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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Fevereiro | As minhas metas de leitura

31.01.22, Triptofano!

Se Janeiro marcou o meu regresso à leitura, Fevereiro é o mês em que espero consolidar esse hábito, evitando ceder à tentação de passar horas infindáveis nas redes sociais e utilizar esse tempo para perder-me nas páginas de um bom livro.

Nos próximos 28 dias estas são as minhas metas de leitura:

1 | A Elizabeth Desapareceu - Emma Healey : Na verdade já vou a meio deste livro mas tive de fazer uma pausa porque estava a sentir uma incrivelmente estranha osmose literária, sobre a qual vos falarei mais quando terminar o livro. A personagem principal é uma octagenária que acredita que a sua melhor amiga desapareceu. O problema? Sofre de Alzheimer o que torna a realidade adquirida num conjunto de interrogações sufocantes.

2 | O Rapaz que Falava com o Diabo - Justin Evans : Comprei este livro em Janeiro num pack promocional que o Facebook me impingiu e desde que chegou a casa que me está a piscar o olho sorrateiramente. A sinopse promete um thriller psicológico que nos deixa agarrados em suspense até à última página. Veremos se cumpre.

3 | Um Quarto que Seja Seu - Virginia Woolf : A obra literária de Fevereiro escolhido para o clube do livro Heróides. Em princípio no sábado do encontro estarei de fim-de-semana no Algarve mas nem isso vai-me impedir de participar num clube que tão bem me surpreendeu. Descobri que o Continente possui a versão de bolso a um preço muito simpático por isso quando for às compras vai estar no topo da minha lista.

4 | Tender is the Flesh - Agustina Bazterrica : Encontrei este livro através de uma conta de TikTok onde falavam maravilhas sobre ele. Passa-se numa realidade distópica onde todos os animais passam a ser venenosos e por isso os seres humanos tornam-se canibais. Infelizmente ainda não tenho o livro nas minhas mãos mas espero que ele chegue rapidamente para poder partilhar convosco se realmente vale a pena ou não!

E vocês, quais são as vossas metas de leitura para Fevereiro?

Bingo Parlamentar

30.01.22, Triptofano!

Preferia mil vezes estar no Iberostar Club Boa Vista em Cabo Verde, a comer amendoins, a beber mojitos e a lutar freneticamente pela vitória no bingo das quintas-feiras onde o prémio é um íman em forma de tartaruga, do que escarrapachado no meu sofá a olhar para os resultados das eleições e a matutar se o Covid-19 além de atacar os pulmões também baralha as ideias do pessoal.

Eu compreendo que a tendência futura seja a radicalização do voto por um sentimento de injustiça política e de revolta pelo status quo, mas há sempre a possibilidade de se fazerem votos de protesto em partidos que possuam programas eleitorais minimamente elaborados e que não ponham em causa os direitos e liberdades de certos grupos de cidadãos. É que votar em alguém só porque se gosta de uma parte do discurso e ignorar o resto porque supostamente vivemos em 2022 e barbaridades já não acontecem, é um pequeno grande passo para quando dermos conta estarmos a viver outra vez na Idade Média e a queimarmos pessoas por bruxaria só por conseguirem bater claras em castelo na Bimby.

Pensando novamente no bingo tenho alguma curiosidade para saber nos próximos tempos qual é o número da cadeira parlamentar a ser seleccionada e a dar a maravilhosa oportunidade de um deputado ou deputada fazer uma evolução, qual lagarta a sair do seu casulo transformada em borboleta, e passar a não-inscrito.

Deputado não-inscrito é aquela personagem maravilhosa que é eleita através de um partido mas que acredita piamente que o povo votaria em si qualquer que fosse a força política onde estivesse, porque o que conta são os seus lindos olhos e capacidade de retórica. Assim, quando se chateia com a sua casa-mãe em vez de abandonar o barco e dar lugar ao seguinte, fica agarrado ao seu banco parlamentar qual lapa agarrada a uma rocha. Nem que uma pessoa vá lá com uma faca o consegue tirar, porque sejamos honestos, 3 mil e tal euritos não se ganham em qualquer trabalho e as rendas das casas estão pela hora da morte.

Podem-me vir dizer que há realmente deputados que foram eleitos pelo seu carisma e que se não fossem eles o partido que decidiram abandonar não tinha tido sequer votos para receber aquela subvenção estatal que permite espalhar cartazes e painéis em tudo o que é sítio. Então eu defendo algo que ouvi pela primeira vez da boca do Nós, Cidadãos, que é a possibilidade de qualquer cidadão poder se candidatar de forma independente à Assembleia da República, sem necessitar de estar integrado nas listas de nenhuma força partidária.

Claro que haveria a possibilidade do parlamento se tornar numa espécie de All Together Now, com todas as cadeirinhas ocupadas por celebridades a mandar bitaites sobre as propostas de lei apresentadas pela nossa futura presidenta, a maravilhosa vendedora número 1 de bifanas, Cristina Ferreira. O único problema é que aí é que a TVI perdia as audiências, porque ia estar tudo sintonizado no Canal Parlamento, nem que fosse para discutir qual a cor do vestido da moça ou se ela assim vestida se parecia mais com um marcador ou com um Calippo de limão.

A minha primeira vez no Heróides!

29.01.22, Triptofano!

Lembram-se deste post, onde vos falei sobre o Heróides, o clube do livro feminista? Pois bem, hoje foi a primeira sessão de 2022, com um encontro online que reuniu aproximadamente 200 pessoas.

Confesso que fui um bocado a medo: com medo que fosse uma reunião chata e aborrecida com pessoas a divagar sobre temas extremamente filosóficos de que ninguém percebe nada mas toda a gente acena com a cabeça em afirmação, ou, pior, que fosse um encontro de gente extremista que arranca páginas de livros quando há passagens que não são feministas o suficiente e as mastiga furiosamente cuspindo uma amálgama de tinta, papel e cuspo.

Os meus medos rapidamente se dissiparam e deram lugar ao que foi um dos meus melhores momentos deste 2022. A reunião do Heróides foi simplesmente fantástica, a coordenação maravilhosa, a convidada extremamente interessante sem cair na facilidade do egocentrismo, as intervenções extremamente pertinentes. Foi tudo tão bom que nem tenho palavras para descrever, foi um alimento para a alma e um bálsamo para o intelecto. Estar ali no meio de tantas pessoas com paixão pelos livros numa conversa delicadamente fluida como um soneto foi memorável.

Acabei por fazer uma intervenção, com a voz um bocadinho a tremelicar, porque não estava à espera de ter a oportunidade, e apesar de muitos acharem que não, sou uma pessoa ansiosa que gosta de se preparar até à exaustão quando precisa de intervir em algo. Ali foi-me tirado o tapete da antecipação, mas na verdade até gostei da espontaneidade do momento. Talvez necessite de mais momentos espontâneos nesta fase da vida.

Entrei na reunião como Triptofano [nem sei porque o fiz, foi mais um gesto irreflectido no qual não ponderei prós e contras] e apesar de ter tido a confirmação que escolhi um pseudónimo difícil de inicialmente pronunciar, foi com um aperto especial no peito que vi uma mensagem no chat a dizer que gostavam do meu blog. Num mundo tantas vezes agressivamente caótico é absurdamente reconfortante ler palavras tão simples mas com uma dimensão de um abraço aconchegante.

Quanto ao livro que foi debatido tratou-se de O Coração é um Caçador Solitário, uma história passada nos anos 30 escrita por Carson McCullers quando esta tinha apenas 23 anos. Digo apenas porque a profundidade emocional do enredo e a forma como as personagens são construídas remete a alguém com uma experiência de vida difícil de encontrar em quem ainda nem três décadas de existência possuía. O Coração é um Caçador Solitário é um livro apaixonante, arrebatador, que nos liga a cada indivíduo retratado nas suas páginas de uma forma que nunca suspeitámos ser possível.

No sul dos Estados Unidos, numa vila da Georgia nos anos 30, num cenário desolado de intolerância racial e isolamento, John Singer, um surdo-mudo, torna-se de súbito confidente de um grupo de personagens marginais quando o seu único amigo, também surdo-mudo, é institucionalizado e a sua rotina se altera.
Mick Kelly é uma adolescente, apaixonada pela música, sonha compor sinfonias e é filha dos proprietários da pensão onde Singer vive; Jake Blount é um agitador socialista que passa os dias alcoolizado; Biff Brannon é o desiludido proprietário de um pequeno café com desejos sexuais ambíguos; e Benedict Copeland é um médico negro que luta, em vão, pela igualdade racial. Todos sentem que não encaixam nos papéis que a sociedade lhes reservou, todos procuram à sua maneira preencher o vazio deixado pelos sonhos perdidos — e todos, por algum motivo, acham que Singer os compreende.
Mas o impassível Singer procura apenas em cada visita arrancar o seu amigo à indiferença…

A minha primeira vez no Heróides!

Este livro nunca teria sido escolhido por mim se não fosse a Heróides. E agora estou em pulgas para o entregar à minha mãe e poder conversar com ela sobre toda a trama, com telefonemas pontuais para perceber quanto avançou e a espicaçar para que deixe as lides domésticas de lado e se embrenhe de corpo e alma naquela obra prima encadernada.

Fevereiro vai ser mês de Virgina Woolf. Um Quarto que Seja Seu é a obra escolhida. Estou verdadeiramente entusiasmado para que a data do próximo encontro chegue, e possa voltar a estar entre uma multidão de ávidos leitores!

Faltam 7 minutos

28.01.22, Triptofano!

Faltam 7 minutos para a meia-noite. Olho para a página em branco que teimosamente insiste em engolir todas as letras que furiosamente lhe impresso. Sinto que estou num daqueles sonhos jocosos onde uma pessoa corre freneticamente mas nunca sai do mesmo sítio.

Faltam 5 minutos para a meia-noite. Demorei dois minutos a escrever um par de linhas. O relógio assusta-me porque devia estar do meu lado, abrandando a passagem do tempo enquanto eu alinho as palavras que quero escrever. Os dedos estão entorpecidos, como que ligados à névoa que devora a minha rede de neurónios, visivelmente atordoada pelo cinzento da noite.

Faltam 3 minutos para a meia-noite. Começo a duvidar se algo do que escrevi faz sentido. A vontade de apagar tudo num gesto brusco cresce desenfreadamente. Resisto e articulo o mais celeremente possível ideias, conceitos, pensamentos, tudo o que possa mostrar o que estou a sentir, que não passa de uma amálgama de tudo e de nada, uma alegria monstruosa a par de uma apatia deveras assustadora.

Falta 1 minuto para a meia-noite. Não tenho mais tempo. Precipito-me sequiosamente na busca do botão de publicar. Daqui a 1 minuto será um dia novo. Fecho os olhos e teletransporto-me para o futuro. Serei diferente nessa realidade longinquamente próxima? Irei descobrir...mas temo que não.

Post escrito em tempo real, como se houvesse um tempo a fingir, desenfreadamente à busca de palavras para exprimir a frustração de não conseguir por no papel os sentimentos. Escrever é a melhor terapia, mesmo quando nada do que se escreva pareça fazer sentido. Mas no fim de contas saberemos em que sentido devemos ir ou é lançar os medos borda fora e ousar entrar em contra-mão?

Desafio de Escrita do Triptofano | A Prisão

27.01.22, Triptofano!

Desafio de Escrita do Triptofano | A Prisão

 

Francisco fechou os olhos, sorriu com o estômago e inspirou profundamente.

Talvez aquele retiro no mosteiro da Tailândia três anos atrás sempre servisse para alguma coisa, além da perda indesejável de peso devido a uma gastroenterite que o deixou de cama durante um par de dias. Lembrou-se das palavras expelidas num inglês rudimentar que o monge veterano dizia ao conduzir a meditação: Faça a sua mente acreditar que está num lugar diferente.

Francisco bem queria aldrabar a mente fingindo que estava em outro sítio, mas as condições não permitiam tal façanha. A cama onde se sentava de tão dura que era já lhe tinha transformado o rabo num paralelepípedo, a parede a descascar tinha veios de humidade que lhe penetravam desconfortavelmente pelas costas, já sem falar no facto de ser obrigado a estar descalço o que lhe provocaria no mínimo um resfriado se não tivesse o azar de apanhar pé de atleta. E aquela bola agarrada ao tornozelo? Aquela bola matrafona era talvez o pior a que estava sujeito, mas tinha sido uma imposição que não conseguira negociar.

Forçou-se a sorrir tranquilamente com mais força. Há quanto tempo estaria ali? Parecia que já tinha passado uma eternidade e meia. Os dentes rangeram sob a força que aplicou no maxilar, indignando-se silenciosamente com a sua situação. Como é que tinha ido parar àquela situação? Logo ele que dedicara tantas horas da sua vida ao estudo, que viajara para lugares recônditos para se aperfeiçoar enquanto ser humano, que até tinha dormido com o número certo de pessoas para assegurar a ascensão vertiginosa da sua carreira. Se calhar não tinha dormido com o número suficiente de pessoas. Ou teria dormido com pessoas a mais?

Corta! ouviu-se uma voz enfezada gritar vinda do corpo macilento e crespo de um rapaz de vinte e poucos anos.

Francisco levantou-se ruminando indignações para dentro, agitando as pernas para as desentorpecer fazendo a bola preta de esferovite saltitar ao compasso dos seus movimentos. Como raio é que tinha vindo acabar a protagonizar filmes de categoria rasca para trabalhos de final de curso de estudantes de cinema?

Fechou os olhos, sorriu com o estômago e fez a sua mente acreditar que estava nos estúdios de uma telenovela da moda onde era o galã principal. Esse sim era o seu lugar por direito, e ia fazer de tudo para o reclamar. Nem que para isso tivesse que matar...

***

Descubram também os textos da Ana D., da Marta - O meu canto, da Maria Araújo, da Sofia e da Bii Yue. Querem participar? Vejam aqui como!

DIY Candeeiros

26.01.22, Triptofano!

A minha vizinha da frente adora o Cara-Metade. Segunda ela nunca viu rapaz tão prendado, que sabe fazer as coisas da mulher e as coisas do homem. Honestamente o que mais me incomoda nem é a visão antiquada da divisão de tarefas por género, onde as mulheres cozinham e limpam a casa e os homens fazem a bricolage e transportam pilhas de lenha escadas acima. É o facto de eu na relação ser relegado aos olhos dela para o papel de planta, que pouco ou nada faz e alimenta-se através do computador numa espécie de fotossíntese tropical-industrial.

Verdade seja dita não posso apontar o dedo à vizinha. Cozinhar não é o meu forte e sou grato ao universo por ter capacidade económica para ter uma senhora que vem fazer limpezas cá a casa uma vez por semana. Relativamente à bricolage só mesmo se for para fazer um role-play sexy, porque martelos e brocas e coisas que tais são ferramentas que as minhas mãos não conhecem. Transportar lenha ainda vá que não vá, apesar de ser mais adepto do carregamento dos sacos de batatas, porque há aquele incentivo extra que é pensar que as vamos comer depois.

Voltando ao tema deste post que é sobre o quão prendado o Cara-Metade é, como devem saber mudar para uma casa nova é um processo que não termina no dia das mudanças, porque há sempre pequenas reparações a fazer, comprar mobília, tratar da decoração, etc, etc, etc.

Uma das coisas que queríamos há algum tempo era começar a colocar candeeiros nas divisões [temos sancas com iluminação, não pensem que andámos este tempo todo a sobreviver à luz das velas] e o Cara-Metade idealizou um candeeiro assim mais tribal-indígena-boémio-chique ou lá o que lhe queiram chamar.

Andou três dias de volta do projecto. Desde comprar os materiais, a fazer furos e furinhos e furadelas e a revestir cabos foram dias de trabalho árduo. Para ele obviamente, que eu simplesmente fiquei a observar e a orientar artisticamente a coisa, pedindo um cesto mais para baixo, outro mais para cima, uma curva mais dramática no cabo...ou seja a fazer de treinador de bancada.

Ainda há alguns detalhes que são precisos afinar, mas o resultado final para mim ficou maravilhoso. Especialmente por saber que foi o homem prendado que partilha a vida comigo que o fez!

DIY Candeeiros

DIY Candeeiros

 

 

Rebelde | A série da Netflix que é mais do mesmo

25.01.22, Triptofano!

Imaginem um cruzamento de Elite com Glee com Escola António Arroio. Já imaginaram? Então apresento-vos Rebelde, a série da Netflix que de rebelde apenas possui o nome, porque na verdade é mais do mesmo.

Começa um novo período na Elite Way School e um inimigo familiar, a sociedade secreta Loja, ameaça destruir as esperanças musicais dos caloiros.

Rebelde | Netflix

Com episódio e meio visto, já vos consigo fazer um resumo bastante preciso de todo o enredo. Trata-se de uma escola de miúdos ordinariamente ricos que obviamente têm uma data de problemas familiares, que ser rico e não ter drama na família está totalmente fora de moda, e que procuram desesperadamente fazer a mudança no mundo e em si mesmos através daquilo que mais amam: a expressão musical!

Claro que em escola de ricos que se preze existe sempre um ou outro pobretanas que entrou com uma bolsa mas que é o que de entre todos mais carisma tem e que obviamente vai acabar por papar a personagem feminina principal, e um falso pobretanas que adora ter estilo de rua mas na verdade dorme em lençóis da Gucci e num pijama da Dior mas que não quer que ninguém descubra.

Tal como em tantas outras séries também há um casalinho inicial irritante que está visto que não vai ficar junto, já que a personagem feminina vai papar e ser papada pelo pobretanas carismático, sendo que ambos desenvolvem uma paixão assolapada nos primeiros quinze segundos que botam olhos um no outros, apesar de todos sabermos que amor à primeira vista só existe nas comédias românticas e que na juventude de hoje em dia no máximo há um pico de hormonas à primeira visualização de uma foto NSFW enviada pelo Instagram.

Em Rebelde até agora ainda não houve nenhum assassinato, mas calma que ainda só vou a meio do segundo episódio por isso tudo ainda pode acontecer. Por enquanto só houve um incêndio e um pé torcido, mas não quero acreditar que seja esse o mistério no qual vão basear todos os oito episódios. Afinal supostamente há uma sociedade secreta chamada Loja, e eu estou a torcer para que seja a Loja do Mestre André e que os caloiros para se manterem na escola tenham que aprender a tocar num pifarinho e num tamborzinho e num pianinho e em tudo acabado em inho que o Mestre André tenha na sua loja.

Claro que com tanta crítica menos positiva podia utilizar o meu tempo para ver outra coisa qualquer. Mas apetece-me dar uma de rebelde e ver até ao fim, nem que seja para depois vir aqui lamentar-me de como perdi o meu tempo!

 

 

Tratamento Real | O filme pipoca da Netflix

24.01.22, Triptofano!

Não há nada como um bom filme pipoca. Um filme pipoca é aquela película em que uma pessoa desliga o cérebro e fica a seguir a história em modo automático, só se apercebendo do tempo que passou quando descobre que mamou meio quilo de pipocas em menos de hora e meia está com os dentes e a camisola cheia de bocados irritantes do cereal. Tratamento Real é a verdadeira definição do filme pipoca e, confesso, que no momento em que li a descrição do filme achei que ia ser um daqueles muito mauzinhos.

Izzy, uma cabeleireira de Nova Iorque, aceita trabalhar no casamento de um príncipe encantador, mas quando a chama acende, o que irá prevalecer... o amor ou o dever?

Tratamento Real | O filme pipoca da Netflix

Surpreendentemente Tratamento Real até é um filme bastante aceitável, especialmente devido à borbulhante actriz principal, uma versão italo-americana da Madre Teresa de Calcutá. Uma jovem linda e simpática, que mesmo perante o desastre possui sempre um olhar cheio de optimismo, que anda pela rua a distribuir pedaços redondos de diabetes, também conhecidos como donuts, e que alimenta as crianças aparentemente famintas do seu bairro. Se por um lado esta potencial vencedora do Nobel da Paz, diga-se de passagem muito menos irritante que a Greta, faz-nos ter esperança na humanidade, por outro leva-nos a sentir uma pontada nas cruzes por não sermos tão empáticos e altruístas.

Izzy, o nome desta nova reencarnação do Buda, também é bonita e jeitosa. Obviamente que se fosse uma matrafona o filme perdia metade do seu encanto. E claro que também possui um talento para as manualidades, podia ser para fazer rissóis ou croquetes, mas neste caso é para cortar cabelo. Izzy obviamente que possui uma mão cheia de amigos e uma família sorridente, porque toda a gente a adora, e apesar de praticamente falida consegue encontrar sempre uns trocos perdidos na bolsa para pagar gelados ou comprar souvenirs.

Quis o destino que Izzy encontra-se um príncipe sem ter que andar toda assanhada nas festas do social. Basicamente foi só ter que atender o telefone. E lá estava ele, um membro da nobreza sem filhos escondidos nem nenhum vício em cheirar cola UHU. E não seria de esperar outra coisa do que ser um príncipe jeitoso, sem monocelha nem hálito de dragão. O único problema é que está mesmo para se casar, mas pobrezinho casa-se sem amor, casa-se por conveniência como se ainda estivéssemos no século XIV e mandássemos via barco um quadro da nossa filha de 9 anos para se casar com um balofo de 33 de forma a que ambos os reinos se juntem numa super potência mundial. E claro que quando vê Izzy todo o seu mundo muda, toda a verdadeira razão da vida se desvenda em frente do seu olhar até então tão nublado pelas coisas que os príncipes necessitam de fazer, sejam elas quais forem.

Está visto que a nossa protagonista não vai deixar que a fama e a riqueza lhe subam à cabeça, e vai manter a humildade do seu carácter, convivendo com a plebe, dançando e cantando, tratando-os como seres humanos em vez de os prender a um poste e castigá-los com chicotadas a seu belo prazer. Ela não é nenhuma Georgina a esbanjar o seu status social e se alguma vez a encontrarem num documentário do Netflix é descalça a viver num retiro nas Filipinas.

E depois há o beijo. Tem que haver sempre um beijo, apaixonado, intenso, ardente de paixão. Um beijo que sele todo aquele reboliço de emoções que havia dentro das personagens principais e necessitou de hora e meia para ser vomitado cá para fora. Agora pergunto eu, com um crescendo amoroso tão incontrolável, como se sentiria Izzy se ao beijar o seu príncipe ele fosse simplesmente mau de boca? Se lhe abrisse as beiças e lhe abocanhasse de uma vez só nariz, queixo e tudo o que estivesse no meio? Ou se pelo contrário de forma muito pudica mantivesse os lábios quase cerrados, e em vez de deixar uma pessoa espetar a língua dentro da sua cavidade oral apenas projectasse os dentes para a frente num embate de esmalte com esmalte?

Será que o romance sobrevive a um príncipe que não saiba beijar? No caso de Izzy acredito que sim. Se fosse comigo era aguentar o tempo suficiente para me poder divorciar e ficar com metade dos bens!

Votei Antecipadamente!

23.01.22, Triptofano!

Votei antecipadamente! Pela primeira vez na minha vida enquanto eleitor usufrui da possibilidade de votar uma semana antes da data oficial. Não o fiz por estar longe de casa mas sim por respeito pela saúde dos outros, porque por muito que não pareça, ainda vivemos em sociedade e não numa anarquia umbigocêntrica onde é tudo a nós e nada aos outros.

Felizmente, que eu saiba, ainda não fui apanhado pelo bicho do Covid-19. Porém, tendo em conta o número crescente de novos casos, não sei o que é que me poderá acontecer nesta próxima semana, sendo que tanto posso escapar por entre os pingos da chuva como ficar infectado. E sim, sei que mesmo as pessoas que estão em isolamento vão poder ir votar, mas eu não concordo com essa medida pensada ali à última da hora em cima do joelho.

O direito a votar é algo extremamente importante. É um direito que menosprezamos sempre que nos abstemos. É preferível votar em branco ou fazer o desenho de uma sandes de marmelada do que simplesmente ignorar algo que nos pode ser tirado sem sequer darmos conta. Mas mais importante que o direito a votar é o dever de defender a saúde dos outros. Porque se a Constituição prevê o direito à protecção da nossa saúde, não podemos ver as coisas apenas num sentido e sim ter a sensibilidade e o bom-senso de compreender que não somos o centro do sistema solar, e que as outras pessoas, muitas vezes que até se encontram em situações mais debilitadas, merecem que nos preocupemos com elas e que defendamos a sua saúde.

Se soubesse que estava infectado nunca iria sair para votar. Já é mau o suficiente quando uma pessoa não sabe e acaba por espalhar o vírus. Agora saber e sair é algo que não me entra na cabeça. Porque as pessoas não se teletransportam como por magia para a mesa de voto. Precisam de fazer um percurso até lá, se calhar até vão ter que usar os transportes públicos. Não faz sentido colocarmos as pessoas em isolamento para depois dizermos que afinal podem sair naquele dia. Durante meia hora? Uma hora? O dia todo?

Claro que as forças políticas deviam ter pensado com alguma antecedência sobre que medidas implementar para diminuir o impacto do isolamento nos resultados das eleições. Voto electrónico à distância? Recolha de votos ao domicílio por equipas especializadas? Criar uma data extra para aqueles que estivessem infectados à data das eleições?

Como Portugal é perito nas decisões criativas à última da hora decide-se que todos podem ir votar independentemente de saberem que estão infectados ou não. A única obrigatoriedade é usar máscara cirúrgica ou FFP2, porque as comunitárias são boas o suficiente para impedirem o contágio no supermercado mas para as eleições já não prestam. Uma curiosidade, vai estar alguém a controlar se as máscaras aprovadas estão a ser utilizadas pela primeira vez ou se são daquelas que uma pessoa esquece no bolso durante semana e meia e fica a cheirar a cotão e a chiclete de mentol? É que da última vez que verifiquei essas máscaras não são assim muito eficientes, mas pronto, reutilizar parece ser a palavra de ordem.

Mediante este panorama dantesco, quase tão assustador como certos partidos políticos que asseguram a pés juntos que morreram vítimas da pandemia menos de duas centenas de pessoas, decidi que a melhor coisa era votar antecipadamente. Agora se o Covid me apanhar já fico mais tranquilo!

Um regresso a Chiang Mai | Mango Sticky Rice

E um Caril Vermelho com Lombinho de Porco e Arroz Glutinoso para prato principal

22.01.22, Triptofano!

A Tailândia é um país verdadeiramente imperdível. Tive a sorte de poder ter visitado esta pérola do Sudeste Asiático três vezes. A primeira sozinho, no regresso de uma viagem ao Laos; a segunda com uma amiga, como ponto de passagem antes de rumar ao Vietname e ao Cambodja; e a terceira, a mais especial, com o Cara-Metade e a minha Mãe, onde pude descobrir mais do país passando das fronteiras da capital.

Num dos últimos dias de viagem, estávamos em Chiang Mai, uma cidade do norte montanhoso da Tailândia, quando decidimos ir fazer um curso de cozinha Thai e Akha, sendo os Akha um grupo étnico minoritário com aldeias espalhadas por partes do norte da Tailândia. Inicialmente a minha mãe não queria ir, porque achava que ia fazer má figura e mais uma data de argumentos sem sentido algum. Depois de ser praticamente arrastada para o curso acabou por adorar a experiência, tendo feito um brilharete a dominar a cozinhar e apaixonou-se eternamente por uma sobremesa de Mango Sticky Rice.

Um regresso a Chiang Mai

A partir do livro de receitas que nos deram nesse curso de cozinha [quem tiver interesse posso enviar por e-mail a verão pdf] o Cara-Metade, num saudoso regresso a essa maravilhosa cidade, brindou-me com um caril vermelho com lombinho de porco e arroz glutinoso e um mango sticky rice para sobremesa.

Caril Vermelho com Lombinho de Porco e Arroz Glutinoso

Caril Vermelho com Lombinho de Porco e Arroz Glutinoso

Tempo de Preparação: 4/5h + 20min

Tempo de Confecção: 1h (aproximadamente)

Rendimento: 3 pessoas

Caril Vermelho com Lombinho de Porco e Arroz Glutinoso

Ingredientes:

Para a Pasta de Caril Vermelho | เครื่องแกงเผ็ด | Kreuang Gaeng Phet

  • 1 colher de chá de pasta de malagueta
  • 1 dente grande de alho
  • 1 cebola pequena
  • 1 pedaço de erva príncipe
  • 1 pedaço de galangal
  • 3 folhas de lima-kaffir
  • 1 pedaço de casca de lima
  • 1 pedaço de curcuma ou açafrão-das-índias
  • 1/4 colher de chá de pimenta preta
  • 1/4 colher de chá de cominhos
  • 1/4 colher de chá de pasta de camarão

Caril Vermelho com Lombinho de Porco e Arroz Glutinoso

Para o Caril de Porco Tailândes:

  • 400ml de leite de coco
  • 100ml de água
  • 1 tomate
  • 1 lombinho de porco pequeno
  • 1 cenoura pequena em palitos finos
  • 100gr de cogumelos palhinha
  • Molho de soja ou molho de peixe, a gosto

Para o Arroz glutinoso:

  • 200gr de arroz glutinoso (Nota 1: atente que arroz glutinoso é diferente de arroz para sushi; Nota 2: caso pretenda fazer a sobremesa Mango with Sticky rice dobre a quantidade de arroz que vai demolhar e cozer)
  • Água q.b. para produzir vapor

Caril vermelho com lombinho de porco e arroz glutinoso

Método de Preparação:

Para a Pasta de Caril Vermelho

  1. Num almofariz triture todos os ingredientes até se obter a consistência de pasta.

Para o Caril de Porco Tailândes:

  1. Leve o leite de coco com a água ao lume alto. Junte a pasta de caril vermelho, mexendo com frequência para garantir que não queima no fundo.
  2. Adicione o lombinho de porco cortado em tiras e todos os legumes. Deixe cozinhar em lume brando por cerca de 40 minutos ou até a carne se encontrar macia.
  3. Desligue o lume e retifique o nível de sal com molho de soja ou molho de peixe. 
  4. Sirva quente, decorado com pedaços de lima e coentros picados.

Para o Arroz glutinoso:

  1. Demolhe o arroz durante 4 a 5h.
  2. Lave o arroz em várias águas até que estas saiam totalmente transparentes.
  3. Com a ajuda de uma vaporeira, coloque o arroz dentro de um pano de algodão (cheese cloth) e tape a vaporeira deixando o arroz cozinhar por cerca de 45 min.
  4. Sirva de imediato sem deixar secar.

Caril vermelho com lombinho de porco e arroz glutinoso

 

Mango Sticky Rice | ข้าวเหนียวมะม่วง - Khao Niao Ma Muang

 Mango Sticky Rice

Tempo de Preparação: 4/5h

Tempo de Confecção: 1h

Rendimento: 3-4 doses

Mango Sticky Rice

Ingredientes:

  • Arroz glutinoso (cerca de 200gr para 3 pessoas)
  • 200ml de leite de coco
  • 100ml de água
  • 30gr de açúcar
  • ¼ de colher de chá de sal
  • 1 manga madura, descascada, sem caroço e cortada em fatias grossas 
  • Sementes de sésamo negras para decorar

Mango Sticky Rice

Método de Preparação:

  1. Demolhe o arroz durante 4 a 5h.
  2. Lave o arroz em várias águas até que estas saiam totalmente transparentes.
  3. Com a ajuda de uma vaporeira, coloque o arroz dentro de um pano de algodão (cheese cloth) e tape a vaporeira deixando o arroz cozinhar por cerca de 45 min.
  4. Adicione o leite de coco, a água, o açúcar e o sal numa panela em lume alto. Mexa até dissolver todo o açúcar. Reduza o lume.
  5. Deite a mistura de leite de coco por cima do arroz cozido. Misture bem e deixe repousar por cerca de 15 minutos.
  6. Junte os pedaços de manga fresca e decore com sementes de sésamo negras.

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