaçar o local onde o pedaço de carne cozinhou, faz com que a amargura da cerveja se reflicta na iguaria final e dê ao molho um toque desagradavelmente amargo e adstringente. Enquanto ele falava eu aproveitava para molhar um pedaço de pão na molhanga dele pingando-me todo, mostrando que serei sempre uma pessoa cheia de classe (ou não!).

O Nosso Prego

O Nosso Prego é o típico restaurante que possui um doce da casa que é sempre uma aposta ganha. E neste caso não desiludiu.

O Nosso Prego

Se me perguntarem o que levava este pedaço de tentação não vos sei dizer com certeza. Bolacha, natas, talvez leite condensado. Só sei que teoricamente era para dividir mas quando dei por ela o Cara-Metade já a tinha comido quase toda. Talvez a canção com que o Salvador Sobral ganhou a Eurovisão necessite de uma actualização. Em vez de amar pelos dois devia-se chamar comer pelos dois. Pelo menos comer a sobremesa fantástica do O Nosso Prego pelos dois. Mas talvez aí não tivéssemos trazido o troféu para casa!

O Dia em que Perdi a Fé!

20.02.22, Triptofano!

Por vezes vemos pessoas em entrevistas a detalhar minuciosamente aquele momento em que descobriram e abraçaram a fé. No meu caso foi no domingo depois do jantar que, após um gesto da maior simplicidade, a minha relação espiritual com o divino mudou. Só que para pior, visto ter perdido toda a fé que possuía.

Eu era uma pessoa crente, que acordava todos os dias com um sorriso no olhar e um esgar de esperança nos lábios. Todas as manhãs fazia as minhas orações, de forma devota e apaixonada. As palavras fugiam-me dos lábios com uma velocidade equiparável àquela com que as pensava. Repetia este momento fervoroso a meio da tarde e ao deitar, sempre com uma esperança inabalável que havia algo maior do que eu que iria interceder por mim.

Estava tranquilo porque tinha fé, e porque tinha fé não me preocupava. Os dias passavam com a melancolia de quem acredita que tudo vai ficar bem desde que coloque o seu futuro nas mãos de um destino já traçado. Era feliz porque sabia que o sonho comanda a vida e que acreditar é o primeiro passo para a mudança.

 Mas tudo mudou depois daquele jantar de domingo, após um delicioso e caseiro arroz de espigos de couve. Decidi que queria colocar a minha fé à prova. Fui tentado dirão alguns. Deveria ter acreditado sem ousar questionar dirão outros. Mas eu precisava de saber se as minhas preces estavam a surtir efeito. Se não soubesse não me iria deixar de questionar e a dúvida é a maior inimiga da tranquilidade de espírito.

Tirei a balança de dentro da caixa. Flutuei para cima dela com o olhar trémulo de expectativa. 109.6 quilos. Em vez de emagrecer tinha engordado. Bem dizem que a fé alimenta a alma, mas nunca me tinham avisado que também era rica em calorias que se acumulam na zona da cintura.

Um de Nós Mente

19.02.22, Triptofano!

No meu primeiro ano do curso de ciências farmacêuticas, há quase 20 anos atrás, uma colega perguntou-me se não queria fazer com ela uma espécie de jornal universitário. Porém esta seria uma publicação não para promover feitos académicos ou workshops sobre como estudar para três cadeiras num fim-de-semana sem ter um ataque cardíaco mas sim para dar a conhecer os rumores mais suculentos e perversos da faculdade.

Sabiamente disse que não, principalmente pelo facto de, apesar de adorar uma boa fofoca, não ser o tipo de pessoa que as consegue descobrir. Esconder-me em cubículos de casa-de-banho para ouvir conversas alheias, perseguir pessoas de forma sinistra pelos corredores dos pavilhões ou hackear contas de Facebook não fazem parte do leque de capacidades que adquiri a nível académico.

E ainda bem que disse que não, porque caso contrário hoje poderia estar morto, estendido que nem um carapau seco ao sol a desintegrar-me em poeira do tempo. Acham que estou a ser dramático? Isso é porque ainda não viram Um de Nós Mente.

Um de Nós Mente

Os caminhos de cinco alunos do secundário cruzam-se no castigo, mas será uma letal mistura de homicídio e segredos a mantê-los unidos durante um jogo de gato e rato.

A história desta série é bastante simples. Um jovem super "amoroso", que poderia muito bem ter sido a minha pessoa apesar de eu ser verdadeiramente amoroso sem necessidade de utilizar aspas, decide que quer expor toda a hipocrisia e podridão escolar, e para isso faz um blog online onde escreve tudo o que lhe vai na alma. Claro que a primeira coisa em que pensamos é que ele o faz de forma anónima para ninguém lhe dar uma carga de porrada, mas não, este protótipo de jornalista da CMTV não se preocupa em que todos saibam a sua identidade. Um pouco estranho confesso, porque dá-se ao trabalho de usar uma VPN para fingir que está a publicar da Papua Nova-Guiné para depois dizer de boca cheia que é ele que anda a tramar a vida de tudo e todos.

Obviamente que as coisas não lhe vão correr bem eternamente, e quando dá por si a cumprir castigo depois das aulas com mais quatro colegas fofinhos é em menos de nada que alguém misteriosamente o consegue matar.

Os oito episódios de Um de Nós Mente rodam todos em volta desta morte, já que os estudantes que estavam na sala onde ocorreu a tragédia possuem segredos que não querem que ninguém venha a descobrir, e qualquer um deles pode facilmente ser o assassino.

Como numa boa série há voltas e reviravoltas e pistas que parecem totalmente certas mas que vão dar a um beco sem saída e aquela personagem que nós jurávamos a pés juntos que era a culpada afinal é inocente e a outra que estava ali com cara de paisagem é que afinal é um furacão letal.

O melhor de tudo? É que no fim há indícios de que vai haver uma segunda temporada com, desejavelmente, mais uma morte ou outra para uma pessoa se entreter a fazer apostas sobre quem é o verdadeiro culpado!

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